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27/07/2009

Paul McCartney faz campanha por dieta sem carne para reduzir o efeito estufa

El País
Antía Castedo
Comer uma boa costela ou um delicioso hambúrguer podem se transformar num problema para a consciência. Além de apagar as luzes quando não são necessárias, andar de bicicleta ou usar os transportes públicos e um milhão de outras receitas para tentar frear o aquecimento global, a luta chegou ao consumo de carne. No Reino Unido, um grupo de famosos, encabeçados por Paul McCartney, iniciou uma campanha com o tema "segunda-feira sem carne". O objetivo: que nos tornemos vegetarianos um dia por semana para reduzir as emissões de gases de efeito estufa. Segundo o ex-Beatle, é uma forma de contribuir individualmente e sem grandes esforços com a batalha contra o aquecimento global. A carne pode ser medida em emissões de CO2: ingerir um quilo de carne bovina equivale a viajar 250 quilômetros de carro.

  • AFP PHOTO/Shaun Curry
A FAO - Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação - alertava em 2006 que o setor pecuarista emite mais gases de efeito estufa - 18%, medido em relação ao equivalente em dióxido de carbono - que o setor dos transportes. Dessa porcentagem, uma parte importante corresponde ao metano, um gás que tem um potencial de acumular 23 vezes mais calor do que o CO2. O sistema digestivo dos ruminantes, especialmente o das vacas, faz com que esses animais emitam metano através de arrotos e eliminação de gases intestinais.

Além disso, grandes extensões de terra, sobretudo na América Latina, têm sido desmatadas para se transformarem em pastos e produzir forragem para alimentar o gado. O esterco gera óxido nitroso, com um potencial 296 vezes maior de aquecimento global que o CO2. "Extensões cada vez maiores de terra estão sendo dedicadas do cultivo da soja, que é utilizada como proteína nas rações, sobretudo na Argentina e no Brasil", explica Miguel Ángel Soto, especialista em desmatamento do Greenpeace Espanha.

"Em 2006 elaboramos um informe em que assinalávamos as grandes empresas produtoras de soja e os maiores importadores na Europa, como o McDonald's. Os frangos do McNuggets se alimentavam da soja produzida em fazendas situadas em áreas desmatadas. Levamos os diretores da multinacional lá para verem", explica Soto. Como resultado da viagem, a empresa se uniu a um boicote contra a compra de soja procedente de áreas de desmatamento recente, cuja elaboração contou com a participação do governo brasileiro.

Segundo o Greenpeace, a intensidade do desmatamento flutua com os preços da carne e da soja. Quando o preço de ambos os produtos cai nos mercados internacionais, o ritmo do corte de árvores se reduz no ano seguinte. "90% da soja que produzida na América Latina se destinam a alimentar os animais nos países ricos. Um bife que se come na Espanha, por exemplo, muito provavelmente vem de uma vaca europeia que se alimentou de grãos cultivados no Brasil, que cresceram em terras onde antes havia árvores ou floresta", explica Lasse Bruun, porta-voz da Compassion in World Farming, uma das ONGs que se somou à iniciativa de McCartney.

"Uma mudança de comportamento nos consumidores seria muito importante", opina Bruun, que também defende que o tema seja incluído na cúpula mundial do clima que será realizada em dezembro em Copenhague, Dinamarca. Ainda que logo atenue sua posição: "Obviamente, é um tema que se entrelaça com valores culturais, com o que se considera um bom nível de vida". A carne e o leite são símbolos de bem-estar. Os países em desenvolvimento não querem ficar de fora e começam a imitar os hábitos alimentares ocidentais. Na China e na Índia já se bebe leite e come carne de vaca. E mais, o consumo de carne no mundo se multiplicará por dois em meados deste século, segundo a FAO. Pelo lado da oferta, uma drástica redução do consumo seria também problemática: uns 1.300 milhões de pessoas sobrevivem graças ao setor pecuarista.

