UOL Notícias Internacional
 

30/06/2009

Os Kirchner sofrem uma derrota humilhante nas eleições legislativas argentinas

El País
Soledad Gallego-Díaz e A. Rebossio Em Buenos Aires (Argentina)
A derrota sem paliativos sofrida nas eleições de domingo obrigará a presidente Cristina Fernández e seu marido, Néstor Kirchner, a realizar mudanças no governo e a tentar uma virada em sua política. Os Kirchner não somente perderam a maioria na Câmara dos Deputados e no Senado, como perderam o controle na decisiva província de Buenos Aires - uma derrota humilhante que debilita o poder dos Kirchner no peronismo governista e deixa aberta a porta para a busca de outros candidatos para as eleições de 2011. Cristina Fernández deverá enfrentar os dois anos e meio que lhe restam de mandato em condições políticas difíceis, que exigirão muita negociação, coisa a que o casal presidencial não está acostumado.

  • A peronista Frente para a Vitória, da presidente argentina, Cristina Fernández de Kirchner, perdeu nos principais distritos do país e, com isso, não tem mais o controle no Parlamento, segundo dados oficiais divulgados. Francisco De Narváez, à frente da coalizão de peronistas dissidentes e conservadores União-PRO, venceu a eleição de deputados na província de Buenos Aires, o maior distrito do país, com 34,58% dos votos contra 32,11% a favor do ex-presidente Néstor Kirchner, marido e antecessor de Cristina no cargo

O ex-presidente Kirchner não reconheceu a derrota até às 2h15 da madrugada de segunda-feira. Até esse momento seguiu a apertada apuração dos votos em Buenos Aires fechado em um quarto de hotel e acompanhado da presidente. A essa hora fez um ato de presença diante de seus seguidores deprimidos, para admitir uma derrota "mínima", prometer que será "a alternativa em 2011" e afirmar que vai "aprofundar a governabilidade", o que foi interpretado como anúncio de mudanças.

A presidente, que se envolveu na campanha de seu partido, não apareceu. Cristina Fernández ganhou as eleições presidenciais há 20 meses com 45% dos votos, mas os resultados das eleições de domingo testemunham uma queda brutal de apoio que, sem dúvida, terá afetado seu estado de espírito.

A derrota dos Kirchner foi vultosa: perderam a província de Buenos Aires por apenas 2 pontos (32,1% a 34,5%) para o peronista dissidente Francisco de Narváez, mas foram arrasados na capital federal, em Córdoba, Mendoza, Santa Fe e Entre Ríos. Inclusive foram derrotados na província "pinguim" de Santa Cruz, berço do próprio Kirchner.

Os resultados eleitorais demonstram uma recuperação importante dos radicais, que participaram unidos do Acordo Cívico e Social e continuam sendo a segunda força parlamentar no país, embora tenham sofrido um certo fracasso na capital federal, onde foram deslocados do segundo lugar por um candidato de esquerda, o diretor de cinema Fernando "Pino" Solanas. Contudo, Elisa Carrió, terceira na lista, conseguiu um lugar. Um dos dados mais importantes nesse setor é a grande vitória de Julio Cobos na província de Mendoza. O vice-presidente (que apoiou os Kirchner mas que agora voltou a se aliar à União Cívica Radical) conseguiu a vitória de seu candidato com mais de 50% dos votos.

No setor da União Pró, os magníficos resultados de Narváez devem correr por sua própria conta. Ele fez uma campanha muito pessoal, financiada com dinheiro próprio, e poderia aspirar a deslocar Néstor Kirchner à frente do Partido Justicialista ou a ser o próximo governador da província de Buenos Aires (o atual, Daniel Scioli, que aceitou sair como segundo lugar nas listas de Kirchner, ficou tocado). Narváez, de 56 anos, nasceu na Colômbia e teoricamente não pode disputar as presidenciais de 2011, embora haja vozes que pedem que os tribunais aceitem uma interpretação mais branda desse artigo da Constituição.

Em todo caso, o discurso mais presidencial da noite de domingo foi o do prefeito de Buenos Aires, Mauricio Macri. Quando se souberam os resultados de seu braço-direito, a conservadora Gabriela Michetti, que conseguiu uma cômoda vitória na capital, e o êxito da União Pró na província, os seguidores de Macri começaram a cantar "Se sente, se sente, Mauricio presidente" e inclusive apareceram camisetas com esse lema. A imagem de Macri, empresário e ex-presidente do time de futebol Boca Juniors, pode levar os peronistas dissidentes a preferir outro candidato, que seja do aparelho. Esse posto seria ocupado pelo senador por Santa Fe Carlos Reutemann, que conseguiu revalidar sua banca, em dura concorrência com o socialista Ruben Giustiniani, apoiado pelo governador Hermes Binner, que sai um tanto debilitado das eleições.

Os resultados eleitorais anunciam uma difícil governabilidade nos próximos meses. A magnitude da derrota faz supor que os Kirchner "tomarão nota". Entre as primeiras medidas poderia estar a mudança do chefe de Gabinete (Sergio Massa) e de vários ministros, especialmente o da Economia, Carlos Fernández, desconhecido no nível popular devido ao enorme destaque do próprio Kirchner no desenho da política econômica. A primeira ministra que poderá anunciar sua renúncia é a titular da Saúde, Graciela Ocaña, que abandonará o cargo no meio de uma forte epidemia de gripe suína e sem que tivessem aceitado seus conselhos de declarar uma emergência sanitária.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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