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22/07/2009

Caso juiz Borsellino: máfia executou a chacina em aliança a serviços secretos

El País
Miguel Mora
Em Roma
Em 19 de julho de 1992 o juiz antimáfia Paolo Borsellino foi assassinado junto com seus cinco guarda-costas por um carro-bomba carregado com 100 quilos de dinamite. A bomba explodiu na Via Mariano D'Amelio em Palermo, quando o magistrado ia visitar sua mãe.

Dois meses antes, e apenas alguns dias depois do assassinato de seu amigo e colega Giovanni Falcone, Borsellino tinha falado em uma entrevista à RAI sobre as relações entre a Cosa Nostra e os industriais de Milão, citando os nomes de Marcello Dell'Utri, condenado depois por associação mafiosa, e Silvio Berlusconi, chefe e parceiro político do anterior.

Agora, 17 anos depois de sua morte, os magistrados sicilianos reabriram o caso depois de encontrar documentos e depoimentos que indicam que a máfia executou a chacina em aliança com os serviços secretos.
O "capo dei capi", Totò Riina, preso na penitenciária de Opera (Toscana) e condenado à prisão perpétua por, entre outros, os assassinatos de Falcone e Borsellino, acaba de romper um hermetismo de 17 anos e confirmou essa versão. Informado pelos jornais do novo rumo da investigação judicial, o "padrinho" de Corleone contou no sábado a seu advogado sua verdade: "Eles o mataram", disse. E acrescentou: "Não olhem sempre só para mim, olhem também vocês o que têm dentro".

Na tradução de seu advogado, Luca Cianferoni, Riina afirma que o assassinato de Borsellino foi um crime de Estado. A afirmação reforça as suspeitas das promotorias de Caltanissetta e Palermo, que reabriram uma investigação que parecia sepultada graças às revelações de dois novos arrependidos, Giovanni Brusca e, principalmente, Massimo Ciancimino.

O segundo é o filho do falecido chefe e convicto Don Vito Ciancimino, um corleonês que foi prefeito democrata-cristão (corrente andreotista) nos anos 1970 e que, segundo revelou o recente livro "Vaticano S.P.A", do jornalista Gianluigi Nuzzi, recebia dinheiro da máfia através do Instituto para as Obras de Religião (IOR), o banco do Vaticano.
Durante seu mandato, Don Vito construiu uma nova Palermo e levou para o túmulo um tesouro de milhões de euros. Acusado de reciclar essa fortuna, Ciancimino filho tentou se safar confessando a origem de alguns papéis cruciais que seu pai guardava.

Em um deles, que parece estar rasgado na metade superior, a Cosa Nostra ameaçava Silvio Berlusconi com um "fato funesto" (o sequestro de um de seus filhos) se não pusesse a sua disposição um canal de televisão que cuidasse de seus interesses. Segundo Ciancimino, a nota foi escrita pelo chefe Bernardo Provenzano, embora ele a tenha visto inteira e não rasgada: "Nesta história há algo maior que eu", ele disse, acrescentando que Provenzano enviou para Berlusconi mais duas cartas através de seu pai e de Dell'Utri.

Outro dos papéis, que Ciancimino atribui ao próprio Riina, provaria que o assassinato de Borsellino foi consequência de uma negociação entre a máfia e dois chefes dos serviços secretos.

Riina, com a credibilidade que se possa dar ao mafioso mais impiedoso e sanguinolento da história, não demorou 48 horas para aparecer em cena: negou que fosse ele quem tratou com o Estado, mas disse que essa negociação existiu e que os negociadores foram os assassinos.

Os irmãos do juiz Borsellino também acreditam nessa versão, que sempre foi uma espécie de segredo aberto. No sábado, Rita e Salvatore Borsellino encabeçaram uma manifestação de protesto que terminou diante do Castillo Utvegio, sede dos serviços secretos em Palermo.
"Hoje finalmente, depois de anos de trevas, a luta que as promotorias de Caltanissetta e Palermo estão realizando vai finalmente pelo caminho justo", disse Salvatore Borsellino.

Ao grito de "Resistência, a agenda vermelha existe", cerca de 300 pessoas exigiram que apareça o caderno vermelho de Paolo Borsellino. A caderneta continha o que o juiz sabia. Acredita-se que foi recolhida por um policial no dia da chacina. Ninguém teve notícias dos dois desde então.

Rita Borsellino, eurodeputada pelo Partido Democrático, se pergunta por que todas essas pistas vêm à luz 17 anos depois. "Tenho muitas dúvidas, mas não acuso ninguém", diz.

Se conhecerá algum dia a verdade ou as verdades? No domingo, a manifestação do aniversário foi reveladora. Quase não foi ninguém, e não se viu um só político nacional. O único representante do Estado foi o promotor antimáfia Piero Grasso. E isso que trabalho não lhe falta. O arrependido Ciancimino declarou na televisão: "Tenho medo, claro que tenho medo. Cada vez que falo, Riina sai do esconderijo".

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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