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04/08/2009

Ahmadinejad é confirmado na presidência, mas vozes dissidentes não se calam

El País
Ángeles Espinosa
Em Teerã (Irã)
O julgamento contra cerca de cem reformistas com o qual as autoridades iranianas querem calar a contestação pós-eleitoral está agravando a fratura do sistema islâmico. "Esse tipo de encenação é antes de tudo contrário aos interesses do regime e atenta contra a confiança da opinião pública", advertiu ontem o ex-presidente Mohamed Khatami.

Líder supremo do Irã confirma reeleição de Ahmadinejad na presidência do país

  • O supremo líder do Irã, aiatolá Ali Khamenei, endossou formalmente Mahmoud Ahmadinejad como vencedor da eleição presidencial realizada no último dia 12 de junho. O apoio formal do aiatolá ocorre dois dias antes da posse de Ahmadinejad para seu segundo mandato. A formalização ocorre ainda em meio a acusações de que oposicionistas que protestaram contra o resultado das eleições, em junho, teriam sido torturados na prisão

Mas as críticas não se limitam ao campo reformista. Há cada vez mais vozes conservadoras que se distanciam. Essa atitude faz prever importantes dificuldades para o segundo mandato de Mahmud Ahmadinejad, que hoje receberá a nomeação oficial das mãos do líder supremo e na quarta-feira vai jurar seu cargo diante do Parlamento.

"O julgamento é contrário à Constituição, à lei e aos direitos dos cidadãos", declarou Khatami, que tem vários de seus colaboradores no banco dos réus. Em um comunicado publicado em sua página na Internet, o ex-presidente denunciou "a ausência de condições para um verdadeiro processo público". Segundo ele, "os advogados e as pessoas julgadas não foram informados da data do processo nem das acusações". Saleh Nikbakht, representante de vários réus, disse que soube do julgamento duas horas depois de seu término.

"As confissões obtidas nessas condições não têm credibilidade", salienta Khatami. Mir Hosein Mousavi, o candidato que se considera ganhador das eleições presidenciais de 12 de junho, foi além ao dar a entender em sua página na web que foram obtidas sob tortura. Na opinião dele, "tudo no processo está trucado".

O tribunal revolucionário de Teerã começou a julgar no sábado cerca de cem acusados de participar do movimento que questiona a vitória de Ahmadinejad na eleição. Os iranianos viram estupefatos no telejornal noturno a confissão do que foi vice-presidente no governo de Khatami, Mohammad Ali Abtahi. Visivelmente abatido (segundo seus amigos, perdeu 15 quilos), o popular religioso negou que tivesse havido fraude eleitoral e pediu perdão por seus "erros". Também disse que Khatami, Mousavi e o ex-presidente Ali Akbar Hashemi Rafsanjani haviam conspirado antes das eleições.

Outro depoimento mostrado pela televisão estatal foi o de Mohammad Atrianfar, colaborador próximo de Rafsanjani. Como Abtahi, negou que os resultados das eleições tenham sido falsificados. Sua retratação representa um golpe para os opositores, que continuam insistindo na ilegitimidade do novo mandato de Ahmadinejad.

"As confissões não têm nenhum valor", intitulou ontem o jornal "Etemad Melli", de Mehdi Karrubi, outro candidato reformista derrotado. Na edição digital desse jornal, a mulher de Abtahi, Fahimeh Musavinejad, declara que seu marido "não estava normal" durante o processo.

Líder da oposição reformista iraniana diz que Ahmadinejad não terá eua colaboração

Continuaremos protestando. De maneira alguma vamos colaborar com esse governo. Não queremos lhe causar dano, mas criticaremos seus atos e seu desempenho. De nenhuma forma vamos ajudá-lo

Mehdi Karrubi
As críticas não procedem só do lado reformista. O importante parlamentar conservador Ali Motahari criticou o presidente pelo tratamento aos detidos. Em entrevista à agência semioficial Mehr, Motahari se pergunta por que esperou até que o líder supremo interviesse para fechar a prisão de Kahrizak. "Poderia ter atuado antes e tratado melhor os detidos", afirma o deputado. "Infelizmente, isso não ocorreu e alguns detidos, incluindo Mohsen Ruholamini, foram tratados com violência", conclui.

O caso de Ruholamini comoveu os conservadores. O jovem de 24 anos que morreu enquanto estava detido era filho de um dos colaboradores do candidato conservador Mohsen Rezai. Depois desse incidente, o ex-chefe dos Guardiões da Revolução pediu que também sejam julgados os membros dos serviços de segurança responsáveis pela repressão.

As autoridades reconheceram a morte de 30 pessoas e afirmam que só ficam 250 detidos, dos quais prometeram liberar 150 esta semana. No entanto, Ali Reza Beheshti, aliado de Mousavi e filho de um dos principais líderes da revolução islâmica de 1979, conseguiu documentar 1.700 detidos ("apesar de que muitos parentes não recorrem a nós porque temem que dificulte seu processo") e teme que os mortos sejam em maior número.

Depois de sua investidura, Ahmadinejad tem duas semanas para submeter um gabinete à aprovação do Parlamento. Embora a maioria dos deputados seja conservadora, os analistas estimam que ele poderá encontrar dificuldades se todos os ministros que propuser pertencerem a seu círculo.

O grande julgamento, que não tem precedentes nos 30 anos da história da República Islâmica, prosseguiu ontem com o depoimento de outros dez acusados, segundo informou a agência de notícias Isna.

Os processados são acusados de provocar distúrbios, atacar edifícios militares e do governo, ter ligações com grupos armados de oposição e conspirar contra o sistema, segundo informou a agência oficial Irna. Em consequência, enfrentam de cinco anos de prisão por desordem pública à pena de morte caso sejam declarados "mohareb", inimigos de Deus.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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