UOL Notícias Internacional
 

19/08/2009

Pobreza, corrupção e pólvora dominam cenário no Afeganistão

El País
Ramón Lobo
Omar Said tem uma loja minúscula no Bush Market de Cabul. Vende artigos paramilitares. Binóculos, facas enormes, óculos supostamente antibala, pistolas de sinalização, uniformes de camuflagem e dezenas de lembranças com o logotipo "Enduring Freedom", a operação americana simultânea à da Otan. O mercado onde se situa a loja de Said leva o nome do ex-presidente dos EUA, porque nele "são vendidos autênticos produtos americanos", segundo os moradores de Cabul.

Raio-X do Afeganistão

  • UOL Arte


    Área: 652.230 km² (sem saída para o mar)

    População: 33 milhões

    Urbanização: 24% da população é urbana

    Taxa de fertilidade: 6,5 crianças nascidas por mulher (4º maior do mundo)

    Mortalidade infantil: 151 mortes por 1000 nascimentos (3º maior do mundo)

    Expectativa de vida ao nascer: 44,5 anos

    Grupos étnicos: pashtun (42%), tajik (27%), hazara (9%), usbeque (9%) e outros

    Religião: sunitas (80%), xiitas (19%), outros

    Alfabetização: homens, 43%; mulheres, 12%

    Taxa de desemprego: 40%

    Fonte: CIA World Factbook 2009


Apesar de não ter havido qualquer iniciativa entusiástica, a maioria dos lojistas rejeitou rebatizá-lo como Obama Market. Dizem que o nome está posto e não se pode ficar mudando. Do teto do cubículo de Omar Said estão penduradas camisetas cinza com a palavra "Army" [Exército] estampada no peito. São uma imitação rústica, como quase tudo no Bush Market. Perguntado se não teme perder seu negócio se a guerra acabar de repente, responde: "Não, sempre haverá gente que precisa de uma mira telescópica para sua Kalashnikov".

Três décadas depois da invasão soviética e de guerra permanente, existe uma perda coletiva do sentido de honestidade. Cada afegão se transformou em um ator que tenta sobreviver em um cenário cuja decoração quase não mudou: pobreza, corrupção e pólvora. "Não sou otimista, mas nasci afegão e tenho de ficar; é meu destino", afirma Zatu, que parece pensar em cada palavra que pronuncia em inglês. Com paciência e alguns chás - que deve ferver com a xícara e a colher -, Zatu adquire confiança, perde sua pátina patriótica e narra sua fuga em 1997 para o Irã e a Turquia em direção à Inglaterra. "Atravessei dez fronteiras e vivi quatro anos em Londres. Quando os taleban foram expulsos de Cabul, o governo inglês me enviou uma carta dizendo que podia voltar porque havia liberdade e os soldados britânicos se encarregavam de protegê-la. Se nada mudar, voltarei a escapar; desta vez para o Canadá."

A nova estratégia anunciada pelo presidente Barack Obama em março se baseia em três pilares: pressão militar sobre os taleban e seus aliados, desenvolvimento econômico e reconstrução. Em um país no qual 42% da população vivem na pobreza absoluta e que a ONG Transparência Internacional considera extremamente corrupto - classifica-o em 176º lugar entre 180 -, a proposta ambiciosa de Obama corre o risco de descarrilar, como aconteceu antes com britânicos, russos e soviéticos. O problema essencial do Afeganistão é de mentalidade. Levará gerações para modificá-la. A burqa seria a metáfora exata: hoje o Ocidente exige sua supressão e esquece as causas culturais e tradicionais que a tornam possível. "Foram perdidos oito anos", diz uma fonte que exige anonimato. "Agora os afegãos têm menos ilusão... e os estrangeiros, menos credibilidade. É uma situação que não pode ser modificada; o primeiro impulso se perdeu."

A comunidade internacional afirma que as eleições presidenciais e regionais que se realizarão na próxima quinta-feira são essenciais dentro da nova estratégia dos EUA. Apesar de que convocar eleições em plena guerra pode ser uma ficção democrática, outros falam de "eleições simbólicas" ou mesmo "pedagógicas".

