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29/07/2009

Patrimônio do casal Kirchner aumenta sete vezes durante seus mandatos presidenciais

El País
Alejandro Rebossio
Em Buenos Aires (Argentina)
O casal presidencial argentino está cada vez mais rico. De maio de 2003 até dezembro de 2008 - período do mandato completo de Néstor Kirchner e primeiro ano de governo de sua mulher e sucessora, Cristina Fernández -, o casal multiplicou quase por sete seu patrimônio, um aumento muito acima da inflação no período, de 58,7%, conforme cálculo do Instituto Nacional de Estatísticas e Censos (Indec). Na última segunda-feira, uma semana depois de se divulgar a declaração patrimonial da presidente, seu chefe de gabinete, Aníbal Fernández, a justificou: "Ninguém que exerça o poder está impedido de ter um patrimônio próprio e que este tenha vida, o que é a essência do capitalismo".

  • AFP
Em maio de 2003 o casal de advogados (ele ex-governador da província de Santa Cruz, no sul do país, e ela então senadora) contava com ativos de 6,8 milhões de pesos (1,2 milhões de euros, segundo a cotação atual), compostos principalmente por depósitos bancários e 23 imóveis, a maioria alugados, em Río Gallegos, capital de Santa Cruz. Em dezembro de 2007, quando Cristina Fernández chegou ao poder, o casal peronista acumulava um patrimônio de 3,2 milhões de euros, 160,1% a mais que no início do governo Kirchner. Esse aumento se explica fundamentalmente pela compra de imóveis, sua reforma, a reavaliação de propriedades antigas e os investimentos financeiros, segundo um relatório da deputada de oposição Patricia Bullrich, do Acordo Cívico e Social (ACYS na sigla em espanhol).

Apenas um ano depois, em dezembro de 2008, o patrimônio dos Kirchner cresceu para 8,5 milhões de euros, o que representa um salto de 158,2% em apenas um ano e de 571% em relação a maio de 2003. Conseguiram isso com a compra e venda de imóveis, o aluguel de novas propriedades mais caras e uma rentabilidade de seus depósitos muito acima da do mercado (12% ao ano em dólares, em vez dos 2,5% em média no sistema bancário argentino). A fortuna atual dos Kirchner é composta principalmente por depósitos (5,9 milhões de euros), quatro empresas (3,3 milhões) e 28 propriedades (2,6 milhões). Além disso, eles acumulam dívidas de 3,5 milhões, quase a metade com o Banco de Santa Cruz, da família Eskenazi, que comprou 15% da YPF da Repsol.

Duas das companhias dos Kirchner são hotéis, uma é uma imobiliária e outra, uma consultoria que fundaram no ano passado com seu filho mais velho, Máximo, para assessoria em "economia, finanças, direito, ciências sociais, educação, administração e outras disciplinas", segundo seu contrato social. A deputada Bullrich pediu ao Departamento Anticorrupção que investigue a suposta incompatibilidade do cargo da presidente Kirchner com a de membro da consultoria.

O enriquecimento dos Kirchner não teria sido possível sem a ajuda de Néstor Méndez, ex-prefeito de El Calafate, a localidade turística de Santa Cruz hoje em moda, que se situa perto da geleira Perito Moreno. Quando era prefeito, Méndez vendeu por baixo preço lotes do município aos Kirchner e a outros funcionários e empresários afins. O casal comprou em 2005 três terrenos de 60 mil m2 ao todo e pagou 0,92 de euro pelo metro quadrado. Em 2006 revendeu um deles a 50 euros o metro para financiar a construção de seu primeiro hotel em El Calafate. Nesse ano, adquiriu outros quatro lotes municipais de 129 mil m2 ao todo e pagou 0,69 euros por metro. Pouco depois vendeu um a 50 euros o metro. Em 2008 se desfez de um segundo lote a 57 euros o metro.

Alguns deputados do ACYS apresentaram na terça-feira um projeto de lei para desapropriar as terras compradas pelos Kirchner da prefeitura de El Calafate. "É um escândalo que um funcionário rife o que lhe deram para administrar", disse Bullrich. O hotel que os Kirchner construíram foi alugado a partir de 2007 por 1,7 milhão de euros anuais. Em 2008 eles venderam a maioria de seus apartamentos de Río Gallegos, que na declaração patrimonial figuravam por um valor muito abaixo do de mercado, e compraram em El Calafate um segundo hotel, que também alugaram.

Assim que se divulgou a última declaração patrimonial de Cristina Fernández, em meados deste mês, deputados do ACYS pediram ao juiz Julián Ercolini que a investigasse dentro da causa aberta por associação ilícita contra Kirchner, funcionários públicos e empresários. Um dos denunciantes, Adrián Pérez, disse: "O aumento patrimonial do casal Kirchner não é compatível com taxas de juros lícitas, mas sim de atividades ilícitas". Um ex-kirchnerista, Sergio Acevedo, hoje próximo do esquerdista Fernando Pino Solanas, opinou que "os lucros" do casal só se conseguem com "atividades ilícitas".

O juiz Rodolfo Canicoba investigou Kirchner até o ano passado por suposto enriquecimento ilícito. O ex-presidente lhe apresentou um documento para responder ao que considerava "calúnias", "suspeitas maliciosas" e "insinuações levianas" e para defender sua "honra manchada". "O aumento das minhas rendas encontra-se plenamente justificado e é correspondido por um investimento anterior", explicou Kirchner. O juiz constatou a "inexistência de delito" e encerrou a causa. Agora, depois da perda de poder dos Kirchner devido à derrota nas legislativas de 28 de maio passado, ninguém espera que a justiça seja tão benevolente com as contas do casal.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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