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28/07/2009

"A presença de Zelaya na fronteira não ajuda na reconciliação", diz mediador Óscar Arias

El País
Álvaro Murillo
Em San José (Costa Rica)
O presidente da Costa Rica, Óscar Arias (nascido em Heredia em 1940), recebeu seu homólogo de Honduras, Manuel Zelaya, na manhã de 28 de junho, horas depois do golpe de Estado em Tegucigalpa. Seu papel de destaque na crise hondurenha já pareceu claro então. Arias, prêmio Nobel da Paz em 1987, acabou sendo o mediador entre o presidente deposto e o interino, Roberto Micheletti. Depois de várias rodadas de negociações infrutíferas, Arias mantém a esperança de que sua proposta sirva para acabar com a crise. Sobre as intenções de Zelaya de entrar em Honduras pela Nicarágua, o prêmio Nobel é claro: "Não é o caminho para a reconciliação". No sábado, pelo segundo dia consecutivo, o presidente deposto chegou até a fronteira acompanhado de alguns colaboradores e do ministro venezuelano das Relações Exteriores.

O mediador

  • AFP/Presidencia Costa Rica

    Óscar Arias é presidente da Costa Rica e ganhador do Prêmio Nobel da Paz de 1987 por "seus trabalhos pela paz na América Central". Árias atua como principal mediador da crise em Honduras e recebeu as delegações de Micheletti e Zelaya para negociar um consenso que levasse o país de volta à normalidade democrática. Até o momento, suas propostas não conseguiram superar o impasse


El País: É verdade que o senhor continua esperando respostas dos grupos de Roberto Micheletti e de Manoel Zelaya para a proposta de diálogo que o senhor pôs na mesa na última quarta-feira?
Óscar Arias:
Sim. Creio que o Acordo de San José é o melhor caminho que os irmãos hondurenhos têm para sair desse conflito que os dividiu. Realmente espero que a população de Honduras considere que a reconciliação é um valor supremo e está acima de qualquer outro neste momento, porque a alternativa é o confronto que pode levar ao derramamento de sangue, que ninguém quer nem merece.

El País: O senhor continua recebendo o mesmo apoio da comunidade internacional?
Arias:
Estive em contato com muitos presidentes da América Latina e com Washington. Recebi vozes de apoio de muita gente, incluindo o rei Juan Carlos [da Espanha], mas meu último contato com o presidente Zelaya foi na terça-feira, e na sexta recebi uma carta do chanceler Carlos López [indicado por Micheletti] na qual manifesta que transmitiu o Acordo de San José para consulta pelos diferentes poderes do Estado hondurenho.

El País: Notou se algum lado tem fricções internas?
Arias:
Não encontrei fissuras nos delegados dos dois setores, mas afinal a última palavra cabe a Zelaya, de um lado, e Micheletti do outro.

El País: Não percebeu avanços que depois recuaram e paralisam o diálogo?
Arias:
Não. Eu continuo confiando que o Acordo de San José é o melhor caminho para encontrar uma solução para este conflito, por muitas razões, porque contém ideias e sugestões de muitos hondurenhos de ambos os setores e de muitos governos. Também porque é um acordo equilibrado. Concede direitos às duas partes, mas também responsabilidades.

El País: Com o que o senhor viu até agora, quando começou realmente este conflito?
Arias:
Não tenho conhecimento suficiente para determiná-lo, mas, escutando os delegados de Roberto Micheletti, sua principal queixa é que advertiram várias vezes Zelaya de que não deveria realizar a consulta nem abrir a quarta urna porque estaria violando a Constituição.

El País: Na sua opinião, qual é o principal obstáculo para a solução desta crise, além da ocupação da presidência?
Arias:
Nunca tive a menor dúvida. Fui o primeiro a lamentar o golpe de Estado e a exigir o restabelecimento de Zelaya. Qualquer acordo passa por restituir Zelaya como presidente de todos os hondurenhos.

El País: O senhor vê interesses externos em jogo neste conflito?
Arias:
Não, penso que Honduras é uma sociedade muito polarizada. Há muitos que lamentam a decisão de Zelaya de se integrar à Alba [aliança promovida por Hugo Chávez] e a influência que esse grupo tem sobre ele. Esta continua sendo uma preocupação ainda hoje, mas nada justifica o golpe de Estado, que representa um retrocesso nos esforços dos centro-americanos para construir suas instituições depois das guerras dos anos 80.

El País: Há muitos sinais de que este é o novo atrito entre Washington e Caracas...
Arias:
Não, o que eu vejo é que no governo Obama há uma mudança real na política dos EUA para a América Latina. Esta é não permitir novos golpes de Estado, mesmo que possam ter diferenças com as políticas de um determinado governo.

El País: É possível haver maior pressão dos EUA?
Arias:
Talvez, mas a UE também pode. Agora ambos cortaram a cooperação para Honduras, mas isso não basta. Considero que, como já disse Insulza na mesa de negociação neste momento só está o acordo de San José e a alternativa é a aprovação desse acordo ou um maior confronto.

El País: Quanto Washington pesou em sua designação como mediador?
Arias:
Quando me perguntaram, muitos meses atrás, se estava disposto a mediar neste conflito, sempre disse que sim, porque nenhum centro-americano teria recusado estender uma ponte entre as partes em conflito em Honduras, mas sempre disse que as duas partes deveriam aceitá-lo. Zelaya o havia aceitado desde antes da reunião com Hillary Clinton.

El País: Como o senhor recebeu as críticas ao seu papel de mediador e as acusações sobre sua proximidade com os EUA?
Arias:
São pouco originais, porque quando apresentei o plano de paz em 1987 também disseram que era uma proposta para satisfazer o governo de Ronald Reagan. Mas logo a comunidade internacional inteira percebeu que o principal adversário de meu plano de paz foi exatamente Washington.

El País: Essas críticas não afetam o processo de mediação?
Arias:
Não. São dados que não me tocam. Fiz uma proposta equilibrada, moderada, que pode aproximar as partes. Se houver vontade, haverá uma negociação de êxito. De outra forma, é inviável dizer que Zelaya deve voltar de maneira incondicional.

El País: Cada dia que passa parece consolidar Micheletti.
Arias:
Não creio. Além disso, tudo dependerá da pressão da comunidade internacional sobre o governo de fato. Deve ser exercida sobre os civis, mas também sobre os militares, fazendo-os ver que cometeram um erro. A única maneira de retificar é revertendo o golpe de Estado.

El País: O que o senhor pensou ao ver Zelaya nesta sexta-feira pisar a fronteira com Honduras, nas circunstâncias em que o fez?
Arias:
Esse não é o caminho para a reconciliação desse país.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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