Uma voz de credibilidade que apoia a campanha é a de Rajendra Pachauri, presidente do Painel Intergovernamental sobre a Mudança Climática da ONU e prêmio Nobel da Paz em 2007. Numa conferência em Londres em 2006, o cientista indiano explicou que "um produtor pode alimentar 30 pessoas durante um ano com um hectare de terra se produzir vegetais, frutas e cereais. Se a mesma área for utilizada para produzir ovos, leite ou carne, o número cai para cinco a dez pessoas."

Mas a linha da FAO não é a de apoiar uma redução no consumo. Pelo menos não como receita para todos os países. "Não é uma boa recomendação em escala global, porque os países pobres devem aumentar o consumo de carne em suas dietas", defende Pierre Gerber, responsável por políticas pecuaristas da organização.

Nos países ricos, entretanto, come-se muita carne. A Espanha não é uma exceção. Cerca de 121 quilos por ano, segundo a FAO, mais do que qualquer outro país europeu. Desde os anos 60, de quando datam os primeiros dados, o consumo não parou de aumentar. "Até 1984, a dieta na Espanha continuava praticamente de acordo com os padrões da dieta mediterrânea, da qual estamos nos afastando progressivamente porque ingerimos menos carboidratos e mais proteínas, ou seja, menos legumes e pão e mais alimento proteicos como a carne", detalha José Manuel Ávila, da Sociedade Espanhola de Nutrição. "Deveríamos adaptar nossa dieta a nossa gasto em proteínas, comer de tudo um pouco menos e tratar de substituir parte das proteínas por carboidratos", aconselha Ávila, que opina que uma campanha como a de McCartney na Espanha será boa. "O consumo recomendado é de oito vezes por mês". Ou seja, duas vezes por semana. "Ainda que a carne, em sua justa medida, seja muito necessária", suaviza.

O Fórum Mundial de Investigação sobre o Câncer, com base no Reino Unido, recomenda limitar o consumo de carne vermelha, como a de vaca, porco e carneiro, e evitar por completo as carnes processadas - como o bacon e o salame. Para reduzir o risco de padecer de câncer, o consumo não deveria ser maior do que 500 gramas por semana.

O impacto da pecuária sobre a mudança climática varia segundo os sistemas de produção, explica Gerber. Em um sistema extensivo, as emissões das vacas são maiores, por quilo de proteína que se obtém, porque são necessárias mais vacas para produzir uma mesma quantidade de carne ou leite. Quando a produção é mais intensiva, as emissões caem. No último estágio, uma nova intensificação volta a aumentar as emissões, porque o alimento é transportado desde muito longe - muitas vezes de áreas desmatadas - ou porque se consome mais energia na produção.

Os porcos ou galinhas não contaminam como as vacas. Segundo Gerber, "um quarto das emissões do setor são dos ruminantes, sobretudo das vacas". "Para cada quilo de proteína de carne de vaca, são produzidos entre três e quatro vezes mais gases de efeito estufa do que com a mesma quantidade de proteína de carne de frango, em países da OCDE", explica. Tampouco todas as vacas são iguais no que se refere aos gases de efeito estufa. As vacas leiteiras geram - e expulsam - o dobro de metano. E as que tem bezerros, mais ainda. "Entre 200 a 250 quilos por ano", explica Frank Mitloehner, especialista em qualidade do ar do departamento de ciência animal da Universidade da Califórnia.

Ele e sua equipe começaram a estudar o impacto da indústria do gado bovino no ar e na mudança climática porque observaram que a qualidade do ar no lugar onde a universidade está localizada, no vale de San Joaquin, era das piores em todo o território dos Estados Unidos. E esse mesmo vale tem uma concentração enorme de fábricas de produção de leite. "Há vacas por todos os lados", segundo o cientista. Exatamente: dois milhões de vacas leiteiras, a maior concentração do mundo.

