UOL Notícias Internacional
 

12/08/2009

EUA se instalam na América Latina com presença política

El País
Miguel Ángel Bastenier
Os EUA terão verdadeiras bases na Colômbia? Ou trata-se só de uma escala entre duas guerras, para um café? Os dois grandes interessados, os presidentes Álvaro Uribe, da Colômbia, e Barack Obama, dos EUA, dizem que de maneira alguma, apesar de o primeiro ter deixado que a ideia do sim inchasse como uma bola na imprensa colombiana e trombeteasse sobre a América Latina, enquanto o segundo se calava, porque tinha assuntos mais urgentes para resolver.

E hoje é tecnicamente impossível responder à pergunta, porque não há informação sobre os termos exatos do acordo entre Washington e Bogotá. Mas a letra do pacto é quase irrelevante, porque seus efeitos têm vida independente das causas que os originaram, e nem sempre a desejada.

Uribe fez uma oferta aos EUA, dessas que não se podem rejeitar. Não por acaso, já perto do fim de seu segundo mandato, quando o tempo começava a apurar, para dizer ao país se ia ou não tentar a reeleição. E tanto é assim que o presidente preferia que os EUA fossem abraçados estreitamente, motivo pelo qual oferecia a Washington sete pontos de apoio em território colombiano, embora só, como afirma, para o combate ao narcotráfico, o que pode ser perfeitamente verdade e ao mesmo tempo dar na mesma, porque esses são exatamente os efeitos que gozam de vida independente.

Mas a maior parte da América Latina não viu com bons olhos a iniciativa: desde Hugo Chávez, na Venezuela, que se preocupa em primeira leitura diante da proximidade das armas americanas, mas também encontra motivos para celebrar a iniciativa porque lhe permite evocar a imagem do imperialismo ianque, enquanto obtém o privilégio de encabeçar pessoalmente a resistência, até o brasileiro Lula, que deve se resignar a ver como a Colômbia se distancia de um futuro bloco de poder latino-americano, que é o projeto educadamente hegemônico do Brasil para o mundo; e é assim porque um país que abrigue bases estrangeiras mal pode se associar a esse plano, além de constituir um péssimo exemplo para todos os demais.

Por isso o líder colombiano acaba de realizar um giro por sete países, entre afetos, desafetos e que-não-compliquem-minha-vida, para explicar que não há tais bases, mas só um reforço menor da presença americana na Colômbia. E fazendo umas contas que, se o Grande Capitão quisesse, Bogotá chegasse à conclusão de que, de sete, cinco aceitavam as bases, ignorando deliberadamente para isso os eufemismos da linguagem diplomática que quando diz que houve "conversas construtivas" quer dizer que o desacordo foi total, e quando acrescenta que foram "francas", que se atiraram os trastes à cabeça.

A realidade é que só o Peru apoiou plenamente a aventura, e que quando Chile, Uruguai e, muito baixinho, o Paraguai disseram que respeitavam a soberania colombiana, o que faziam era aderir ao não-me-complique. Bolívia e Argentina, por sua vez, pronunciaram um sonoro não; e finalmente o Brasil, embora também entoasse a melopeia da soberania, deixava muito claro que isso só valia se não afetasse os demais países da região.

E é evidente que afeta, como prova a cúpula da Unasul de segunda-feira passada em Quito, onde os dois lados eram o chavismo, crítico até o dramatismo, com Venezuela, Bolívia, Equador e Nicarágua; e os contemporizadores, mas não por isso favoráveis à Colômbia, como Brasil e Argentina; e o acalorado debate teve de ser adiado para uma cúpula especial em Buenos Aires.

O essencial, porém, não é nem a ameaça militar, porque os EUA não precisam tomar terras da Colômbia para ameaçar a Venezuela, nem o disco rígido do acordo, porque nos termos "utilização das bases" cabe tudo. O decisivo é o simbólico. Os EUA se instalam na América Latina como não estavam na base equatoriana de Manta - 80 efetivos, na maioria técnicos de comunicações - desmantelada pelo presidente Correa.
Essa presença política, e não militar, é a que pressiona o bloco chavista, e com a qual a Colômbia convoca todos os contrários à visão radical latino-americana de Hugo Chávez e, inevitavelmente, tampouco a do Brasil consegue entusiasmar nem Washington, nem Bogotá. E essa é, dando a volta à conhecida frase de Clausewitz, também outra forma de fazer a guerra.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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