UOL Notícias Internacional
 

03/07/2009

Honduras esquece Zelaya, enquanto Micheletti decreta um estado de sítio disfarçado

El País
Pablo Ordaz Em Tegucigalpa (Honduras)
Minuto a minuto, passo a passo, Honduras vai se afastando das liberdades. Depois do sequestro por um comando do exército do presidente Manuel Zelaya, seguiu-se a implantação do toque de recolher e na quarta-feira, em mais uma volta do parafuso para subjugar o país, o novo governo presidido por Roberto Micheletti propôs ao Congresso a supressão de cinco liberdades individuais. E os deputados, com a mesma unanimidade com que no domingo tiraram um presidente e elegeram outro, como quem troca uma roda, obedeceram.

Embora Micheletti tenha descartado que se trate de um estado de sítio, a verdade é que durante a noite as forças armadas e a polícia têm o poder de restringir as liberdades "individuais, de associação, de domicílio, de circulação e de direito à informação". O rótulo não diz "estado de sítio", mas o que vem dentro é igual.

Na madrugada anterior, durante o toque de recolher, escutaram-se algumas explosões na cidade. Os telefones celulares começaram a tocar, mas ninguém pôde confirmar de que se tratava. A preocupação que provoca o recolhimento obrigatório pode ser constatada em Tegucigalpa a partir das 6 da tarde. Embora nessa hora ainda faltem três para que os cidadãos tenham que se fechar em casa, a correria é geral.

Se a isso acrescentarmos o dilúvio que assola todas as tardes uma cidade que não é exatamente bonita, a sensação de confusão é total. Mas, como se isso não bastasse, desde quarta-feira a população sabe - e mais ainda a população que não está de acordo com Micheletti - que se antes das 6 da manhã a campainha tocar o mais provável é que não seja o leiteiro.

"Não precisam cortar as liberdades porque o país não está ardendo e as manifestações contrárias ao golpe não são muitas nem muito numerosas", explica Oswaldo, um advogado trabalhista, "mas se vê que Micheletti não está seguro dos apoios com que conta e quer amedrontar a população."

Efetivamente, a sensação na rua não é explosiva, pelo contrário. De fato, conforme o presidente deposto continua atraindo cada vez mais a atenção da mídia internacional, no interior do país sua lembrança vai se diluindo. Nem sequer a maneira brutal e grosseira como foi tirado da cama e levado de pijama para a Costa Rica serviu para que muitos hondurenhos lhe perdoem seus diversos erros. Os três que mais surgem nas conversas são os de dividir a população, confrontar todas as instituições e, principalmente, submeter o país aos interesses do presidente da Venezuela, Hugo Chávez. Nem mesmo os moradores da colônia Tres Caminos sentem falta dele.

Os dois são guardas de segurança privada. O mais magro porta uma carabina de calibre 22 e o outro uma escopeta 12. Sua missão é guardar a casa onde dormia o presidente Manuel Zelaya quando um comando do exército o sequestrou ao amanhecer de domingo. "Não se incomode", diz com apatia o da carabina, "não há marcas de bala, eu já procurei." O morador da casa ao lado mostra o bigode. Chama-se Genaro Rosales e é pastor evangélico. A julgar por sua mansão de dois andares e seu carro todo-terreno de várias cilindros, Deus deve estar muito contente com ele. O pastor não parece consternado pela desgraça de seu vizinho. "A política é a arte de enganar, e ele tinha dividido o país. Foi quase melhor que o levassem." Quando é lembrado de que Zelaya foi vítima de um golpe militar, diz: "Ah, isso... mas foram só alguns tiros".

O presidente deposto já é um símbolo fora do país, mas em Honduras, se não fosse pelo inusitado apoio internacional, já teria passado à longa história dos governantes fracassados. Segundo todas as fontes consultadas, a única credencial que Manuel Zelaya pode apresentar à comunidade internacional é a de vítima de um golpe de estado. Não pode alegar nada mais. Se em um corredor da ONU algum colega estrangeiro perguntasse a Zelaya, para matar o tempo: "Então, aproveite e me conte como está seu país depois de quase quatro anos de seu governo...", a única resposta sincera teria de ser a seguinte: "Meu país é um doente crônico alimentado por um frasco de soro pago pela cooperação estrangeira. Se não fosse esse frasco..."

E, devido à ameaça internacional de romper toda colaboração com um governo considerado golpista, esse frasco começa a ficar vazio.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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