"Nos perguntamos se ambas as coisas (a presença de muitas vacas e a má qualidade do ar) podiam estar relacionadas, e descobrimos que sim, parcialmente", relata Mitloehner. O esterco contém amoníaco que, combinado com os gases emitidos pelos carros, "dá lugar a umas pequenas partículas que contaminam o ambiente".

Mitloehner encerrou várias dezenas de vacas numa espécie de "bio-bolha", um tipo de estufa de 40 metros de comprimento por 20 de largura, com estruturas nas quais os animais se movem em grupos de dez. "Assim medimos as emissões", explica. Nesse projeto pioneiro, o pesquisador descobriu que "os arrotos das vacas representam mais da metade das emissões" de gases de efeito estufa. O resto provém do esterco. Os dados do informe da FAO, argumenta Mitloehner, precisam ser relativizados. "A FAO diz que a nível mundial o setor pecuarista emite 18% de todos os gases de efeito estufa. Esse número, entretanto, esconde o fato de que as emissões relacionadas com a criação de gado nos países ricos representam só 3% do total". A razão é simples: nos países ricos há uma maior variedade de fontes de emissões, por isso a importância relativa da pecuária é menor. "Em alguns países pobres, a pecuária representa 60% de todos os gases desse tipo emitidos".

Isso pode explicar porque na Espanha o setor pecuarista só representa 3% do total de emissões, segundo dados do Ministério do Meio Ambiente e Meio Rural e Marinho, ainda que nos campos e fazendas haja mais de seis milhões de vacas. "A metade provém da fermentação entérica, ou seja, dos arrotos e flatulências das vacas, e a outra metade do esterco", explica Carlos Escribano, diretor-geral de recursos agrícolas e pecuários. O Ministério aprovou este ano o Plano Nacional de biodigestão de purinas, que inclui auxílio aos fazendeiros para diminuir a emissão de gases de efeito estufa. O orçamento é de 80 milhões de euros para os próximos quatro anos, que serão geridos por meio do ministério e das comunidades autônomas. O dinheiro será usado para levar o esterco a instalações de produção de biogás e de adubo para as plantações agrícolas. "Para os fazendeiros, desfazer-se dos resíduos é um problema também econômico", disse Escribano, "o que pretendemos é dar-lhes alternativas".

"O plano está centrado no esterco líquido, produzido pelas vacas de leite", aponta Javier López, porta-voz da Associação espanhola de produtores de gado bovino. López defende que o sistema de criação de gado na Espanha é "muito diferente do entorno europeu, e inclusive mundial", o que significa que as emissões são comparativamente menores. "A alimentação à base de grãos faz com que as vacas gerem menos metano e, além disso, na Espanha se consome carne de animais muito jovens. As vacas são sacrificadas entre os 10 e 15 meses, e os estudos científicos dizem que as vacas jovens geram menos metano", aponta López.

Em todo caso, a defesa dos produtores vai além dos números. Eles afirmam que "o assunto está sendo exagerado". Segundo López, "é ridículo pensar que comer menos carne vai solucionar o problema da mudança climática. Restringem a alimentação das pessoas, e não se questiona o modelo consumista de energia em que vivemos." E arremata: "Com certeza Paul McCartney não se pergunta sobre o uso do ar condicionado, ou sobre as viagens de avião e jatos particulares ao outro lado do mundo. Há muita demagogia."

A cidade de Gante, na Bélgica, foi a primeira a se juntar ao clube e já declarou as terças-feiras como o "dia vegetariano". Vários chefes de cozinha no Reino Unido apoiaram o projeto de McCartney e criaram receitas vegetarianas para a página da campanha na internet. A receita desta semana é do próprio McCartney: "A salada de Paul de lamber os dedos". Folhas de espinafre e rúcula, tomates cereja, abacate e queijo feta.

Tradução: Eloise De Vylder

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