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18/07/2009

Antes de chegar a Marte, EUA precisam chegar à China

El País
Francisco G. Basterra
É pena que a Lua, objeto de desejo nas noites estreladas de verão, esteja nestes dias apagada, justamente quando na segunda-feira se completarão 40 anos da chegada do homem ao astro mais próximo, a bordo da Apollo 11. As pessoas com mais de 50 anos vão lembrar depois de amanhã onde estavam e com quem na madrugada de 21 de julho de 1969, quando Jesús Hermida contou na única televisão da Espanha, em branco e preto, a "alunissagem" e o primeiro passeio lunar.

Agora soubemos que a primeira coisa que Neil Armstrong fez foi colher a primeira pedra que viu e guardá-la, caso alguma coisa saísse mal e ele tivesse de voltar precipitadamente para o Eagle, o módulo de alunissagem. Os astronautas americanos chegaram à Lua com combustível para apenas mais 17 segundos de voo, enquanto na Terra William Safire tinha preparado para o presidente Nixon uma bela elegia, caso não conseguissem regressar. O legendário jornalista americano Walter Cronkite disse, ao descrever os primeiros passos de Neil Armstrong no mar da Tranquilidade, que a partir de então qualquer acontecimento seria um mero asterisco da história. Como todas as frases redondas em seu momento, a dele afinal não se cumpriu; 1969 também foi o ano do concerto de Woodstock e do filme "Easy Rider".

E na Espanha Franco decidiu, também nesse mês de julho, que o jovem príncipe Juan Carlos seria o próximo rei. Desde então aconteceram coisas terríveis, o 11 de Setembro; magníficas, como a consolidação da democracia na Espanha; surpreendentes, a chegada à Casa Branca construída por escravos negros de um presidente afro-americano. Não, a história não acabou como predisse Fukuyama em outra frase efêmera.

Neste mundo instantâneo em que vivemos, nada dura mais que um par de telejornais. Já não há grandes relatos épicos. Por isso é recomendável nestas férias o livro que acaba de publicar Buzz Aldrin, o segundo astronauta que pisou na Lua há quatro décadas depois de Armstrong, "Magnificent Desolation" [Magnífica desolação] (ed. Harmony), no qual ele defende que os EUA têm de voltar ao espaço, diretamente para Marte, com voos tripulados sem o trampolim lunar.

Uma colônia americana em um novo mundo? Mas não parece que o orçamento americano esteja para um gasto público sideral. A Nasa vive uma deriva tecnológica, ficou sem foguetes propulsores e sem objetivos. É preciso lembrar que a genialidade de John Kennedy prometendo pôr um americano na Lua antes do final da década de 60 do século 20 se baseava na competição com a União Soviética em plena Guerra Fria. Depois do assassinato de JFK, seu sucessor, Lyndon Johnson, reconheceu que o dinheiro empregado no projeto Apollo foi rentável, realmente uma pechincha: permitiu através da espionagem do espaço, ele disse, saber o número de armas nucleares que Moscou possuía, e afinal eram muito menos do que calculavam. "Estávamos fabricando mísseis de que não precisávamos."

Barack Obama não está pensando no espaço, muito menos em Marte. Antes tem de viajar à China. Pequim deveria ter sido o primeiro destino lógico do novo presidente. Mas antes ele definiu sua visão de mundo em Praga (o sonho de um planeta desnuclearizado), Turquia (a mão estendida para os muçulmanos), Cairo (os EUA não estão em guerra com o islã), Moscou (a difícil tentativa de se entender com a petrocracia de Putin e seu desejo de manter sua antiga esfera de influência). E sua última escala, por enquanto, na África, em Gana, onde pediu ao continente negro que exerça sua autorresponsabilidade e não se esconda atrás da desculpa do colonialismo para justificar suas guerras e seu atraso econômico. Agora é a vez de Pequim, a capital do Reino Médio, a outra superpotência.

O poder mundial está passando do Ocidente para o Oriente, embora seja uma notícia-bomba ainda prematura o fim do domínio do Ocidente e a chegada de um século 21 asiático ou só chinês. Mas aí está Quimérica, essa entidade virtual batizada pelo historiador Niall Ferguson, que soma 25% da população mundial e mais de 30% do PIB do planeta. Esse é o autêntico G2. Goldman Sachs, o banco americano ressuscitado, prevê que a economia chinesa supere em tamanho a dos EUA antes de 2027.

Mas devido a sua enorme população, no ritmo atual de crescimento o chinês precisaria de 47 anos para alcançar o nível de vida que o americano médio desfruta hoje. A necessária acomodação, competitiva sim, benigna ou não, entre EUA e China, está pedindo o quanto antes a presença de Obama na Cidade Proibida em Pequim. A outra viagem, a Marte, fica para depois. Sem dúvida nossos filhos a realizarão.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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