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26/07/2009

Europa perde peso em relação a outras potências devido à estagnação dos gastos

El País
Andrea Rizzi Em Madri (Espanha)
Julho foi até agora um mês muito duro para as tropas britânicas mobilizadas no Afeganistão. A morte de 19 soldados em três semanas, a maioria por causa da explosão de artefatos, provocou em Londres um intenso debate sobre se as tropas do Reino Unido têm equipamento à altura da situação. A imagem do general Richard Dannatt voando pelo Afeganistão em um helicóptero americano - "teria me deslocado em um britânico, se houvesse um disponível", disse o militar - elevou a polêmica ao grau máximo.

O próprio primeiro-ministro Gordon Brown teve de intervir para acalmar as coisas. Além das escaramuças políticas sobre o número de helicópteros e blindados britânicos disponíveis na província afegã de Helmand, o debate no Reino Unido - junto com a França, a maior potência militar européia - coloca uma pergunta política transcendental para todo o continente: em que situação estão os músculos da Europa? Acompanham de maneira adequada sua ambição de potência global?

As estatísticas sobre gastos militares oferecem uma resposta clara: enquanto todas as grandes potências mundiais aumentaram seus investimentos em ritmo vertiginoso na última década, a Europa gasta hoje a mesma coisa que dez anos atrás. Comparativamente, a força militar europeia está se erodindo em grande velocidade.

Os dados são contundentes. A China aumentou seu gasto militar 194% entre 1999 e 2008, em termos reais. A Rússia, 173%. Os EUA, 66%. A Índia, 44%. Diante dessas cifras, no mesmo período, a França aumentou seu gasto em 3%; a Itália em 0,4%; a Alemanha recuou 11%. O Reino Unido avançou 20%, devido a seu alto envolvimento nas guerras do Iraque e do Afeganistão. No conjunto, o continente europeu registrou um avanço de 5%. Os dados são do prestigioso Instituto Internacional de Estudos para a Paz (Sipri), de Estocolmo (Suécia). Segundo ele, a China se transformou em 2008, pela primeira vez, no segundo investidor militar do mundo.

"O gasto militar é impulsionado por três fatores básicos", comenta em conversa por telefone Samuel Perlo-Freeman, pesquisador do departamento de gasto militar do Sipri. "Estar envolvido em conflitos armados, como os EUA; ter ambições de potência militar global, como a China ou a Rússia; gozar de um crescimento econômico elevado, que facilite o aumento do gasto militar. A Europa não é impelida por nenhum dos três fatores. Os países europeus deram prioridade a objetivos pelos quais não consideram necessário ou útil desenvolver seu poderio militar."

Assim, a capacidade de influência europeia em escala global é cada vez mais dependente do chamado "soft power", decorrente do poderio econômico e comercial, da sedução cultural, do atrativo de sua mistura particular entre livre mercado e proteção social. Para muitos isso é positivo. A esse respeito, há opiniões de todas as cores.

Mas os fatos falam de duros adversários em um mundo menos nobre do que pretendem os partidários do "soft power". Um mundo em que o "hard power" não conta muito menos do que quando Stalin, perguntado sobre as relações com a Igreja Católica, disse ironicamente: "O papa?... Quantas divisões tem o papa?"

"A Europa se afastou do ritmo de crescimento dos demais. Isso é fonte de preocupação", observa na França Yves Boyer, diretor-adjunto da Fundação para Pesquisa Estratégica francesa. "Se quisermos evitar uma Europa condenada à decadência, os governos têm de dotá-la de meios nos setores industriais, culturais e diplomáticos, mas também militares. Embora isso vá contra as opiniões públicas, os governos têm o direito de atuar no interesse estratégico de seus países."

A tendência, no entanto, mostra uma estagnação absoluta na última década, e as projeções para os próximos orçamentos não a invertem. A crise econômica global reduz ainda mais a margem de manobra.

"Apesar do freio nos investimentos, que prejudica a disponibilidade de materiais", prossegue Boyer, "a Europa ainda goza de vantagens comparativas quanto a 'know-how'. Mas inclusive o 'know-how' precisa de meios para se manter atualizado, e a espiral atual pode ser perigosa."

Para se fazer uma ideia das magnitudes, as cinco principais potências militares europeias - França, Reino Unido, Alemanha, Itália e Espanha -, com uma população equivalente à dos EUA e um PIB conjunto pouco inferior, somam um gasto militar que representa 40% do americano.

Apesar do crescimento espetacular, a China, e mais ainda a Índia e o Brasil, ficam longe da Europa como bloco, em termos absolutos. Mas há matizes: se o gasto for calculado em paridade de poder aquisitivo, o peso relativo do investimento chinês ou indiano subiria muito. Um milhão de dólares em mãos diferentes compram a mesma fração de um caça-bombardeiro, mas pagam muito mais salários de soldados chineses que de europeus.

Por outro lado, é evidente que a soma do gasto militar europeu continua sendo mais uma realidade aritmética que política. Apesar de a ascensão de Sarkozy - sua aproximação da Otan e dos EUA - facilitar o caminho para o desenvolvimento de uma defesa comum europeia, a realidade é que não há avanços significativos na matéria. O esforço militar europeu continua pulverizado em muitos fragmentos, enquanto surgem no horizonte realidades nacionais coesas e cada vez mais armadas.

O dilema da guerra assimétrica

Além do debate sobre o gasto militar global, especialmente forte nos últimos meses é a discussão em torno de como distribuir esse gasto. Tradicionalmente, o investimento das grandes potências foi dirigido para armamentos para guerras convencionais, isto é, para poder enfrentar o ataque de outra potência. No entanto, a história recente demonstra que as grandes potências tiveram de mobilizar suas forças de maneira quase exclusiva nos chamados conflitos assimétricos, nas batalhas que não são travadas contra exércitos convencionais.

Muitos analistas creem que essa nova realidade, e o que se pode prever do futuro, deveria induzir os governos a mudar suas prioridades de gastos. O próprio secretário de Defesa dos EUA, Robert Gates, se declarou a favor dessa mudança em um documento recente e, nesse sentido, o governo Obama cancelou uma encomenda de aviões F-22 no valor de US$ 1,75 bilhão (cerca de R$ 3,5 bilhões).

A transição, no entanto, é de maneira geral lenta, sobretudo devido às resistências da indústria da defesa, que não quer ver reduzidas as lucrativas verbas destinadas aos grandes armamentos convencionais.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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