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01/07/2009

As perigosas amizades de Papi Berlusconi

El País
Miguel Mora Em Roma (Itália)
O anfitrião da cúpula do G8 na Itália tenta suavizar acusações que teriam forçado a demissão de muitos políticos


Uma colegial de Nápoles que ele cortejou quando ela era menor de idade (Noemi Letizia); um empresário arrivista de Bari que leva garotas e cocaína para festas VIP (Gianpaolo Tarantini); uma prostituta quarentona que trabalha sempre munida de um gravador (Patrizia d'Addario); uma "velina" de 23 anos que diz trabalhar como modelo (Barbara Montereale), ambas convertidas em candidatas para a lista eleitoral de "La Puglia prima di tutto" (A Puglia acima de tudo) depois de passarem duas noites em sua casa; um faz-tudo chamado Alessandro Mannarini que grava as festas com o celular, e um advogado pessoal (Niccolò Ghedini) que tenta livrar seu poderoso cliente dizendo que só ele era o "usuário final" (das prostitutas). Essa é, em linhas gerais, a lista de amizades perigosas com as quais o primeiro ministro italiano passou seus momentos de descanso nos últimos meses.

Dentro de somente 10 dias, o magnata e genial 'ilusionista' milanês esquecerá esse elenco sulista para receber 27 líderes e chefes de governo na cúpula do G8 que deve decidir as novas bases que regulamentarão uma economia global imersa na mais profunda recessão desde 1929.

Assim anda a Berluscolândia. O PIB cairá 5,5% este ano, e o déficit público sobe para 5%, a dívida pública dispara, a renda per capita segue abaixo da espanhola, mas quase ninguém fala disso. E se fala, Berlusconi manda que "cale a boca".

"É preciso consumir e calar a boca dos catastrofistas, os órgãos internacionais devem deixar de publicar dados negativos que causam pânico. A crise é só psicológica", afirmou na sexta-feira o primeiro ministro.

Ele certamente tem razão. Falar dessas coisas só causa estragos. As pessoas querem viver em paz, ver televisão, fugir da realidade, falar das "velinas"[assistentes de palco de programas de TV], de todo esse exército de garotas dispostas a se deixar acariciar por um sultão de 73 anos em troca de um teste na "Mediaset" ou na "RAI".

Emilio Fede, amigo do peito, companheiro de farras sardas e milanesas do primeiro ministro e apresentador do telejornal do Canal 4, de sua propriedade, declarou esta semana ao "Corriere della Sera" que nos últimos anos passaram pelo departamento de recursos humanos da Mediaset 47 mil pessoas (velinas e velinos) para fazer testes.

Foi dito que a Itália já era assim 50 anos atrás, quando Anna Magnani em "Bellissima" (Luchino Visconti, 1951) se submetia a todo tipo de humilhação para conseguir um papel para sua filha no cinema. Foi lembrado que, desde o Império Romano e até antes, o poder sempre se serviu de anões, jovenzinhas e cantoras para esquecer as tensões do ato de governar. O crítico de arte e filósofo Vittorio Sgarbi, inclusive, escreveu esses dias: "Berlusconi trepa com todas essas garotas em nome de todos os italianos, e estes devem ser gratos a ele, porque para governar bem é preciso trepar bem".

O que parece certo é que, em um país mais ou menos normal, essa história de sexo, poder, machismo, dominação, narcisismo compulsivo e eterna juventude teria terminado muitas semanas atrás com uma moção de censura, uma demissão ou quem sabe um discreto exílio em um avião particular. Nada disso aconteceu; pelo contrário, muitos italianos parecem tolerar as aventuras do imperador com uma compostura e uma desenvoltura admiráveis.

O próprio Papi disse esses dias, não se sabe se em pleno delírio megalômano ou se respondendo ao prudente cardeal que lhe pedia coerência: "Não penso em mudar e não me arrependo de nada. Sou um matador, um conquistador. Talvez alguns convidados tenham sido equivocados, e esses se equivocaram com outros convidados. Mas eu sou assim, e os italianos me querem assim. Tenho 61% de aprovação. Sentem que sou bom, sincero, generoso, leal, e que mantenho as promessas".

Um homem de honra, pois. Talvez se referisse a isso. Ou talvez, quando não se pode ou não se deve dizer a verdade, brincar seja a única saída possível. "Não há um modo mais positivo de reagir às calúnias", explica o sultão. Assim que vê alguns operários em uma obra em L'Aquila, a sede do próximo G8, ele se aproxima e dispara: "Vejo que estamos em muitos aqui, já trago as velinas e as menores".

Há formas e formas de abordar esse assunto que seduz tanto os jornais, ao passo que as emissoras de televisão que obedecem ao primeiro ministro (seis de sete canais) tratam de escondê-lo a todo custo. É que a autocrítica e a derrota não combinam com Berlusconi. E renunciar ou demitir são verbos que na Itália são pouco conjugados.

Além disso, em seu caso, renunciar ao cargo significar perder seu tesouro mais precioso: a imunidade que lhe dá a lei que impede processar as quatro altas instâncias do Estado. E já se sabe como são os juízes. Em 19 de junho, enquanto todos falavam das amigas de Berlusconi, seu amigo do peito, Marcello Dell'Utri, comparecia à terceira audiência do julgamento em apelação, em que se defendia de ter fundado a Forza Italia junto com a máfia siciliana.

Dell'Utri foi condenado a nove anos de prisão em 2004 por associação mafiosa externa. A sentença afirmou: "Está provado que Dell'Utri prometeu à máfia vantagens específicas no campo político e, em troca, está provado que a máfia, em execução de sua promessa, se comprometeu a votar no Forza Italia no primeiro confronto eleitoral, e depois".