Cerca de 45% dos distritos eleitorais estão ameaçados pelas armas. Dez dos 364 em que se divide eleitoralmente o Estado encontram-se sob controle taleban, e neles as urnas não serão abertas. A ONU calcula que afetará 600 colégios eleitorais. O governo de Hamid Karzai admite que outros 156 distritos estão em risco. Mas o objetivo é realizá-las a qualquer preço. Um atraso ou um cancelamento teriam sido uma catástrofe e uma vitória para os taleban. Ninguém acredita em um segundo turno. É caro (organizá-las custou US$ 223 milhões) e perigoso.

Eleições que se realizam nessas condições de insegurança deveriam pelo menos ter credibilidade para que seus resultados sejam aceitos. Há cinco anos aconteceu algo semelhante no Iraque. O colombiano Carlos Valenzuela, especialista da ONU na organização de eleições em lugares complicados (vinha do Camboja e do Timor Leste e depois viajou para Serra Leoa), explicou então a "El País" que para que tenham credibilidade devem contar com algum tipo de registro oficial (no Iraque foram utilizadas as listas de distribuição de alimentos elaboradas pelo regime de Saddam Hussein) e que se estabeleça uma autoridade de controle independente. "As eleições não são uma garantia para a pacificação, mas a experiência indica que podem ajudar a dinamizar o processo político."

No Afeganistão não há censo. Nunca houve. Só existe um inacabado, da época soviética. A guerra constante e alguns costumes locais tornavam pouco recomendável o trabalho de pesquisador. Nenhum pashtun, a etnia majoritária, aceitaria declarar o número de mulheres sob seu cuidado. Antes expulsaria a tiros o invasor de sua intimidade. O registro eleitoral foi realizado através da inscrição voluntária das pessoas que podem e desejam voltar. Os homens apresentam suas identidades. As mulheres nem sempre podem, porque longe de Cabul e Mazar-i-Sharif não é bem visto que saiam sozinhas de casa. É o marido ou um parente quem declara o número de mulheres maiores de idade sob seu encargo. Ninguém o discute nem comprova.

Nas eleições de 2004 inscreveram-se 10 milhões de pessoas; hoje, apesar da decepção reinante, o número de registrados alcançou 16,6 milhões (35% são mulheres). Isto despertou suspeitas do ex-ministro das Finanças e candidato presidencial Ashraf Ghani, que afirma que existem entre 600 mil e 800 mil votos preparados para Karzai. Ele também está pronto para denunciar a fraude.

"A única coisa que Karzai e seus ministros fizeram estes anos foi meter o dinheiro no bolso", diz Mohamed Abbas, que vende produtos de limpeza no Bush Market. "Com os taleban tínhamos segurança. Não havia roubos. Podia-se viajar até o Paquistão sem medo dos ladrões. Mas ninguém quer que os taleban voltem a Cabul. Proibiram tudo. Não havia cinema nem música nem televisão. Só se podia ir à mesquita, rezar e voltar para casa."

Os números lhe dão razão. A chamada comunidade internacional investiu US$ 63 bilhões no Afeganistão, dos quais se calcula que 12% foram aplicados na melhora de vida dos afegãos. Muito desse dinheiro não desapareceu só nas mãos locais; também serviu para pagar os 43 mil membros da segurança privada conhecidos como "quarto exército", e fazer negócios escusos às custas do contribuinte. Como no Iraque. Como a Halliburton.

  • Emilio Morenatti/AP

    Hamid Karzai, 51, etnicamente Pashtun, tem formação em Ciência Política na Índia. Ele chegou a apoiar o Taleban, mas rompeu com eles a partir dos sinais de que o grupo estava caindo sob a influência de extremistas estrangeiros, como Al Qaeda. Em 2001, foi apontado como presidente interino do Afeganistão, após o ataque liderado pelos EUA, e em seguida ganhou as eleições presidenciais de 2004. Corrupção no governo, desenvolvimento vagaroso e morte de civis em ataques estrangeiros provocaram uma queda em sua popularidade. Karzai diz que negociação de paz com Taleban é prioridade se for reeleito

  • AFP

    Abdullah Abdullah, 48, é médico. Em 1986, se juntou à resistência contra os soviéticos. Foi figura de destaque na Aliança Norte, que ajudou os EUA a derrubar o Taleban. Foi nomeado chanceler no governo interino de Karzai, posto que ocupou até 2006. Seu pai era Pahtun e sua mãe era Tajik, e Abdullah é visto como favorito entre os Tajiks. Com promessas de combater a corrupção, pode obrigar Karzai a disputar um segundo turno

São 41 candidatos presidenciais, mas só dois têm possibilidades de obter um número relevante de votos: o presidente Hamid Karzai, que é pashtun, e seu ex-ministro das Relações Exteriores Abdulah Abdulah (metade tayiko, metade pashtun; seu pai é da mesma tribo que o mulá Omar). Não há pesquisas, mas um banco de cérebros americano - o Instituto Republicano Internacional - manipula uma pesquisa sem explicar como se fazem pesquisas em um lugar como o Afeganistão. Atribui 45% a Karzai e 26% a Abdulah.

