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01/07/2009

O incrível caso de dona Jacinta, condenada por sequestrar sozinha seis policiais mexicanos

El País
Pablo Ordaz
Dona Jacinta tem 48 anos - ou talvez 47, não se lembra muito bem -, seis filhos, outros tantos netos, um idioma em que se expressa perfeitamente, o otomi, outro em que tenta, o espanhol, e uma barraca ambulante em que desafia o persistente sol de Querétaro vendendo neve [gelo raspado] e "águas frescas". Melhor dito, desafiava. Porque há três verões, desde que tinha 45 anos - ou talvez 44 -, a indígena dona Jacinta está na prisão, acusada - ela que mede apenas um metro e meio de altura - de sequestrar seis corpulentos agentes da Polícia Federal mexicana. Se seu deus não trouxer remédio, a senhora das neves e das águas frescas passará as próximas duas décadas na prisão, condenada por um delito que ninguém, exceto uma pessoa, acredita que ela tenha cometido. A má sorte de dona Jacinta é que essa pessoa é o juiz.

Mulher, indígena e pobre

  • Reprodução/ EL PAÍS

    Dona Jacinta está na prisão, acusada de sequestrar seis agentes da Polícia Federal mexicana, e pode passar as próximas duas décadas na prisão, condenada por um crime que ninguém, exceto uma pessoa, acredita que tenha cometido. Para azar dela, essa pessoa é o juiz

Tudo começou em 26 de março de 2006. Naquele domingo, seis policiais da Agência Federal de Investigação, sem uniformes nem placas que os identificassem como tal, chegaram ao "tianguis" - assim se chamam aqui os mercados ambulantes, desde muito antes que Hernán Cortez pensasse em viajar - da comunidade indígena de Santiago Mexquititlán e apreenderam várias mercadorias sob o pretexto de que se tratava de pirataria. Os comerciantes se irritaram, os cercaram e pediram suas identificações. Os policiais se negaram. A tensão cresceu. Chegaram mais policiais. Também chegaram mais vendedores ambulantes. A situação foi ficando cada vez mais feia até que um dos chefes policiais teve uma ideia: pagariam os danos causados e "aqui paz e depois glória". Para os comerciantes pareceu bem. Os policiais disseram então: "Vamos buscar o dinheiro". E os comerciantes responderam: "Está bem. Mas que um dos policiais fique para garantir que vocês vão respeitar o acordo". Coube ficar o agente Jorge Cervantes Peñuelas.

No outro extremo da praça, sem perceber a confusão, encontrava-se dona Jacinta vendendo sua neve e suas águas frescas. Havia chegado cedo, mas quando ouviu a última badalada para a missa das 11 deixou uma de suas filhas cuidando da barraca e entrou na igreja. Depois da reza, dona Jacinta não saiu de seu lugar de trabalho até pouco antes do entardecer. "Tive de ir à farmácia tomar uma injeção", lembra, "e pedi a outra de minhas filhas que me acompanhasse porque não sei pronunciar direito o nome dos remédios e não queria me enganar diante de tanta gente."

Foi ali, enquanto tomava a injeção, que a senhora se inteirou da atuação da polícia e da reação indignada dos comerciantes. "Quando saí, me aproximei para ver o que estava acontecendo." A chegada de dona Jacinta ao local do alvoroço coincidiu com a volta dos policiais que tinham ido buscar o dinheiro. Com eles chegou um fotógrafo de um jornal de Querétaro.

Passaram quase três anos. Dona Jacinta conta a história no pátio da prisão feminina de Querétaro. O faz de forma cronológica, sem esquecer nenhum detalhe, juntando as frases ao ritmo de seu desespero. Conta que naquela noite foi para casa com sua família e que nada de estranho aconteceu até três meses depois, até aquele maldito 3 de agosto de 2006 que não se apagará de sua memória. "Naquela tarde, quando cheguei a minha casa já estavam lá os policiais. Eles me perguntaram: 'Você é Jacinta?' Quando disse que sim, me prenderam. Vieram me buscar com armas e caminhonetes. Não tive medo, porque sabia que não tinha feito nada de mal. Disseram-me que iam me levar para depor pelo corte de uma árvore. Mas o motorista dirigia muito mal, dando guinadas, freando e acelerando. Um dos agentes me perguntou: 'E de que religião você é? Com certeza votou no PRD [o partido da esquerda mexicana]'. Respondi que sou católica e então me disse: 'Ah, desculpe'. Puxei meu rosário e comecei a rezar o pouquinho que sei de memória. Quando cheguei ao juizado, tive de assinar muitos papéis escritos em espanhol, papéis que não entendia". Depois de muito tempo, quando a senhora se atreveu a perguntar por que estava ali, a resposta a deixou gelada: "Por sequestrar seis policiais federais".

Dona Jacinta não mede mais que um metro e meio. Diz que a comida da prisão não lhe agrada e por isso emagreceu, mas que quando entrou pesava mais de 80 quilos. Um perfil difícil de coordenar com a acusação de sequestradora de seis policiais de elite, fortes, treinados para lutar com criminosos. Nada disso serviu em sua defesa. Nem mesmo o fato de que em suas primeiras declarações nenhum dos policiais falou dela nem de ninguém parecido. Só muito tempo depois os investigadores repararam que aquele fotógrafo de Querétaro tinha tirado um instantâneo dos minutos finais do incidente. E ali, na terceira ou quarta fila, aparecia dona Jacinta na atitude pacífica de alguém que olha, que só passava por ali. Mas a identificaram, verificaram onde morava e foram buscá-la. O processo judicial desembocou em uma condenação de 21 anos de prisão pelo sequestro dos seis agentes.

Todo esse relato, tudo o que se encontra aqui, foi transcorrendo no mais absoluto silêncio - semana após semana, mês após mês -, até que uma organização mexicana de direitos humanos, o centro Miguel Agustín Pro Juárez, decidiu intervir. E agora dona Jacinta, pelo menos, abriga certa esperança. Animada por essa ilusão, nesse canto do pátio da penitenciária, fugindo do mesmo sol que ela desafiava com suas neves e águas frescas, a indígena vai contando sua vida, que é a de milhares de outras Jacintas. Que começou a vender chicletes pelas ruas do Distrito Federal aos 7 anos, que não foi à escola porque seus pais não tinham dinheiro para sapatos nem para cadernos, que aos 10 anos a puseram para cuidar de cabritos, que aos 14 teve seu primeiro namorado, que fugiu com ele aos 15 e teve sua primeira filha aos 16. Que nunca aprendeu espanhol nem soube, até que esteve detida, o que significava a palavra "advogado" ou a palavra "provas". Também conta que até os 45 anos - ou talvez 44 - foi feliz. Que até então - isso ela não diz, mas há mil estatísticas que o demonstram - não havia provado o sabor amargo que têm no México esses três ingredientes juntos: mulher, indígena e pobre.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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