UOL Notícias Internacional
 

15/07/2009

Interesses e investimentos chineses na África são cada vez maiores

El País
Fernando Peinado
Em Madri (Espanha)
A China encontrou na África o território virgem e promissor que no início do século 21 lhe permite saciar sua sede de recursos, assim como os EUA tiveram o oeste no século 19 e a Europa, até o século 20, teve o resto do mundo. Em 2008 o comércio entre China e África alcançou o valor de 76 bilhões de euros, dez vezes mais que em 2000 e quatro vezes mais que o total da ajuda oficial ao desenvolvimento recebida pelo continente africano em 2008.

  • Rebecca Blackwell/AP

    Homens com bandeiras do Senegal e da China aguardam a chegada do presidente chinês, Hu Jintao, em Dacar (Senegal), em abril deste ano. A China está construindo um teatro no país

Nesse cenário surgiu a China, com uma voracidade insaciável pelos recursos naturais africanos - o comércio entre China e África aumentou 45% em 2008 em relação ao ano anterior - e um novo estilo. Diferentemente da prática dos europeus e americanos desde o início dos anos 1990, os investimentos e as ajudas chinesas não estão condicionados a reformas políticas ou humanitárias. Governantes proscritos pelo Ocidente, como Omar al-Bashir (Sudão) ou Robert Mugabe (Zimbábue), encontraram em Pequim o aliado perfeito para se legitimar diante de sua população.

Mas não são os únicos entusiasmados pelo modelo chinês. Surgem agora em toda a região intelectuais e políticos que, cansados dos pobres resultados das receitas neoliberais, defendem uma economia dirigida pelo Estado. Ao mesmo tempo, amplia-se o desejo de perpetuar-se no poder através de reformas que suprimam o limite ao número de mandatos presidenciais.

O presidente chinês, Hu Jintao, foi recebido em visita oficial ao Parlamento nigeriano com um discurso em que se qualificou a China como "exemplo de desenvolvimento e democracia". E no Quênia um porta-voz do governo disse: "Nunca se escutarão os chineses dizer que não terminarão um projeto porque o governo não fez o suficiente contra a corrupção. Se prometem construir uma estrada, o farão". As antigas potências coloniais europeias não perdem peso só no campo das ideias. Ficaram relegadas na corrida pelas riquezas africanas, na qual se candidataram outros autores emergentes, como Índia, Brasil ou Rússia - esta última reaparece no continente depois de ter sido utilizado pela União Soviética como campo de batalha política na Guerra Fria.

"Atualmente, mais de 70% dos contratos de obras públicas na África subsaariana são concedidos a companhias chinesas ou indianas", indica como dado revelador Patrick Smith, redator-chefe de "Africa Confidential", uma influente publicação britânica sobre a África. "O Ocidente está perdendo esse mercado e não poderá recuperá-lo porque não pode competir com os preços oferecidos pelas companhias chinesas e de outras potências emergentes."

A perda de peso da França nos países francófonos provocou um debate nacional sobre se a antiga metrópole não soube adaptar-se a tempo às mudanças no continente. "A maneira de medir a influência de um país na África não pode ser hoje a mesma que 20 ou 30 anos atrás", explica Roland Marchal, pesquisador do Ceri/Sciences Po, instituição com sede em Paris. "Então se tratava de uma intervenção colonial, apesar de esses países já terem adquirido a independência. A França tirava e punha ministros ou presidentes à vontade e as companhias francesas dominavam com exclusividade o Chade, a Mauritânia ou a Costa do Marfim. Agora as empresas se dirigem a qualquer país onde haja oportunidades de investimento, independentemente de falarem nossa língua, por exemplo, a África do Sul."

A ofensiva econômica chinesa permitiu que a África subsaariana vivesse uma década dourada, na qual cresceu em média 5,5%. No entanto, a queda da demanda por matérias-primas provocada pela crise global levou o FMI a prever em abril um crescimento de 1,5% em 2009. Este é superior ao que experimentará a maioria dos países do mundo rico, mas fica abaixo dos 3% anuais de aumento demográfico, o que fez disparar os alarmes de uma crise alimentar. Como se fosse pouco, a crise expôs os países mais frágeis ao perigo do golpismo - três golpes de Estado no último ano - e ao crime organizado, que se apoderou de parte da África ocidental.

Mesmo assim, uma recuperação rápida é possível. A queda dos preços estimulou a compra de matérias-primas pela China em um ritmo inédito. "A China já comprou nos primeiros seis meses deste ano mais recursos africanos que em 2008 inteiro", afirma Smith.

O desembarque de milhões de euros está transformando a paisagem africana. Autoestradas, represas, portos e aeroportos são construídos, muitas vezes a pedido de Pequim, que precisa dessas infraestruturas para transportar suas mercadorias, e as grandes cidades absorvem a duras penas a chegada de imigrantes do mundo rural.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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