UOL Notícias Internacional
 

01/07/2009

Militares israelenses admitem práticas de maus-tratos contra palestinos

El País
Juan Miguel Muñoz
"Tomamos o colégio e detivemos qualquer pessoa entre 17 e 50 anos. Todos vieram de mãos amarradas e com os olhos vendados. Quando pediam para ir ao banheiro, os soldados os levavam e os golpeavam sem nenhum motivo justificável. Muitos foram detidos para obter informação para os serviços de segurança, e não porque tivessem feito algo. Em geral as pessoas eram mantidas sentadas durante dez horas sob o sol. Davam-lhes água de vez em quando. Os soldados passam dez horas em pé, entediados, por isso batem nas pessoas. Talvez seja sua única satisfação."

Isso aconteceu em Hares, um povoado do norte da Cisjordânia, ocupada em março passado. O diálogo entre o soldado que prestou esse depoimento e um ativista da Breaking the Silence [rompendo o silêncio, em inglês], uma ONG israelense, continua:

"Há soldados que pensam que as algemas de náilon são para imobilizar e para impedir que o sangue chegue aos dedos. Ficam azuis."

"Quanto tempo passaram assim?"

"Sete horas. No final, depois de queixas e choros, o comandante ordenou que afrouxassem as algemas."

"O batalhão inteiro participou?"

"Sim."

"A operação começou de dia?"

"À noite. Trouxeram o zelador do colégio às 3 da madrugada e ele abriu as salas."

"Com que critério detiveram as pessoas?"

"A partir dos 17 anos. Mas havia meninos de 14. Eram 150, a maioria de pijama."

"Viu outros incidentes?"

"Muitos reservistas participaram e realizaram humilhações, insultos, puxões de cabelo, pontapés e bofetadas. Era a norma. O que aconteceu nos banheiros, que chamamos de baile dos demônios, foi o mais extremo."

  • REUTERS/Nayef Hashlamoun

    Militar israelense revista palestino detido em Hebron, na Cisjordânia, em dezembro de 2008

Um grupo de judeus, vários deles ex-suboficiais e fieis fervorosos, se esforçam para dar a conhecer o que tantos em Israel sabem, mas muito poucos ousam contar. Os ativistas da Breaking the Silence levantam a voz em um país anestesiado diante do sofrimento do inimigo. Pretendem quebrar o grosso muro que envolve as práticas aberrantes de muitos soldados para reprimir ataques a pedradas lançados por jovens palestinos. A denúncia tem um preço elevado. Mas algum militar, exceção à regra, não suporta o que vê e rompe o silêncio. Acontece raramente.

É o caso de outro uniformizado. D., cabo de 19 anos da Brigada Kfir, a mais envolvida nos desmandos na Cisjordânia. D. não aguentou mais depois da batida em Hares em 26 de março. Descreveu para seus superiores o comportamento de muitos companheiros e se negou a prestar certos serviços na Cisjordânia. Foi condenado a 30 dias de prisão. "A opinião comum entre os soldados do batalhão Haruv é que os árabes são animais selvagens que devem ser destruídos", denuncia D.

O porta-voz do exército oferece uma versão muito diferente: "Durante meses, os motoristas que circulavam na estrada próxima a Hares sofreram ataques que vinham das colinas da região. Vários civis inocentes ficaram feridos. Por isso o exército operou para interrogar suspeitos envolvidos nesses atentados. Todos os detidos, suspeitos de envolvimento em atividades violentas, receberam tratamento digno, incluindo o fornecimento de água e alimentos".

Não faltam soldados que opinam que as medidas de segurança são imprescindíveis, mas que detestam as humilhações gratuitas. Como a do vídeo divulgado esta semana em que vários militares forçam um palestino a bater no próprio rosto enquanto tem de elogiar seus agressores, que entretanto caçoam.

As vexações não são exceção. Basta ver os rostos dos palestinos nos controles. Na fila, calados, atentos às ordens, muitas vezes displicentes e aos gritos, às vezes apontados diretamente com um fuzil. Também não é de estranhar a atitude desses jovens uniformizados, dadas as palavras do coronel Itai Virob, chefe da Brigada Kfir, que semanas atrás conseguiu uma repreensão do alto comando quando afirmou: "A agressividade para impedir que a violência [dos palestinos] cresça não só é permitida como às vezes exigida. Um golpe, inclusive quando a pessoa não está envolvida, para conseguir o objetivo da missão, é possível".

As operações da Brigada Kfir - na qual servem centenas de jovens da extrema-direita nacionalista e religiosa - são constantes na Cisjordânia. Às vezes acompanham os colonos em seus assaltos aos povoados palestinos. Muitos soldados, por sua vez, são colonos dessa brigada que dispõe de informação precisa obtida de delatores palestinos - são uma legião - e mediante operações destinadas a conhecer até o último rincão de um povoado. Chamam isso de "mapeamento".

Fala um sargento da brigada: "Entramos em uma casa. Reunimos a família em um quarto e mandamos que um guarda os vigie. Fotografamos tudo, inspecionamos o que há na residência e passamos a informação para os serviços de segurança. Mas o que causa comoção é que alguns roubam". Com frequência se cai na violência gratuita.

"Eu não fiz isso", acrescenta o sargento, "mas meus amigos me falam do vandalismo."

E da destruição dos móveis de residências com mães e crianças presentes, de humilhações a inválidos. "Quando meu alistei estava muito motivado. Treinei e, já prestando serviço, vi as pessoas se comportar como animais... como se fossem deuses", explica, muito pessimista sobre as possibilidades de que a situação mude. "Para os soldados, 'árabe' é sinônimo de terrorista. É assim que foram educados."

Os soldados desfrutam de uma posição de superioridade arrasadora. Armados até os dentes contra uma temerosa população local que deseja passar pelo controle militar o mais rápido possível, embora os atrasos propositais sejam comuns. Explica o sargento citado: "Quando se tem uma arma e se pede algo a um palestino, o está forçando. Ele tem medo. O árabe pode nos dizer: 'Sim, tome, não há problema'. Sabe que você pode persegui-lo se disser uma palavra fora do lugar".

"Lembro minha primeira vez em um controle militar", diz o suboficial. "Veio um grupo de reservistas para nos ensinar. Um deles viu um táxi cheio de gente. Saíram [os palestinos] do táxi e começaram a lhes pedir as identidades e a revistar as bolsas. Um encontrou uma camiseta original do Real Madrid e perguntou se eu a queria. Se eu quisesse, teria ficado com ela".

O porta-voz militar replica: "O exército defende o respeito aos direitos humanos e condena de maneira taxativa todos os maus-tratos ou o uso da força injustificada contra a população civil. Quando se encontram irregularidades, são investigadas independentemente". As ONGs israelenses rejeitam sem rodeios declarações desse tipo. A julgar pelas condenações aos soldados nos últimos anos, que se aproximam de zero, os abusos seriam coisa da imaginação.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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