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02/07/2009

"O regime iraniano deu um golpe de Estado", diz especialista em islamismo

El País
Georgina Higueras Enviada especial a Paris (França)
Faz muitos anos que Olivier Roy, 60, é considerado um dos maiores especialistas europeus em islamismo. Por ocasião de um seminário em Paris sobre política transatlântica para o Paquistão, ao qual El País foi convidado, o diretor do Centro Nacional de Pesquisas Científicas (CNRS na sigla em francês) aceitou dar uma entrevista.

El País: Como vai evoluir a crise do Irã?
Olivier Roy:
O regime triunfou com seu golpe de Estado de fato, mas o que é grave é a ruptura do consenso dentro dele. Desde a morte de Khomeini, há 20 anos, os aiatolás [que pertencem ao núcleo do regime] mantinham um consenso que permitia facções com opções muito diferentes. Uma espécie de jogo político, com um tipo de alternância entre conservadores e reformistas, com diversidade no Parlamento e diversidade de imprensa. Esse consenso se rompeu quando o regime arrebatou o poder interno.

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"Eu defendo um Estado verdadeiramente islâmico e democrático, um Estado que respeite a dignidade humana e não recuse os direitos das mulheres, um Estado no qual os indivíduos possam eleger livremente os seus líderes religiosos e seculares"

El País: Tornou-se monolítico?
Roy:
As facções continuam existindo, mas foram proibidas de aparecer como tais. O problema atual do regime não é a rua, mas Qom [o Vaticano xiita]. É evidente que ninguém esperava um golpe de Estado tão claro, por isso não há uma resposta determinada, embora haja sinais. Nenhum grande aiatolá saiu de Qom para cumprimentar Mahmud Ahmadinejad. Quer dizer, não só os liberais estão na oposição, mas também muitos conservadores.

El País: Houve uma fraude maciça?
Roy:
Sim. A fraude foi importante porque os resultados são aberrantes. Que Karrubi, um personagem chave da revolução, tenha recebido tão poucos votos inclusive em sua região natal é aberrante, como também o é que Moussavi tenha obtido a metade de votos que Ahmadinejad. Quiseram uma eleição triunfante no primeiro turno, e isso é um grave erro.

El País: Mais da metade da população iraniana tem menos de 30 anos. Aceitará um retrocesso?
Roy:
A população não é revolucionária. O Ocidente cometeu um grave erro ao comparar o que aconteceu em 1979 com o ocorrido nestes dias. Hoje são reformistas e nada revolucionários.

El País: Terminaram os protestos?
Roy
O movimento de rua está destruído, mas não se pode excluir outra explosão popular. As pessoas aguardam, e qualquer acontecimento inesperado nos próximos dois ou três anos vai expor de repente a fragilidade do regime.

El País: Que relações exteriores manterá Ahmadinejad?
Roy:
O regime vai se fechar, porque esse é o caráter de Ahmadinejad e porque assim poderá jogar o trunfo nacionalista. A questão é saber quanto vai durar esse fechamento interno e se a radicalização vai se transferir para a política externa ao limite de instigar um ataque israelense contra as centrais nucleares. Embora eu não creia nisso, também pode ser que adote uma posição externa mais responsável, com uma política mais moderada que o transforme em um chefe de Estado razoável.

El País: Diante de uma radicalização, Israel pode atacar o Irã?
Roy:
Ahmadinejad e Ali Khamenei estão convencidos de que não haverá ataque porque a situação é muito desfavorável, tanto para os americanos quanto para os israelenses. O raciocínio é correto quanto a Washington, mas sobre Israel não há nenhuma certeza. O alvo israelense não serão as bases nucleares, mas criar uma situação de guerra em que cedo ou tarde os americanos seriam obrigados a se envolver e Ahmadinejad poderia jogar deliberadamente para isso.

El País: Seria uma catástrofe...
Roy:
Sim, por isso Ahmadinejad pensa que não haverá ataque.

El País: Como uma escalada do conflito afetaria os aliados do Irã?
Roy:
Não está claro que uma escalada interesse ao Hizbollah. O Irã está consciente do dano que os taleban podem infligir aos xiitas e de que o sunitas iraquianos estão buscando uma desculpa para se atirar sobre os xiitas. Não haverá escalada se não houver um bombardeio.

El País: O senhor acredita que o Paquistão poderá se talebanizar?
Roy:
Não, creio que o que ameaça esse país é a anarquia, e não um estado islâmico central forte.

El País: O Afeganistão será pacificado?
Roy:
A solução no Afeganistão passa sem dúvida por uma negociação com os taleban, porque é idiotice pensar que o governo de Karzai vá melhorar.

El País: As tropas internacionais estão no Afeganistão há quase oito anos. Como se entende que os taleban controlem hoje 70% do território afegão?
Roy
É preciso estudar a sociologia dos taleban, e o que representa a identidade e o apoio pashtun. É um erro vê-los como se fossem tribos tradicionais. O sistema tribal tradicional está em crise e os taleban são uma expressão da recomposição da identidade pashtun dentro de uma sociedade globalizada.

El País: Se se desse uma data para a retirada das tropas estrangeiras, seria mais fácil?
Roy:
Não, porque nos privaria de um argumento de negociação. Os taleban não estão interessados em negociar porque acreditam que estão ganhando. Como os russos, antes de irmos embora temos de estabelecer um regime que funcione.

El País: Quais são os erros do Ocidente no Irã, Paquistão e Afeganistão?
Roy:
No Paquistão, ter o exército como interlocutor. No Irã, assumir uma política impossível de sanções e no Afeganistão, enviar tropas que não estão preparadas para lutar contra a guerrilha. Lutamos uma guerra surda e cega.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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