Talvez por isso, mitigar o drama seja a ordem do momento na Berluscolândia. E um bom assunto de mulheres - caso tenha esquecido o pequeno detalhe das menores de idade - vende melhor do que um assunto de máfia. "Sim, va bene, ele atira para todos os lados, mas é sua vida privada, que raios isso importa a vocês, transformaram vocês em revista de fofocas", dizia outra noite em uma festa romana um veterano ex-piloto da Alitalia.

O que não se vê, não existe. O pior é que muitos italianos já viram algumas coisas; sem dúvida menos que os espanhóis ou os britânicos, e certamente muito menos fortes do que podem chegar a ver. Mas se tudo é psicológico, como seu vício por mulheres jovens, cada vez mais mulheres e cada vez mais jovens, a pergunta é: por que os italianos não reagem?

Uma possível razão é por ainda não haver oposição. O congresso do PD acontecerá em 11 de outubro, e por enquanto os reformistas estão em construção, sem líder e sem rumo: hora errada para ir a eleições antecipadas.

Outro motivo é que, sendo o Popolo della Libertà (Povo da Liberdade), como diz Giovanni Sartori, uma "grande manjedoura na qual todos comem graças ao dono", o dissenso interno é incipiente, mas ainda mínimo. Se temos o carismático e canoro "condottiere" e não há uma alternativa de poder, talvez seja melhor fingir que não está acontecendo nada, e aguentar o tranco. A agonia poderá ser longa.

Não será fácil, uma vez que a sociedade italiana realmente parece adormecida, alheia à perplexidade que agita as chancelarias. O estrondoso silêncio dos intelectuais em um país que foi vanguarda cultural do Ocidente se explica, segundo o sacerdote Filippo di Giacomo, porque "os que não cobram da Mondadori ou da Mediaset [empresas de Berlusconi] estão embriagados de dinheiro, vaidade e ceticismo". A ausência de resposta da hierarquia do clero à emergência moral escandaliza mais aos próprios católicos e aos estrangeiros do que a muitos italianos, tão flexíveis quanto os seus bispos.

E também o incompreensível entorpecimento das mulheres, a quem a atriz e ativista italiana de origem somali Shukri Said imaginou "diminuindo a importância do caso de Papi e invejando as velinas sob as lâmpadas de bronzeamento artificial".

Em "Salò ou 120 Dias de Sodoma", o último filme de Pasolini, recorda Said, "este narrou com toda a crueza como o poder se distancia da humanidade, transformando-a em objeto, como o sexo tem um papel metafórico terrível nessa mutação. Pasolini denunciou a mercantilização dos corpos como metáfora da essência íntima do poder na sociedade do consumo capitalista (o usuário final, o consumidor final). Violência, humilhação, total convicção de impunidade. Agora está acontecendo de verdade".

Nem todas se calam, no entanto. Um reduzido grupo de professoras universitárias lançou esta semana, através da revista "MicroMega", um manifesto convocando as primeiras damas do G8 a não irem com seus maridos à Itália em sinal de protesto pelo tratamento indigno que Berlusconi dá às mulheres "na esfera privada e pública". Por enquanto a iniciativa teve sua repercussão, e no sábado havia recolhido 8.500 assinaturas, entre elas as de prestigiosas cientistas e intelectuais. A primeira dama mundial, Michelle Obama, jogou um balde de água fria na iniciativa ao anunciar que virá, e ainda junto de suas filhas: a família Obama tem uma audiência privada com o Papa no Vaticano em 10 de julho, ao término do G8.

A mórbida resposta das antes combativas e hoje letárgicas "donne italiane" reflete a desmoralização e o declínio geral. Transformadas em objeto de perversidade pelo usuário final, muitas mulheres se calam e concordam. "Se as mammas não só não reagem, como também colaboram com esse estado das coisas, quem salvará a Itália?", se pergunta Said.

A história começou com as aulas de política organizadas por Berlusconi na sede do PDL para as velinas, diante das eleições europeias. Continuou com o Noemigate, que revelou que Berlusconi cortejou e convidou para duas festas, e a passar o fim de ano em sua casa na Sardenha, uma jovem de 17 anos (com uma amiga, Roberta O., de mesma idade, sobre quem ninguém sabe nada desde então).

Passando pelos voos de Estado em que viajavam cantoras, dançarinas de flamenco e prostitutas, chegaram as visitas da meretriz Patrizia D'Addario e a modelo Barbara Montereale ao harém do Palazzo Grazioli.

Dois meses depois, ainda que poucos italianos o digam em público, não há dúvida de que o Papigate está custando algo. Desde então, Berlusconi mentiu várias vezes. E algo começou a mudar. Outro dia, uma transmissão ao vivo de um telejornal da RAI foi perturbada por um grupo de estudantes que gritavam: "Berlusconi pedófilo!". Pertenciam à Comunhão e Libertação.

Berlusconi tentou invocar números e pesquisas de opinião para garantir o apoio dos italianos. Mas se mostram completamente irreais. É verdade que venceu as eleições europeias com 35% dos votos, e que tomou da esquerda muito terreno nas eleições locais. Mas a realidade está muito longe dos 72% de popularidade que atribuía a si mesmo - sem mencionar a pesquisa - há algumas semanas. E na sexta-feira, o mesmo diminuiu esse apoio para os 61%, também sem provas: 11 pontos a menos em duas semanas. E tem mais: as eleições europeias mostram que, de cada 100 eleitores, um terço não votou. Desses 66% de eleitores, Berlusconi obteve 35% dos votos. Se desses, subtrairmos pelo menos 5% de eleitores da velha AN que votam PDL mas não gostam, o resultado é que de cada 100 italianos maiores de idade, Berlusconi só obtém 20% de apoios. Um em cada cinco. Será o início de que o final se aproxima?

Tradução: Lana Lim

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