Ninguém duvida da vitória do atual presidente. É a imagem do poder, algo que em sociedades desestruturadas atrai votos. Além disso, aqui as decisões não são individuais, mas coletivas: a comunidade decide o voto de todos. É pashtun, e os pashtun não apoiarão ninguém que não o seja, e depois porque teceu alianças com as principais etnias (tayiko, usbeque, hazara e turcomena) e islamizou a legislação para atrair os conservadores, como a lei sobre as mulheres xiitas, às quais se pretendia impedir a saída de casa sem autorização do marido e obrigar a satisfazê-lo sexualmente quando ele exigisse. Karzai é um grande tático e um mal estrategista, como os americanos no Iraque e no Afeganistão.

"Tudo está acertado. Os estrangeiros já decidiram quem vai ganhar, mas ainda não nos disseram", afirma Ahmed, que nasceu em um país em guerra e continua em um em guerra 30 anos depois. "Creio que querem que Karzai ganhe. Ganhará com mais de 50% dos votos para evitar o segundo turno", acrescenta. Este seria realizado caso nenhum candidato supere 50% dos votos. Segundo a Comissão Eleitoral Independente do Afeganistão, encarregada do processo, esse hipotético segundo turno ocorreria um mês depois, mas admite que poderia ser em outubro ou mais tarde caso os resultados oficiais atrasem demais após a análise das impugnações.

Nestas eleições, além do fator da guerra e de que os taleban anunciaram seu boicote e chamaram seus milicianos para impedir sua realização, acrescenta-se outro cenário que preocupa o Ocidente: a chamada variante iraniana. O médico Abdulah Abdulah está convencido de sua vitória e afirma que só uma fraude maciça poderá privá-lo dela. O que preocupa é que um ou dois dias depois das eleições Abdulah aproveite a falta de dados oficiais para se proclamar vencedor e leve seu pessoal para as ruas.

As eleições serão pouco verossímeis, simbólicas ou pedagógicas, mas a verdadeira ficção está na guerra. O exército afegão deveria ser formado por 76 mil soldados, segundo o que foi decidido em 2004 na conferência de doadores de Berlim, que aprovou o orçamento para seu financiamento. Passaram cinco anos e ainda não se alcançou esse número, nem a preparação exigida. Os americanos consideram que só uma parte mínima está qualificada para lutar. O general americano Stanley McChrystal - o homem que acabou com Abu Musab al Zarqawi no Iraque - estima que para mudar o curso da guerra são necessários 340 mil soldados afegãos. Não há dinheiro para comprar armas para eles nem para pagar seus salários (entre US$ 100 e US$ 200, conforme a patente). Eles deveriam ser os olhos das tropas estrangeiras em campo, pois são capazes de distinguir quem é taleban e quem é civil.

Pela segunda vez depois dos atentados de 11 de Setembro, o exército mais poderoso do mundo, criado para vencer em qualquer guerra convencional ou com armas de destruição em massa, enfrenta um inimigo invisível que carece de bandeira e uniforme e que não se comporta como deveria fazer um exército rival. No Iraque, o general David Petraeus inventou os Filhos do Iraque, transformando os antigos rebeldes sunitas que atentavam contra suas tropas em aliados contra a Al Qaeda. Foi uma questão de dinheiro, de subornar vontades e reorientar objetivos. Apesar de ter enfraquecido a Al Qaeda no Oriente Médio, parece que não funcionou totalmente. Os últimos atentados indicam isso.

No Afeganistão a situação tribal é mais complexa. Não há um confronto religioso e sectário entre sunitas e xiitas que possa ser manipulado como no Iraque. Aqui não há fratura entre os rebeldes, que são 100% pashtun e atuam unidos. A diferença entre os taleban de oito anos atrás, empenhados em proibir tudo, e os de agora não convida ao otimismo. Fontes militares americanas estimam que o tipo de estratégia que os taleban seguem hoje e a sofisticação de seus ataques não podem ser produzidos pela direção do mulá Omar, mas que há alguém que puxa os cordões por trás.

