UOL Notícias Internacional
 

02/07/2009

"Se Zelaya voltar a Tegucigalpa, será detido", promete novo presidente

El País
Pablo Ordaz Enviado especial a Tegucigalpa (Honduras)
O presidente derrubado anunciou: "Voltarei. Na quinta-feira voltarei a Honduras para continuar dirigindo meu país". E seus partidários começaram a sonhar. Imaginaram Manuel Zelaya voltando ao aeroporto de Toncontín com seu chapéu furadinho, sua elegante camisa "guayabera" branca, o bigode muito preto e seus quase 2 metros de estatura. Mas esse sonho, pelo que se viveu na terça-feira em Tegucigalpa, foi sonhado na intimidade. Porque as ruas da capital, pela primeira vez desde o golpe militar, não foram ocupadas pelo pessoal de Zelaya, mas sim pelos partidários do novo presidente eleito pelo Congresso, Roberto Micheletti. Este, sentado na mesma sala que Zelaya ocupou há quatro dias para responder às perguntas de El País, anunciou: "Se voltar, será detido".

Roberto Micheletti, presidente interino

  • EFE

    Roberto Micheletti ressaltou que Honduras é um país soberano, voltou a defender a legalidade da situação política e acusou o governante venezuelano, Hugo Chávez, de intromissão. O presidente interino pediu "a Deus" que o mundo não isole seu país, apesar de ter afirmado que tem "a fortaleza" para enfrentar a situação

Micheletti aceita dar a entrevista, mas com a condição de que seja rápida. Alguns minutos antes, o novo presidente assistiu à troca da guarda de honra. O fato, com todo o respeito, tem sua graça. Porque o mestre-de-cerimônias é o general Romeo Vázquez, cuja destituição foi a espoleta do golpe militar. Diante dele, dois militares rechonchudos. Um, o chefe da guarda anterior, que na teoria se encarregava de guardar as costas de Zelaya. O outro, o que deverá fazer o mesmo - supõe-se que com mais empenho - com as do presidente Micheletti. O salão, tão vazio naquela noite em que entrevistamos Zelaya, está lotado. Há alguns colaboradores de Micheletti, vestindo ternos de alpaca que acabam de estrear, e muitos soldados em traje de serviço e fuzis M-16 pendurados em bandoleira.

Quando todos vão saindo, Micheletti responde a algumas perguntas. A primeira é o que vai acontecer se Manuel Zelaya voltar na quinta-feira. Ele não faz rodeios: "Será detido", é a resposta. "Há acusações judiciais contra ele. Passou por cima da Constituição e convocou um referendo ilegal. Não acatou uma decisão do Juizado Contencioso Administrativo que lhe ordenou não realizar a consulta declarada ilegal pela Carta Magna. Tínhamos certeza de que por trás dessa consulta estava a intenção de convocar uma constituinte para se perpetuar no poder."

Diante da condenação unânime da comunidade internacional, o senhor se arrepende da forma como ele foi tirado do poder? "Não. Não havia outra forma. Tentamos por todos os meios convencer Zelaya de que era ilegal a convocação ao referendo, mas ele não quis escutar. Os EUA tentaram mediar, e disso pode dar fé seu embaixador em Tegucigalpa, mas não foi possível convencê-lo. Inclusive tentamos que mudasse a pergunta, mas nem sequer assim quis nos escutar."

Uma colaboradora puxa a manga de Micheletti, que não lhe faz caso e continua respondendo às perguntas como quem reza um terço. A cada duas ou três frases, a mesma jaculatória: "Aqui não há golpe de estado porque estão funcionando os três poderes do estado".

Nas próximas horas, um exército de políticos e funcionários encarregados por ele sairá pelo mundo com a difícil missão de explicar que assaltar a tiros a casa de um presidente democraticamente eleito, apontar os fuzis para que largue o telefone celular e tirá-lo de pijama do país e abandoná-lo no meio de um aeroporto estrangeiro não é um golpe de estado. Fala Micheletti: "Nosso desafio é explicar ao mundo como aconteceram as coisas aqui e por que não foi um golpe de estado. Pouco a pouco vamos recuperar a confiança, porque temos muitos amigos que saberão nos compreender. Na própria quinta-feira o chanceler e vários deputados irão para Washington".

A acusação de golpista é o que mais o incomoda? "O que mais me irritou foram as declarações de Hugo Chávez dizendo que ia nos invadir. Não nos causa medo. Há 7,5 milhões de hondurenhos dispostos a lutar pela pátria."

Acabou-se o tempo. Resgatam o presidente da entrevista e o levam carregado até a comitiva que o espera na porta da Casa Presidencial. Dali dirige-se para o Parque Central, onde centenas de cidadãos o esperam há algum tempo. Entre os muros da catedral e a estátua equestre do libertador Francisco Morazán, gritos pedem que Zelaya não volte e que, se o fizer, venha algemado. Um grande cartaz explica: "Os bons somos nós". Os bons talvez não, mas certamente muitos mais que os adversários, ou pelo menos mais rueiros. Depois dos incidentes de segunda-feira, nos quais as tropas que guardavam a Casa Presidencial atacaram com cassetetes e gás lacrimogêneo os simpatizantes de Zelaya, nenhuma manifestação de protesto chegou a ser nem de longe tão numerosa quanto a dos partidários do novo poder. Ou, melhor dizendo, do poder de sempre.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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