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09/08/2009

Lembra-se da Ossétia?

El País
Pilar Bonet
A Ossétia do Sul está longe de ser o Estado independente que Moscou reconheceu depois de defendê-lo da "reconquista" empreendida pela Geórgia no início de agosto de 2008. Ao completar um ano daquela batalha, a região separatista na vertente meridional do Grande Cáucaso está mais isolada do que antes da contenda. De rota de passagem e convivência entre diversas culturas, a Ossétia do Sul está se transformando num beco sem saída, dependente de seus vizinhos do norte para subsistir.

  • Sergey Ponomarev/AP

    Crianças brincam próximo de prédios destruídos nos conflitos de agosto de 2008

Os problemas acumulados são muitos: a infraestrutura obsoleta ou inexistente foi castigada em 2008 e, antes disso, pela guerra de 1989-1992, o terremoto de 1991 e os enfrentamentos esporádicos que se agravaram com a chegada de Mikhail Saakashvili ao poder na Geórgia em 2004. Levantar a Ossétia do Sul é uma questão de orgulho para Moscou, mas até agora a reconstrução civil foi marginal. A organização de trabalho é desastrosa e falta a capacidade para coordená-la de forma eficaz numa tarefa comum.

Os militares russos, por sua vez, atuam de forma mais decidida: o Exército se afirmou no flanco sul do Cáucaso e também na costa do mar Negro, em Abjazia, o outro território separatista reconhecido como Estado por Moscou. Desde Leningor (Aljagur em georgiano), no sudeste da Ossétia, até Kvaisá, no oeste, os guardas de fronteira que chegaram da Rússia montam acampamentos, cavam trincheiras, estendem alambrados e preparam quarteis permanentes em volta do perímetro do território separatista.

Em Tsjinvali, David Sanakoiev, defensor do povo da Ossétia do Sul, interrompe seu descanso de fim de semana para ajudar a gerenciar a transferência de um doente cardíaco para Tbilisi, capital da Geórgia, a 120 quilômetros ao sul. O doente precisa de serviços que não existem em Tsjinvali e seu coração resistiria mal à altura das montanhas que o separam de Vladikavkaz, no território russo, a 180 quilômetros ao norte. As transferências médicas para Tbilisi, algo comum antes da guerra de agosto, são hoje um assunto de Estado complicado que exige permissão das autoridades máximas e a colaboração da Cruz Vermelha, a única ONG internacional que não abandonou a Ossétia do Sul. Um acordo com Moscou permite atender aos pacientes ossetianos nas melhores clínicas da Rússia.

Sanakóiev já está há horas negociando a transferência quando os médicos decidem que o doente não resistiria à viagem e deve ficar no país. Ainda que seja a mais importante da Ossétia do Sul, a clínica de Tsjinvali não tem água corrente, seu pessoal utiliza garrafas de plástico para lavar as mãos, o encanamento está avariado, as vasos sanitários entopem e não há luz nos corredores.

"As condições antes da guerra eram melhores que agora", assegura o médico-chefe, Nodar Kokoiev. Os construtores de São Petesburgo responsáveis pela reparação, levantaram uma reluzente fachada decorativa e logo ficaram sem dinheiro e pararam as obras. Por fora, a clínica parece um balneário suíço, mas por dentro é uma ruína anti-higiênica.

Em sua viagem à Ossétia do Sul em julho, o presidente da Rússia, Dmitri Medvedev, reiterou que continuará ajudando os "pobres" ossetianos. Até agora, a ajuda foi lenta e caótica. Zurab Kabésov, chefe da Comissão Estatal de Reconstrução da República, assegura que a reconstrução se acelerará nos próximos meses e atribui as demoras a demissões à frente do Ministério do Desenvolvimento Regional em Moscou e a problemas burocráticos. Ao todo, afirma, o governo federal russo entregou 1,5 bilhão (R$ 87 milhões) de rublos de adianto em 2008, aos que foram acrescentados outros 8,5 bilhões (R$ 494 milhões) este ano.
Para 2010 e 1011 estão previstas quantidades similares. O controle de gastos é dobrado, por parte de Moscou e por parte da Ossétia do Sul.

E a crise? "O que são 30 bilhões de rublos (R$ 1,7 bi) para a Rússia? Uma miséria". E além disso, a "Ossétia do Sul é um sócio estratégico muito importante", disse Kabésov. O funcionário aborda o futuro com otimismo. Às custas do financiamento russo se construirão centenas de casas, incluindo 120 no antigo bairro judeu de Tsjinvali. Também planeja-se um campo de aviação, uma conexão ferroviária com a Rússia e uma estrada a Leningor, distrito sob controle georgiano até a guerra de agosto. A prioridade é ficar independente da Geórgia no abastecimento de gás e eletricidade e nas comunicações; concretamente, terminar o gasoduto para levar o gás diretamente da Rússia para Tsjinvali e, também, concluir um novo cabeamento elétrico até Leningor.

As pegadas da guerra são visíveis por toda a capital da Ossétia do Sul. A sede do governo, sem teto, é o magnífico cenário dramático onde atuou o ossetiano Valeri Guérguiev, diretor do teatro Marinski de São Petesburgo. Há casas particulares com grandes buracos nos telhados e nas paredes, como a de Venera, cuja família de cinco pessoas - avó, dois adultos e dois adolescentes - passou o inverno refugiada no único cômodo habitável. Venera, que recebe 2 mil rublos (R$ 116) numa creche, e seu marido, desempregado, já gastaram a indenização de 50 mil rublos (R$ 2.900) que receberam. No pátio de Ilma Gasieva, do outro lado da rua Outubro, ainda existe um fragmento de tanque georgiano com seis toneladas, um resto dos combates do 8 de agosto que nenhuma das instituições encarregadas de retirar os escombros quis levar.

