UOL Notícias Internacional
 

28/06/2009

O futuro do Iraque em jogo

El País
Carlos Mendo
Na próxima terça-feira o Iraque estará colocando em jogo seu futuro. Mas não só o Iraque. Também está em jogo, em grande medida, a credibilidade dos EUA e de seu presidente no Oriente Médio. Tudo dependerá de como se desenrolarão os acontecimentos na velha Mesopotâmia a partir de 30 de junho. Nessa data, e de acordo com as cláusulas do acordo de segurança e cooperação assinado no final do ano passado entre os governos de Bagdá e Washington, com George Bush ainda no poder, as tropas de combate americanas se retirarão de todas as cidades iraquianas e cederão o controle da ordem pública e a luta contra os restos da organização terrorista Al Qaeda na Mesopotâmia às forças militares e de segurança do Iraque.

  • Ali Al-Saadi/AFP

    Soldado norte-americano patrulha cidade de Mosul, no norte do Iraque. Autoridades demonstram insegurança sobre as condições de estabilidade do local, próximo ao fim do prazo de retirada das tropas da região

A retirada foi confirmada por Barack Obama durante sua única visita a Bagdá até agora, em abril, e reiterada em diversas ocasiões pelo primeiro-ministro iraquiano, Nuri el Maliki. Maliki, que incorporou a seu título de primeiro-ministro o de comandante-em-chefe - algo não previsto na Constituição em vigor -, referiu-se na semana passada ao 30 de junho como "uma data de união nacional e ao mesmo tempo um grande desafio nacional".

Evidentemente, um grande desafio porque, pouco depois que o dirigente iraquiano pronunciou estas palavras, um ataque suicida ao sul de Kirkuk causou a morte de 72 civis. A posição do governo de Bagdá sobre a retirada das forças americanas dos centros populacionais iraquianos e seu recuo para as bases parece imutável. O próprio Maliki manifestou depois do atentado que os ataques "não vão parar nem retardar" a retirada.

Os iraquianos, segundo se depreende das entrevistas publicadas na mídia nacional e estrangeira, consideram que a data marca a recuperação da plena soberania nacional. Estão convencidos de que suas forças de segurança, com cerca de 500 mil efetivos, serão capazes de controlar a situação, apesar do aumento dos atentados nos últimos meses, não só nas áreas conflituosas de Mosul e Kirkuk, onde curdos e turcomenos reivindicam de Bagdá uma maior participação na distribuição da riqueza do petróleo, mas também em cidades da província sunita de Anbar, como Faluja, consideradas até agora oásis de paz. A incógnita é saber se realmente as forças iraquianas serão capazes de enfrentar sozinhas, sem o apoio das unidades americanas, um aumento da violência.

Além do terrorismo da franquia nacional da Al Qaeda, o Iraque enfrenta problemas gigantescos em todas as frentes, desde a reconciliação nacional depois da ditadura sunita de Saddam Hussein à reconstrução dos serviços básicos do país, passando pela corrupção, que, como um polvo, se estende por todos os órgãos da administração. O próprio ministro do Interior, Jauad El Bolani, reconheceu em um recente artigo no "New York Times" que em seu ministério haviam sido expulsos por corrupção 62 mil funcionários nos últimos dois anos.

Mas nem tudo é negativo no Iraque. O país conseguiu uma estabilidade política e um índice de segurança impensáveis há pouco mais de um ano e meio. O Iraque tem um governo constitucional eleito pelo povo em eleições livres certificadas pela ONU e a UE, algo singular na região. Seus serviços e empresas públicas começam a funcionar, graças ao retorno gradual dos refugiados, em sua maioria sunitas de classe média, e à normalização das exportações de petróleo. E a liberdade de expressão de seus meios de comunicação é superior à de todos os países da região. (Lembrem-se das sapatadas em Bush durante uma entrevista coletiva com Maliki.)

Os EUA e especialmente seu presidente também apostam muito nessa nova jornada. Que o Iraque se transforme em um país medianamente estável e quase democrático é vital para a credibilidade dos EUA na região, onde inclusive seus aliados sunitas consideram a invasão um fracasso. Obama não pode resolver sem o concurso das partes interessadas conflitos como o palestino-israelense ou a corrida nuclear iraniana. Sim, pode contribuir decisivamente para a estabilidade do Iraque com ajuda econômica e assessoria de toda ordem para a reconstrução do país.

Como escreve em "Newsweek" seu diretor Fareed Zakaria, duro crítico da invasão, "Como chegamos [ao Iraque] já é uma questão para a história. Mas o ideal democrático ainda é alcançável". Se a precária situação no Afeganistão e Paquistão e o desenrolar dos acontecimentos no Irã não desviarem sua atenção do Iraque, talvez Obama possa dizer ao final de seu primeiro mandato, desta vez com toda justiça, aquela frase que Bush proclamou em maio de 2003 a bordo do porta-aviões Abraham Lincoln: "Missão cumprida".

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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