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14/07/2009

Presidente do Peru cria um governo de linha-dura depois da revolta dos indígenas

El País
Jaime Cordero
Em Lima (Peru)
O que o presidente peruano, Alan García, acaba de fazer é mais que uma mera substituição na chefia do gabinete, seu terceiro gabinete desde que ganhou as eleições presidenciais de 2006. É uma mudança radical no Executivo. Talvez o único ponto em comum entre o novo presidente do Conselho de Ministros, Javier Velásquez Quesquén, e seu antecessor, Yehude Simon, é que ambos provêm da mesma região, Lambayeque, no norte do país. O resto são diferenças.

  • Rafal Cornejo/AFP

    Presidente peruano, Alan Garcia (esq.), aplaude novo premiê, Javier Velásquez Quesquén (dir.)

Simon era um personagem alheio ao partido no governo, com ambições declaradas de ser candidato presidencial nas eleições de 2011, que chegava com fama de ser um homem de diálogo e conciliação. Velásquez é homem da Apra (Aliança Popular Revolucionária Americana), defensor do governo e considerado um "incondicional" aliado do presidente. Sua chegada ao cargo de chefe de Gabinete representa o retorno do partido do governo ao comando do Executivo. Assim ficou claro desde o momento de seu juramento, quando foi aplaudido pela ampla massa aprista que lotou o Salão Dourado do palácio do governo.

Os antecedentes de Velásquez e seu antecessor também são díspares. Enquanto Simon chegou ao cargo há pouco mais de oito meses depois de uma bem considerada gestão como presidente regional de Lambayeque, o novo presidente do Conselho de Ministros acaba de ser presidente do Congresso, uma das instituições políticas menos populares do país, com números de aprovação pública apenas superiores a 10%, segundo pesquisas recentes, e constantes suspeitas de corrupção. Inclusive o próprio Velásquez foi acusado recentemente de ocupar com militantes do partido os escritórios do Parlamento durante sua gestão como presidente.

"Espero que seja o último gabinete presidencial de que tomo juramento", disse García no sábado. Diante das circunstâncias que causaram a saída dos chefes de gabinete anteriores, essa declaração pode ser interpretada como a esperança de que o resto de seu mandato transcorra sem maiores crises. O primeiro gabinete de García, liderado pelo aprista Jorge del Castillo, foi substituído logo depois que o escândalo dos "petroáudios" - uma série de gravações que evidenciaram supostos subornos para favorecer uma petroleira na entrega de explorações - salpicasse conhecidos personagens do partido do governo.

O segundo gabinete, chefiado por Simon, não resistiu ao protesto dos nativos da selva peruana diante de um pacote de leis do Executivo que, segundo eles, atentava contra a propriedade de suas terras. Depois de dois meses de greve, o protesto derivou em confrontos que acabaram com 34 mortos, entre eles 24 policiais. Agora uma das principais missões de Velásquez será velar pelo cumprimento dos compromissos assumidos por seu antecessor para desativar os protestos, não só na selva peruana, mas também em várias localidades do sul do país.

No entanto, a oposição assumiu a designação com ceticismo. "Será um gabinete de choque e repressão", considera Mario Huamán, secretário-geral da Confederação Geral de Trabalhadores do Peru (CGTP). Por sua vez, Carlos Tapia, porta-voz do Partido Nacionalista Peruano, de Ollanta Humala, declarou que com Velásquez "se impõe a linha-dura no governo".

Os nativos também não se mostraram muito satisfeitos: "O gabinete será de corte alanista e isso não nos dá nenhuma confiança", declarou Daysi Zapata, presidente em exercício da Aidesep, associação que representa a maioria das populações amazônicas.

"É uma notícia muito ruim", comenta sobre a designação o jornalista Fernando Rospigliosi, ex-ministro do Interior no governo de Alejandro Toledo, em uma coluna publicada no domingo no jornal "La República". "Em primeiro lugar é um político de capacidades muito limitadas. Em segundo lugar é o oposto do que Alan García ofereceu na campanha eleitoral. Em terceiro lugar, não traz uma cota de popularidade ao governo, coisa de que García necessita com urgência depois de sua estrepitosa queda nas pesquisas". Rospigliosi opina que Velásquez "será um ministro-secretário, obediente às ordens do presidente. Como não tem peso próprio e deve tudo a García, será incapaz de dizer não".

"O país espera ordem e inclusão social", declarou García, que no domingo renovou outros cinco ministros, entre eles os da Defesa, Interior e Justiça. Para que se cumpra seu desejo de que este seja seu último gabinete, Velásquez terá de ser cuidadoso e fechar a boca de seus críticos.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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