A fronteira com a Rússia, que Moscou declarou internacional em maio, é o cordão umbilical da Ossétia do Sul com o mundo. Por aqui entra a ajuda humanitária, os especialistas, os soldados e os víveres que antes chegavam do sul a preços mais acessíveis. Com algumas exceções, as rotas que levam à Geórgia estão hoje fechadas e isso faz sofrer quem tem parentes naquele país, entre eles Bella, uma respeitada georgiana residente em Tsjivali, que não pode visitar sua tia em Tbilisi.

Em agosto, Lira Tsjovrebova, a diretora da Associação de Mulheres da Ossétia do Sul, viu afundar seu trabalho de vinte anos. "Antes de Saakashvili chegar ao poder, havíamos nos esquecido do conflito e até mesmo reunimos os veteranos de guerra ossetianos e georgianos", disse esta mulher, que continua mantendo contatos com uma ONG de Tbilisi no Azerbaijão e na Turquia. Por continuar trabalhando na Ossétia do Sul, as ONGs internacionais poderiam se ver prejudicadas na Geórgia, que promulgou leis sobre os "territórios ocupados". Lira, que é meio georgiana e meio ossetiana, não se preocupa nem com "a integridade territorial da Geórgia" nem com a "independência da Ossétia do Sul", mas sim com o "destino dos dois povos que se odeiam desde agosto e com os anos que levarão para se reconciliar".

Os georgianos integrados até agora na Ossétia do Sul vão deixando o território. Eles não são expulsos, mas vão embora por falta de perspectivas, pelo isolamento progressivo em que vivem e também por medo. A separação étnica que está acontecendo é uma tragédia para pessoas como Tsjovrebova. Sua neta adolescente, diz ela, "quer eliminar tudo o que há de georgiano em sua pessoa, fala em língua ossetiana melhor do que ninguém na família e nenhuma palavra de georgiano".

Depois da guerra, a Ossétia do Sul recuperou o território de Leningor, onde existia antes um governo georgiano. As autoridades ossetianas permitem à população local, majoritariamente georgiana, viajar livremente à Geórgia, onde muitos trabalham ou estudam. Do outro lado da fronteira, a administração de Saakashvili levantou bairros pré-fabricados que levam os nomes dos vilarejos georgianos incendiados e destruídos na Ossétia do Sul. Em Leningor, circula a moeda georgiana, o lari, e são vendidos frutas e água mineral da Geórgia.

Os georgianos que continuam vivendo no território separatista "podem escolher entre adotar a nacionalidade ossetiana ou continuar sendo georgianos residentes na Ossétia do Sul", disse o ministro de Exterior Murat Dzhioiev. O ministro calcula que na Ossétia do Sul vivam atualmente cerca de 80 mil pessoas, entre elas, a maioria com passaporte russo. Dzhioiev salienta que o problema dos refugiados não deve se limitar aos georgianos que fugiram da Ossétia do Sul em 2008, mas também deve incluir os ossetianos obrigados a abandonar as diferentes regiões da Geórgia durante a primeira guerra.

Ossetianos que estão há muitos anos instalados em território russo foram ajudar seus compatriotas. Entre eles está Vladimir Gavaraiev, vice-chefe da administração de Leningor, que veio da Ossétia do Norte aceitando trabalhar por quatro vezes menos do que ganhava em Vladikavkaz. Sua família está dividida sobre se ele deveria ter aceito o cargo ou não. A filha, que mora em Moscou, o apoia; a que vive em Tbilisi, não. De Vladikavkaz também chegou Inal Ostaiev, um ex-aviador que em fevereiro foi nomeado chefe do governo de Kvaisa, um atingo centro minerador e terra natal de Albert Dzhussoiev, um ossetiano que fez carreira em Moscou e que desponta como um futuro rival do presidente Eduard Kokoiti. Dzhussoiev é o encarregado de construir o gasoduto da Rússia à Ossétia do Sul, uma obra sem precedentes por causa da altura e da dificuldade do relevo, que será finalizada neste mês de agosto. O empresário aspira reativar as minas de Kvaisa, que produziam zinco e chumbo e foram a base da economia local até o terremoto de 1991. Kokoiti colocou as minas sob o controle do governo. Uns e outros contam que foram encontrados traços de urânio e acreditam que uma exploração detalhada confirme a existência desse mineral. Por enquanto, Kvaisa é um lugar desolado, com muitos desempregados que trabalham temporariamente na construção do gasoduto e esperam poder participar das obras da nova guarnição militar russa.

Os sul-ossetianos têm uma forte afinidade pró-russa, à diferença dos habitantes de Abjazia, onde a gratidão a Moscou se combina com uma maior consciência do fator diferencial. Os sul-ossetianos anseiam por se unir à Rússia e a seus irmãos da Ossétia do Norte, que muitas vezes os consideram uma comunidade exótica e primitiva. Um sacerdote ortodoxo russo enviado à Ossétia do Sul ficou perplexo quando os fieis de uma igreja local levaram um cordeiro para se sacrificado no interior do templo. "Um rito do Antigo Testamento", exclama o sacerdote, que convenceu aqueles cristãos a matarem o cordeiro fora do templo e o levassem depois um pedaço assado.

Tradução: Eloise De Vylder

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