UOL Notícias Internacional
 

15/07/2009

Começa o julgamento do primeiro líder africano acusado de crimes de guerra

El País
Isabel Ferrer
Em Haia (Países Baixos)
Charles Taylor, ex-presidente da Libéria, deu na terça-feira um suspiro de resignação e cruzou as mãos sobre a mesa antes de iniciar o turno da defesa no caso aberto contra ele no Tribunal Especial para Serra Leoa. É o primeiro mandatário africano, embora tivesse sido derrubado e fugido para o exílio na Nigéria antes de ser preso em 2003, que enfrenta a justiça internacional. Taylor, que passou de líder rebelde em 1990 a presidente de seu país nove anos depois, não quer entrar para a posteridade como o "senhor da guerra" encarcerado por traficar diamantes e encher de mutilados o oeste da África.

Charles Taylor

  • AP/ICC

    Ex-presidente da Libéria participa de sessão no tribunal internacional. Charles Taylos é acusado por crimes de guerra e contra a humanidade

As acusações de crimes de guerra e contra a humanidade que lhe fazem não são modernas do ponto de vista jurídico. Mas enfrenta a máquina judicial de tribunais como o que o processa, ou o Tribunal Penal Internacional, que o elevou à vanguarda da luta contra a impunidade. Por isso cuidou de sua estreia como primeira e mais importante testemunha em seu próprio caso. Um depoimento longo em sua primeira jornada, que se prolongará por várias semanas e ofereceu momentos de grande intensidade.

O advogado havia pedido sua opinião sobre as acusações de "terrorista, violador e assassino", e Taylor, um tanto condescendente, fez como resposta um canto à paz: "Tenho 14 filhos e netos e amo a humanidade. Por isso sempre lutei a favor da justiça e da equidade", disse. Depois, no melhor estilo de seus tempos de pregador batista laico, professou sua inocência, transferindo a culpa para a promotoria. Censurou-a por acusá-lo de ter armado a Frente Unida Revolucionária (FUR) durante a guerra civil de Serra Leoa. "É incrível que devido à desinformação, mentiras e rumores, tenham acabado por me descrever desse modo", indicou com firmeza, escondido atrás de seus óculos escuros. "Nunca fui, sou ou serei nada de tudo isso. É falso e malicioso e não digo mais."

O ex-político liberiano ensaiava havia meses essa apresentação. Para ele é vital desmontar uma das acusações mais pesadas que lhe fazem: o tráfico de diamantes. "Nunca, jamais, recebi diamantes por parte dos membros do FUR. Nem em vidros de maionese, nem em latas de café, nem nada. É uma mentira diabólica", clamou diante da sala completamente lotada.

A defesa decidiu não negar as atrocidades cometidas pelos rebeldes de Serra Leoa. São irrefutáveis porque foram documentadas e filmadas ao vivo na época. Em seu lugar, optou por outra linha de argumentação mais sutil. Apresenta Taylor como um homem que tentou ganhar a paz para Serra Leoa e puniu os desvios que lhe atribuem. Um político de altura e não um criminoso decidido a controlar minas de diamantes da Libéria, valendo-se de assassinatos, escravidão sexual e meninos-soldados até causar mais de 250 mil mortes. "Sou inocente de tudo isso", ele disse. "É impossível que ele se intrometesse em Serra Leoa enquanto dirigia os assuntos de Estado em sua terra", acrescentou a defesa.

Quando concluir sua declaração, esse descendente dos escravos libertos depois da Guerra Civil nos EUA que fundaram a Libéria no século 19, chamará 249 testemunhas. De sua perícia e da de seus assessores em interrogá-las dependerá que ele acabe ou não seus dias em uma cela no Reino Unido. Londres aceitou guardá-lo caso seja condenado.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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