UOL Notícias Internacional
 

18/08/2009

Eleições no Afeganistão em ponto de brasa nos momentos finais

El País
Ramón Lobo
Enviado especial a Cabul (Afeganistão)
  • Emilio Morenatti/AP

    Hamid Karzai, 51, etnicamente Pashtun, tem formação em Ciência Política na Índia. Ele chegou a apoiar o Taleban, mas rompeu com eles a partir dos sinais de que o grupo estava caindo sob a influência de extremistas estrangeiros, como Al Qaeda. Em 2001, foi apontado como presidente interino do Afeganistão, após o ataque liderado pelos EUA, e em seguida ganhou as eleições presidenciais de 2004. Corrupção no governo, desenvolvimento vagaroso e morte de civis em ataques estrangeiros provocaram uma queda em sua popularidade. Karzai diz que negociação de paz com Taleban é prioridade se for reeleito

  • AFP

    Abdullah Abdullah, 48, é médico. Em 1986, se juntou à resistência contra os soviéticos. Foi figura de destaque na Aliança Norte, que ajudou os EUA a derrubar o Taleban. Foi nomeado chanceler no governo interino de Karzai, posto que ocupou até 2006. Seu pai era Pahtun e sua mãe era Tajik, e Abdullah é visto como favorito entre os Tajiks. Com promessas de combater a corrupção, pode obrigar Karzai a disputar um segundo turno

Em um país de atores como o Afeganistão, capazes de interpretar qualquer papel para sobreviver, é impossível aplicar critérios ocidentais para medir a realidade. Mas algo devia preocupar muito o atual presidente, Hamid Karzai, quando tirou da geladeira o último dos senhores da guerra que lhe restava para exibir, talvez o mais brutal de todos: o usbeque Abdul Rachid Dostum, que se encontrava na Turquia em uma espécie de exílio consensual.

Lidar com pesquisas em um país em guerra, com um enorme índice de analfabetismo e no qual a mulher, fora das cidades, mal pode falar sem autorização do marido, é ilusório. Estas não são as primárias nos EUA. Apesar disso, é evidente que o ex-ministro das Relações Exteriores, Abdullah Abdullah, se transformou na estrela ascendente destas eleições, cuja campanha terminou oficialmente na noite de segunda-feira. Milhares de pessoas foram ontem ao seu comício no abarrotado estádio de Cabul. Respirava-se um entusiasmo caótico, que o obrigou a encurtar os discursos. Abdullah repetiu no meio de um mar de bandeiras azuis sua mensagem dos últimos dias: nada está decidido, a vitória é possível e a mudança, necessária.

Apesar de o ministro do Exterior parecer ter conseguido o apoio da maioria dos Tajik, a segunda etnia do país, jamais contará com a dos majoritários pashtun, apesar de seu pai ser dessa etnia e vir do mesmo clã do mulá Omar, o suposto chefe dos taleban. Abdulah é visto como Tajik, como sua mãe. É o preço por ter sido o porta-voz de Ahmed Shah Masud, o "leão do Panshir", na guerra contra a invasão soviética, assassinado pouco antes do 11 de Setembro. Abdulah realizou uma campanha baseada em sua figura e encheu o país de cartazes em que é visto acompanhado de Masud, um guerrilheiro lendário no Afeganistão. E no exterior por seu físico meio Che Guevara, meio Bob Marley.

Karzai se exibiu em Shebaeghan, o lugar natal de Dostum, que lhe garante na teoria milhões de votos usbeques. Estes também haviam deixado muito claro para o atual presidente que só votariam nele se Dostum voltasse ao Afeganistão antes de quinta-feira, o dia das eleições. Ele voltou na tarde de domingo, aplaudido por multidões. "Precisamos estar com Karzai pelo futuro", disse Dostum para uma multidão que o ovacionou. "Não devemos permitir que isto vá para o segundo turno", acrescentou. Algo que acontecerá se nenhum dos candidatos tiver mais de 50% dos votos.

No Afeganistão, a violência coloca o pleito em risco

É o momento decisivo da campanha. Ao reivindicar o atentado do sábado (15) diante da sede da Força Internacional de Assistência à Segurança do Afeganistão (Isaf), no centro de Cabul, que fez 7 mortos e 91 feridos, o Taleban acaba de provar que é capaz de atingir uma das zonas mais protegidas da capital e não somente áreas remotas. Essa ação-surpresa aumenta um pessimismo já pesado sobre a eleição presidencial de 20 de agosto, quando o atual presidente Hamid Karzai tenta se reeleger

Karzai também obteve o apoio dos hazara, mas tem sérios problemas com sua própria etnia: é no território pashtun que ocorrem os principais combates e a presença taleban é mais visível. Um número importante de colégios eleitorais poderá não abrir as portas. Esses votos perdidos são, teoricamente, de Karzai.

O presidente não quer o segundo turno, que poderia ser perigoso. Abdulah está preparado para levar à rua seus seguidores em caso de fraude flagrante. Os pashtun advertem que não aceitarão um presidente que não seja pashtun, e os taleban prometem atentados para dificultar as votações. A situação parece no mínimo complexa. O temor dos atores internacionais envolvidos no resgate do Afeganistão é que a abstenção seja elevada e a credibilidade do resultado, baixa. Algumas fontes diplomáticas preveem uma participação inferior a 60%. Estão inscritos 16,6 milhões de afegãos, 35% deles mulheres.

O presidente afegão disse na segunda-feira que não havia razão legal para impedir o regresso de Dostum. Ele é acusado da chacina de Dasht-i-Leili, em dezembro de 2001, na qual morreram entre 300 e 2 mil prisioneiros taleban. Dostum afirma que o que aconteceu teve o apoio da CIA, o que os EUA negam. As notícias dessa chacina voltaram a surgir há alguns meses, em um momento oportuno para Karzai. Agora que o vento mudou de direção a memória se apaga. Ninguém se surpreende, faz parte do roteiro em um país de atores.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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