UOL Notícias Internacional
 

05/08/2009

Uribe e Chávez ocupam os extremos mais distantes de uma disputa pela América Latina

El País
Miguel Ángel Bastenier
Na terceira talvez se decida. A última refrega entre Colômbia e Venezuela deveria servir pelo menos para que nunca se voltasse a sustentar a singular teoria de que Álvaro Uribe e Hugo Chávez têm muitos pontos em comum e, portanto, são capazes de se entender além de suas profundas diferenças políticas. Os dois têm um viés autoritário e gostam de dar a opinião por cima das cabeças de colaboradores e partidos, mas aí acabam as proximidades.
  • Juan Barreto/AFP


O colombiano é um membro do "crioulato", fazendeiro, educado como corresponde a sua classe, o que garante ter uma ideia da Europa e, em particular, da Espanha. O venezuelano é de outra extração social; recebeu a educação que corresponde a um militar venezuelano de quando havia petróleo, embora pretenda supri-la lendo com voracidade; mas seu conhecimento do mundo hoje é bafejado por ventos do quadrante norte, e da Espanha o que acredita saber é que infligiu o genocídio ao indígena. Ambos encarnam um certo pragmatismo patriótico e por isso sabem encenar dramáticas reconciliações quando convém, sobretudo porque Colômbia e Venezuela, sim, realmente precisam uma da outra. Mas agora o que querem é lutar, e vão fazê-lo muito bem porque não querem nada.

Os dois ocupam os extremos mais distantes de uma disputa pela América Latina, da qual o princípio de ruptura entre Bogotá e Caracas é, apesar do estrondo, só anedota e a briga pela presidência de Honduras, a briga entre chavismo e antichavismo, categoria.

A rivalidade entre o presidente legítimo, Manuel Zelaya, e o usurpador, Roberto Micheletti, se baseia em um profundo equívoco. O chavismo homologado da Venezuela, Bolívia, Equador, Nicarágua, Paraguai e, lá longe, a faminta e soberba Cuba, toma partido sem fissuras pelo líder deposto; os Estados de afetos intermediários, como Brasil, Argentina e Chile, desejam, de todo modo, a reposição do derrubado, mas com recato; e, finalmente, outro pacote de potências, entre as quais se encontram os EUA, gostariam que Zelaya voltasse, mas sem que isso beneficiasse o mínimo a Chávez; que retornasse aceitando que Honduras abandone as fileiras chavistas. E Uribe, que tem assuntos mais urgentes de que cuidar, no entanto, entrou de mal jeito no jogo, convidando os americanos a se instalar em várias bases militares da Colômbia.

É indiscutível o direito soberano de Bogotá de chamar quem quiser para que acampe em seu solo, mas não menos que se trata de uma provocação a Caracas, embora não uma ameaça militar. O que Uribe pretende é ganhar pontos em Washington. Barack Obama é muito mais esquivo que George Bush, e Bogotá acredita que é preciso fazer quase qualquer coisa para manter o íntimo da aliança, abandonando qualquer pretensão de neutralidade no confronto pela hegemonia latino-americana.

O próprio presidente brasileiro, Lula, pode ser perfeitamente sincero em sua exigência de que se restaure a legalidade em Honduras, e desejar tanto quanto Chávez que os EUA não se interessem demais pela Ibero-América, mas sua posição tem de ser muito parecida com a de Washington: que haja acordo, mas que o chavismo não ganhe um peão.

O que o presidente colombiano obterá com tudo isso? Se os verdadeiros problemas exteriores de Washington - Irã, Afeganistão-Paquistão, Palestina - permitirem que Obama volte o olhar para a América Latina, certamente pouco; e se não, menos ainda. Valeria a pena suportar a justificada cólera de Caracas e o prudente desgosto de Brasília? Para Chávez cai estupendamente a instalação das bases, sobretudo para ter algo de que falar enquanto revoga emissoras e cria o delito midiático, cujos limites serão interpretados ao gosto do poder.

A América Latina se encontra em um momento histórico no qual prevalece um sentimento favorável à emancipação da poderosa sombra norte-americana. E essa emancipação deve ser conduzida pela via gradualista, meio sigilosa, do Brasil, ou pela radical da Venezuela. Mas em todo caso é difícil entender o que a Colômbia perdeu nesse "imbroglio". Se Zelaya voltar, ótimo, por que se terá respeitado uma legalidade da qual Uribe também participa; se voltar com o rabo entre as pernas, muitos que agora meio o aplaudem ficarão mais contentes ainda; se se impuser a linha-dura Micheletti, todos os governos democráticos latino-americanos sairão perdendo, mas a guerra colombiana é outra. Chávez e Uribe, a dupla estranha, são dois governantes condenados a não se entender.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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