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04/08/2009

A guerrilha das Farc e sua rede de cumplicidade aumentam a tensão entre Colômbia, Venezuela e Equador

El País
Maite Rico
Em Madri (Espanha)
A descoberta de sofisticados lança-foguetes do exército venezuelano nas mãos das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), os vínculos dessa guerrilha com o Equador e a negociação entre Bogotá e Washington para a utilização de bases colombianas ameaçam provocar na região andina uma crise sem precedentes, em um momento em que a Organização de Estados Americanos (OEA) está sendo questionada como instância mediadora.

Colômbia diz que advertiu Venezuela sobre lança-foguetes nas mãos das Farc

  • O governo da Colômbia afirma que já havia advertido à Venezuela, desde 2 de junho, que as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) possuiam lança-foguetes suecos, adquiridos pelo governo de Caracas

A guerrilha colombiana, cada vez mais debilitada, se transformou paradoxalmente no grande fator de desestabilização regional, por ter montado nos países vizinhos, graças a cumplicidades políticas, suas redes de retaguarda, abastecimento de armas e tráfico de cocaína.

A descoberta em um esconderijo da Frente 43 das Farc de cinco lança-foguetes AT-4, de fabricação sueca, capazes de destruir blindados ou instalações fortificadas, acionou os alarmes na Colômbia. Mensagens eletrônicas dos computadores apreendidos de Raúl Reyes, o número 2 da guerrilha, em janeiro de 2007, davam conta de que os generais venezuelanos Hugo Carvajal, chefe da inteligência militar, e Clíver Alcalá, homens de confiança de Hugo Chávez, tinham feito chegar às Farc "foguetes antitanques de 85 mm". As peças começavam a se encaixar. "Demos aos suecos os números de série", explica uma fonte da Defesa da Colômbia. "Em 20 de junho nos confirmaram que essas armas tinham sido vendidas ao exército venezuelano. É claro que as desviaram."

A Suécia ainda espera as explicações de Chávez. Pelo lado equatoriano, um vídeo do chefe militar das Farc, o "Mono Jojoy", divulgado na semana passada, confirmou a entrega de fundos para a campanha eleitoral do presidente Rafael Correa, que também consta dos computadores de Reyes.

Uma vez mais contra as cordas, Chávez e Correa optaram pela estratégia de se defender com um bom ataque. Os impropérios contra o governo colombiano encontraram sua melhor justificativa na decisão de Bogotá de permitir o uso de bases militares a seu principal aliado, os EUA, para compensar o fechamento da base equatoriana de Manta.

Chávez congelou as relações com Bogotá, e Correa, que havia rompido os laços diplomáticos em 2008, depois do ataque ao acampamento de Reyes no Equador, declarou guerra comercial à Colômbia e impôs tarifas a mais de 1.300 produtos. Ambos iniciaram uma ofensiva nos fóruns latino-americanos para isolar a Colômbia, que definem como "a principal ameaça para a América do Sul".

"Quito e Caracas usam o tema das bases como uma cortina de fumaça", diz o analista colombiano Alfredo Rangel. "O acordo representa dar maiores facilidades de acesso em cinco bases aos americanos, que nem sequer vão aumentar suas forças."

Sob o fogo incessante de vizinhos hostis, o governo da Colômbia, que até agora manteve uma linha de apaziguamento, analisa a possibilidade de processar Chávez e Correa nos tribunais internacionais por seu apoio a uma narcoguerrilha considerada terrorista pela UE e os EUA.

Farc completam 45 anos com deserções e cerco do governo da Colômbia

  • As Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) completaram 45 anos em maio, mergulhadas numa crise sem precedentes e atordoadas pelos golpes recebidos nos últimos 18 meses, decorrentes da ofensiva militar do Governo e da deserção de inúmeros combatentes. Ainda assim, o Governo do presidente Álvaro Uribe não conseguiu aniquilar este grupo guerrilheiro, o mais antigo da América e que tem em seu poder centenas de sequestrados, graças à sua capacidade de adaptação e resistência

Até agora foi o Equador quem apresentou demandas contra a Colômbia, pela fumigação de plantações ilegais na fronteira e pelo bombardeio que acabou com a vida de Raúl Reyes e outras 25 pessoas. Não só isso: a promotoria equatoriana pôs todo o seu empenho em deter, por causa desse ataque, Juan Manuel Santos, ex-ministro da Defesa da Colômbia e potencial candidato à presidência. A Interpol já rejeitou a ordem de captura emitida pelo juiz Daniel Méndez, que se destacou por libertar conhecidos membros das Farc detidos no Equador.

A ofensiva contra Santos saturou a paciência da Colômbia. A oposição fechou fileiras em torno do governo e do ex-ministro, e cada vez mais vozes reclamam uma atuação contundente do Executivo de Álvaro Uribe, que passaria por acusar formalmente Caracas e Quito de violar as resoluções da ONU.

A UE deu seu apoio a Uribe, mas pouco pode fazer na crise. A oferta de mediação de José Miguel Insulza, secretário-geral da OEA, é vista com receio. O organismo americano tem em seu poder todo o material confiscado das Farc, e em âmbitos oficiais colombianos se sente falta de "uma atuação mais clara". Um recente editorial da influente revista "Semana" fustigou Insulza por seu papel na crise de Honduras e o acusou de ser um "péssimo negociador" e de estar mais preocupado com manter o apoio de Chávez e do eixo bolivariano para garantir sua reeleição à frente da OEA.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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