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24/07/2009

Uma década de Mohamed 6º, um monarca que reina e também governa

El País
Ignacio Cembrero
Em Madri (Espanha)
A empresa americana Delphi Automotive Systems, que fechou há dois anos em Puerto Real (Cádiz, Espanha), inaugurou há três meses na zona franca de Tânger (Marrocos) sua segunda fábrica de peças para automóveis.

É mais um elemento do sucesso do "projeto estrela" do megaporto de Tânger-Med, que o rei Mohamed 6º lançou em 2002 e que compete com o de Algeciras, na Espanha, ressaltou a agência de imprensa oficial marroquina MAP.

Por motivo do décimo aniversário de sua entronização, a imprensa governista marroquina reitera com insistência a "visão estratégica" que o monarca teve. O noroeste do Marrocos vem se desenvolvendo em ritmo acelerado nos últimos sete anos.

O projeto é dirigido pela Agência Especial Tânger Mediterrâneo, que em boa medida escapa ao controle do governo e depende do palácio real. O exemplo ilustra a maneira de governar do soberano da etnia alauíta. Fundações, comissões e agências especiais - acaba de ser criada uma nova para o porto de Nador - escapam ao controle do Executivo e só prestam contas ao rei.

  • AFP PHOTO ABDELHAK SENNA

    Morador de Dakhla beija a mão do rei Mohamed 6º do Marrocos, em foto de 1º de nov. de 2001

Na quinta-feira completaram-se dez anos que Hassan 2º morreu e seu primogênito, que tinha então 35 anos, foi entronizado no mesmo dia. Herdou um país em que seu pai, nos últimos anos de reinado, havia promovido uma alternância política - um socialista chegou à chefia de governo em 1998 - que podia anunciar uma transição.

A transição inacabada, intitulou o professor francês Pierre Vermeren no livro que publicou no mês passado sobre o Marrocos. Inconclusa porque o artigo 19 da Constituição outorga quase todos os poderes ao rei, e não se contempla sua revisão. Socialistas islâmicos moderados a reivindicam de vez em quando, mas a boca pequena.

Mohamed 6º também conserva o costume de seu pai de nomear diretamente, além do primeiro-ministro, vários membros do governo, uma atribuição não prevista pela Constituição. Os chamados "ministros de soberania" cuidam das pastas do Interior, Justiça, Relações Exteriores e Assuntos Islâmicos. Como se não bastasse, o rei criou novos órgãos, como a agência que administra Tânger-Med, vinculados ao palácio real.

Essa maneira original de governar, no entanto, não traz maus resultados econômicos. "O índice de crescimento da economia marroquina avançou constantemente nos últimos dez anos", salienta o estudo "Uma ambição marroquina", recém-elaborado por dez especialistas.

Empenhado em combater as interpretações radicais do islã, o soberano promoveu também duas grandes reformas religiosas em 2004, pouco depois dos atentados de Casablanca, e em 2008. Ambas consolidam seu poder como Comendador dos Crentes, isto é, chefe espiritual dos muçulmanos, título que a Constituição já lhe atribui.

Os partidos políticos e o Parlamento nunca foram um contrapoder. O rei os fustigou em seus discursos por sua fragilidade e falta de seriedade, mas não os ajudou a levantar a cabeça. Ao contrário, com seu apoio ou, pelo menos, seu beneplácito, deixou que seu grande amigo Fouad Ali el Himma criasse um novo partido há dez meses, que a imprensa batizou de "o partido do rei".

A irrupção dessa nova força, que no mês passado já ganhou as eleições municipais, deixou de ponta-cabeça o mapa político do reino. Enfraqueceu ainda mais os partidos históricos como os socialistas ou o Istiqlal (Independência), que deveriam ser os pilares de uma futura democracia.

No capítulo econômico, o peso da família real continua preponderante apesar da liberalização. Em 2003, a Siger, holding que administra a fortuna real, controlava 60% dos títulos cotados na pequena Bolsa de Casablanca, segundo revelou o semanário "Le Journal".

A revista americana especializada "Forbes" estimou em junho que a fortuna de Mohamed 6º era em 2008 de 1,757 bilhão de euros (R$ 4,7 bilhões). Foi o único monarca importante que conseguiu aumentar seus bens nesse ano.

Apesar de tanto acúmulo de poder, o soberano é discreto. Evita os meios de comunicação - desde que recebeu "El País" em janeiro de 2005 não concedeu mais entrevistas - e também as cúpulas e conferências internacionais.

No Marrocos, por sua vez, é onipresente. Multiplica as inaugurações, sobretudo aquelas com uma vertente social, até extremos insuspeitados. Chegou a cortar a faixa inaugural de uma piscina municipal em Oujda que nem sequer era olímpica. "É um rei que deseja ser querido", afirma o cientista político Mohamed Tozy. A transição incompleta não significa que não tenha ocorrido uma abertura. Apesar do assédio que sofre, a imprensa é das mais livres do mundo árabe, e a sociedade civil vive uma etapa de efervescência reivindicativa.

O aspecto mais ruidoso foi a investigação, promovida pelo rei, da repressão durante o reinado de seu pai. As vítimas daqueles anos de chumbo contaram em público as atrocidades que haviam sofrido e agora estão sendo indenizadas.

O corajoso trabalho de esclarecimento do passado correu a cargo da instância Equidade e Reconciliação, criada pelo próprio rei. Antes de se dissolver em 2006, redigiu algumas recomendações para evitar que no futuro caísse nos mesmos excessos. Seus conselhos são letra morta.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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