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12/07/2009

Devolução de frisos do Partenon reabre debate sobre saque de obras de arte praticado pelas grandes potências

El País
Ángeles García
Em Madri (Espanha)
Você acredita que as obras de arte e os tesouros que foram roubados ou espoliados por algumas potências devem voltar a seus países de origem? O debate foi reaberto dias atrás pelo primeiro-ministro grego, Kostas Karamanlis, ao exigir do Reino Unido a devolução dos frisos do Partenon, que há 200 anos o famoso conde Elgin levou da Acrópole e hoje fazem parte do patrimônio do Museu Britânico em Londres.

Esses 75 metros de frisos, com 15 painéis (métopas) e 17 estátuas, são um símbolo da história dos espólios artísticos. As guerras, as mudanças políticas ou as catástrofes naturais foram pretextos utilizados pela Europa e os EUA para se apoderar de tesouros criados em lugares que nada têm a ver com seus atuais cenários. Para o historiador e ensaísta mexicano Carlos Monsiváis, tanto no caso da América Latina quanto no da Ásia e da África o saque de peças arqueológicas foi um segundo "direito de pernada", o "Jus prima nocti", onde, em vez de arrebatar virgindades, se considerou que os povos "primitivos" não têm direito à beleza que produziram.

Diante dessa opinião, o Museu Britânico, entidade que encarna como nenhuma outra a história das migrações artísticas, considera que as reclamações são improcedentes porque "o Museu Britânico não é uma coisa britânica, é um museu para todo o mundo, para o público de todo o mundo", como explica um de seus responsáveis.

Concentrando-se exclusivamente nos espólios sofridos contra a arte da Antiguidade e deixando à margem os roubos executados pelos nazistas, as reclamações são intermináveis. As marcas das riquíssimas culturas pré-colombianas ou os tesouros procedentes do norte da África deslumbram nos melhores museus do mundo. A legislação nessas questões é tão complexa que inclusive chega a inviabilizar as reclamações. Historiadores como os mexicanos Miguel León-Portilla ou Felipe Solís dedicaram muita energia para pedir a volta ao México de tesouros fundamentais de sua cultura. Sem sucesso.

Miguel Zugaza, diretor do Museu do Prado em Madri, é dos que consideram que é muito difícil reconstruir a história e que é melhor preocupar-se com o futuro; mas reconhece que em 1941 as reclamações espanholas conseguiram que o Louvre de Paris devolvesse a "Dama de Elche" e uma Nossa Senhora de Murillo. "São temas nos quais não há mais retorno. O Museu Britânico é uma instituição universal que garante o cuidado do que contém. Não creio que seja procedente reclamar."

Os casos de que fala Zugaza tiveram um final feliz. Por outro lado, a Espanha faz ouvidos moucos à reclamação feita há várias décadas por historiadores e conservadores colombianos: uma centena de peças do tesouro Quimbaya que enriquece o Museu da América, presenteado há dois séculos à coroa espanhola pelo governo colombiano. Na realidade, nunca se fez uma reclamação formal sobre esse rico conjunto funerário.

Carlos Monsiváis, um dos intelectuais mais beligerantes nessa questão, considera insultante que os intelectuais europeus não façam nada para restituir o que ele não hesita em qualificar de "roubo". "Claro que tem sentido reclamar", afirma. "Em rigor, é um duplo insulto: arrebatam-se as obras-primas e dizem às comunidades de onde saíram que se resignem. Sua função é forjar os objetos, esculturas, cerâmica, joias, códigos, arte plumária, e só. Não têm direito a desfrutá-los por serem estritamente gente inferior, primitiva. Desde que colocaram aspas em 'primitivo' essa visão mudou, mas quase nada."

Monsiváis adverte que não se deve falar em tempo passado quando se fala de saque. "No caso do México, até hoje continua o roubo de peças, com o suborno de autoridades menores e maiores. As reclamações são justas e além disso necessárias. Sei que os trâmites jurídicos são demorados, cansativos e quase sempre destinados ao fracasso, mas a ex-ministra da Cultura da Grécia Melina Mercouri tinha razão: por mais pessoas que desfrutem a antiga arte grega nos museus da Europa, seu lugar ideal é seu lugar de origem. Não é uma questão de chauvinismo, em todo caso o chauvinismo é dos que se aferram à noção da "qualidade dos espectadores".

O historiador e crítico de arte Francisco Calvo Serraller, contrário às devoluções, acredita por sua vez que os países "vítimas" devem negociar indenizações. "A história da arte está cheia de espólios. Os museus nacionais de todo o mundo se alimentaram de obras de procedência irregular. O que é preciso é prevenir o futuro. O passado já é história." Enquanto não chegam as garantias de futuro, será preciso limitar-se a guardar luto pelos tesouros perdidos.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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