UOL Notícias Internacional
 

30/07/2009

Pressa com a Islândia mina a credibilidade da UE nos Bálcãs

El País
Ricardo M. de Rituerto
Em Bruxelas (Bélgica)
A meteórica rapidez dos governos da UE para pedir à Comissão Europeia que analise a solicitação da Islândia para ingressar no clube criou a vertigem de temer um erro político e a incômoda sensação de ter ficado em evidência diante dos países balcânicos, frustrados em uma espera de final incerto diante da mesma porta.

"Não se pode ficar mal porque outros países queiram ser membros da UE", lhes disse um ministro. "Aqui sempre se entra pelo seu valor." O quadro não pode ser mais lógico. Os europeus podem estar cansados de ampliação, mas concordam em ver como membros naturais da União Islândia, Noruega e Suíça, ricos, estáveis e confiáveis.

Sobre os Bálcãs, eterna fonte de sangue na Europa, a opinião é muito diferente, agravada pelo nimbo de criminalidade e corrupção que cerca a Bulgária e a Romênia, já sócios. O cientista político Daniel Korski resume o panorama com uma frase: "A Islândia devia estar na UE há tempo; os outros ainda estão buscando sua identidade".

A Islândia apresentou seu pedido na quinta-feira da semana passada e dois dias úteis depois recebeu o apoio político. O contraste com o que aconteceu com alguns países balcânicos não pode ser mais visível. A Macedônia fez o pedido em março de 2004 e teve de esperar até dezembro de 2005 para receber o assentimento. A Albânia levou o seu em abril passado e continua esperando, enquanto os 27 comprovam se as eleições de um mês atrás foram limpas.

A União recebe a Islândia de braços abertos e já houve ministros, como o finlandês Alexander Stubb, que profetizaram a frustração que virá: "Não se pode ficar mal porque outros países queiram ser membros da UE". O chanceler francês, Bernard Kouchner, deu o alarme: "Seria um erro político pôr a Islândia adiante dos Bálcãs".

Agora cabe à Comissão decidir se a Islândia cumpre os critérios para ser candidata: democracia estável, economia de mercado e capacidade para assumir o acervo comunitário. Puro formalismo. A opinião positiva é esperada para dezembro, por mais que o comissário para a Ampliação, Olli Rehn, adiantasse que o escrutínio da Islândia "será rigoroso, objetivo, sem favoritismos e levará todo o tempo que seja necessário". Os governos comunitários deverão depois abrir o processo oficial de negociação, que, dado o envolvimento da Islândia no sistema comunitário, poderia estar concluído em meados de 2011, às custas da esperada dureza na negociação sobre pesca, o símbolo de identidade nacional da Islândia.

O país se somará a outros três já candidatos: Croácia, Turquia e Macedônia, cada qual com sua circunstância diante dos 35 capítulos com que conta o processo de negociação. Os macedônios estão à espera de quando começará sua série, paralisados pela exigência grega de que mude o nome do país. Os croatas confiavam em ter concluído a sua neste mesmo ano, até que se chocaram com o veto da Eslovênia, que pede uma solução para a diferença de delimitação de fronteira.

A Turquia, reconhecida como candidata em 1999, só começou a negociar em 2005. Tem em aberto 11 dos 35 capítulos e bloqueados sem possibilidade de discussão outros oito a pedido de Chipre, represália da ilha à negativa de Ancara a que aterrissem no país ou atraquem em seus portos aviões e navios de bandeira cipriota. A França também se nega a tratar qualquer coisa que suponha que a Turquia será inevitavelmente membro da União.

Diante desses três países, a Islândia começará a negociar com 22 capítulos resolvidos, em virtude de pertencer ao espaço econômico europeu e a Schengen, o tratado que cria uma fronteira exterior comum. Kouchner alertou sobre os perigos de se mudar os critérios: "Já existe uma lista de candidatos e é preciso respeitá-los, e não dar preferência à Islândia porque está em falência".

Carl Bildt, o sueco que ocupa a presidência de turno da UE, afirma que "não há via rápida para a Islândia", simplesmente a consequência de ela pertencer ao mercado único e a Schengen. E para aplacar ânimos se propõe "dar um novo ímpeto ao processo de integração europeia dos Bálcãs no outono". Será crucial para a região e para a UE.

Em Bruxelas se sabe, porque se aplicou o princípio à Sérvia nas eleições de 2008, que entreabrir a porta da UE mina as forças ultranacionalistas balcânicas e vice-versa. Além disso, Bildt considera que "a credibilidade da UE no mundo depende de como resolveremos os problemas em casa".

Dos outros países da região, Sérvia, Montenegro e Bósnia-Herzegovina estão em diferentes estágios em sua relação com a UE. A Sérvia está pendente da entrega de Ratko Mladic ao Tribunal de Haia para iniciar o primeiro processo de aproximação. A Bósnia está internamente fraturada e ainda sob a tutela internacional. Kosovo nem sequer é reconhecido por toda a UE.

Daniel Korski, o cientista político do Conselho Europeu de Relações Exteriores, aponta que "a Islândia pertenceu à Dinamarca até 1944, é membro da Otan, está em todos os clubes... talvez chegue com atraso à UE e isso explica que sua incorporação seja acelerada (...) os islandeses entrarão na UE antes dos croatas".

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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