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17/07/2009

Bolívia exclui o passado europeu no bicentenário da independência

El País
Mabel Azcui
Em Cochabamba (Bolívia)
A Bolívia deu na quinta-feira o tiro de largada para as comemorações do bicentenário da independência da Espanha que percorrerão a América Latina ao longo dos próximos dois anos. O festejo é uma prova crucial para a diplomacia espanhola: é o primeiro de muitos atos reivindicativos e o é, além disso, em um terreno bastante hostil na hora de lembrar a antiga potência colonial.

Líderes latinos comemoram data em La Paz

  • Martin Alipaz/EFE

    Da esq.a para a dir.: na frente, os presidentes Fernando Lugo (Paraguai), Hugo Chávez (Venezuela), Evo Morales (Bolívia), Rafael Correa (Equador), o enviado cubano Jorge Sierra Cruz; atrás, o secretário espanhol Juan Pablo de la Iglesia, o representante chileno, Marcos Robledo, o chanceler boliviano, David Choquehuanca, o vice boliviano, Álvaro Garcia, a chanceler do presidente deposto de Honduras, Patricia Rodas, e os chanceleres brasileiro, Celso Amorim, e chileno, Mariano Fernandez

O presidente Evo Morales preparou a cidade de La Paz para grandes festas. Os presidentes da esquerda mais radical da região estarão ao seu lado. O venezuelano Hugo Chávez, o equatoriano Rafael Correa, o nicaraguense Daniel Ortega e o paraguaio Fernando Lugo confirmaram presença, assim como o vice-presidente de Cuba, Jorge Luis Sierra Cruz. Todos são membros da Alternativa Bolivariana para as Américas (Alba). A maioria dos outros países envia seus ministros das Relações Exteriores e a Espanha estará representada pelo secretário de Estado para a Iberoamérica, Juan Pablo de Laiglesia. Também estará o prefeito de Madri, Alberto Ruiz-Gallardón, junto com mais cerca de 20 políticos e militares de cinco países sul-americanos.

Um detalhe especial do desfile de convidados é a participação de 260 cavaleiros que na última segunda-feira iniciaram uma cavalgada que terminou na quinta com sua entrada na cidade. Foram acompanhados de centenas de caminhantes das diversas comunidades indígenas, convidados especialmente para a ocasião.

Da comemoração ficou excluída a metade oriental da Bolívia. As ricas províncias de Santa Cruz, Tarija, Beni e Chuquisaca, todas contrárias ao governo de Morales por mil e um motivos, e sobretudo pela reforma constitucional de tom indigenista que o leste boliviano, principalmente "crioulo" [descendente de europeus], recusa taxativamente.

O país já festejou dividido no último dia 25 de maio as primeiras idéias independentistas gestadas na Universidade San Francisco Xavier em Chuquisaca.

Houve um ato em Sucre [a capital constitucional do país], do qual participaram os governadores de oposição a Morales, e um paralelo organizado pelo governo a poucos quilômetros dali. O presidente foi a El Villar, um povoado próximo da capital, para prestar homenagem à guerrilheira Juana Azurduy (nascida em Potosí em 1870), a heroína da guerra da independência boliviana, entre 1816 e 1825. Azurduy, a primeira mulher autorizada a vestir o uniforme do exército argentino e que recebeu a patente de tenente-coronel em 1816, foi promovida na quarta-feira a general, a título póstumo, pela presidente argentina, Cristina Fernández.

  • Aizar Raldes/AFP

    Índias aymarás participam de comemoração oficial do aniversário da primeira independência da Bolívia

A ausência das províncias da oposição também se deve ao revisionismo histórico em que Morales embarcou. O presidente peruano afirma que foram os levantes indígenas de 1781 os primeiros gritos de liberdade, e não o dos crioulos de 1809, encabeçados por Pedro Domingo Murillo, de La Paz. Também há um setor indigenista radical que considera Murillo um traidor porque prestou serviço no exército da coroa espanhola durante o levante indígena de Tupac Katari, 28 anos antes da rebelião crioula. Na segunda-feira, quatro desconhecidos explodiram um busto de Murillo na localidade de Chulumani, a capital do distrito de Sud Yungas, lugar onde nasceu o herói nacional em 1757.

Muitos historiadores que debateram o tema recentemente concordam que os levantes indígenas foram "explosões esporádicas de descontentamento contra as autoridades, mas sem planos concretos".

O renomado historiador Alcides Pareja, de Santa Cruz de la Sierra, referindo-se a Morales, diz que "a revolução de La Paz de 16 de julho, que tem uma grande importância no processo histórico americano, se transformou em um instrumento político do Movimento Ao Socialismo [MAS, o partido no governo]. O festejo é o reflexo do que Morales propõe para o país: uma política excludente que, negando a história, pretende criar uma grande "ayllu" [território] a partir da cultura aimara. Busca eliminar os resquícios coloniais e ao mesmo tempo empreende uma nova colonização a partir da cultura aimara. Propõe um novo Estado, que já não é uma república mas um plurinacional excludente que não abarca todo o território e no qual se renega tudo o que seja a história dos últimos 500 anos".

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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