O problema, insistem as fontes, é que quem move os cordões é o mesmo que os movia no período soviético e que hoje é amigo e aliado dos EUA. Os ataques com aviões não-tripulados (drones) nas áreas tribais dentro do Paquistão conseguiram golpear a retaguarda dos taleban, mas não destruí-los. "Precisariam de um milhão de drones", afirma uma fonte anônima. Outros indicam que a guerra no Afeganistão é dirigida de três pontos: a Sura de Quetta, onde estão os chefes afegãos, e vários edifícios entre Islamabad e Rawalpindi.

Embora ninguém queira comparar a guerra do Iraque com a do Afeganistão, o general Petraeus, chefe militar dos dois conflitos, começou a organizar milícias locais na província de Helmand, ao sul, e na porosa fronteira com o Paquistão, para que o ajudem a combater os taleban sem recorrer a bombardeios aéreos que causam vítimas civis.

"A população afegã não distingue entre americanos, franceses e espanhóis", diz uma fonte de uma ONG. "Para ele somos a mesma coisa que os soviéticos e antes os britânicos. Viemos para aproveitar." Outros diferem dessa leitura: "Os russos cometeram graves erros em uma sociedade tão tradicional quanto a afegã. Os americanos não entendem nada, mas aqui são vistos como uma vaca que se pode ordenhar, apesar de às vezes ficar violenta e dar coices".


Também há uma ficção na mobilização estrangeira. Existem duas missões, além da secreta da CIA e do chamado quarto exército: a americana, que depende do comando central (Petraeus), chamada Liberdade Duradoura e que conta com cerca de 26 mil soldados; e a da Força Internacional de Assistência e Segurança (Isaf), liderada pela Otan com 61.135 tropas de 42 países. Só quatro países estão comprometidos com a luta: EUA, Reino Unido, Canadá e Holanda. Suas queixas são constantes porque consideram que os demais são prisioneiros de suas opiniões públicas e evitam qualquer risco que possa lhes provocar baixas. Estes se defendem dizendo que os americanos possuem uma agenda oculta e que enquanto não a compartilhar com seus aliados não haverá modificações em seu compromisso.

A reconstrução é a verdadeira chave na nova estratégia de Obama. O assessor de Segurança Nacional, James Jones, deixou isso claro em uma visita aos generais e coronéis americanos no Afeganistão: "Isto aqui não pode ser ganho só com a força militar. Tentamos durante anos, e a estratégia não funcionou. A prioridade agora é o desenvolvimento econômico. Se não o fizermos direito, jamais teremos tropas suficientes para ter sucesso", informou na época Bob Woodward em "The Washington Post". Nessa mesma reunião, e segundo a mesma fonte, o general Lawrence Nicholson, do Corpo de Fuzileiros Navais, queixou-se da escassa presença de efetivos militares afegãos. Disse que precisaria que 10% de sua força de combate fossem compostos por militares locais. Karzai não enviou mais soldados para Helmand, apesar de há dois meses haver uma ofensiva geral contra os taleban. E não os mandou porque não os tem.

"Agora que eles estão ganhando terreno, o Taleban provavelmente não vai querer negociar"

Em uma entrevista ao Le Monde, Luis Peral, pesquisador do Instituto de Estudos de Segurança da União Europeia e especialista em Afeganistão, fala sobre as questões das eleições de 20 de agosto, uma vez que a situação no local continua muito tensa

Por onde começar em um lugar em que 30 anos de guerra destruíram a metade das aldeias, 30% das estradas pavimentadas e colocou o país no 171º lugar dos 173 na lista dos menos desenvolvidos elaborada pela ONU? Sua economia depende da ajuda externa e do ópio, que gera cerca de US$ 4 bilhões de lucros, dos quais US$ 200 milhões financiariam os taleban, segundo um documento de janeiro de 2009 do Grupo de Estudos Estratégicos da ONU.

A chave da reconstrução é combater a corrupção. O governo de Karzai pode ser uma má solução, mas não há outra. Em todos os países há desmandos econômicos, mas nos EUA ou na Espanha não afetam a vida cotidiana da população. Em lugares como o Afeganistão, essa mesma corrupção gera escassez de água, luz e alimentos. As pequenas corrupções são culturais e pertencem ao sistema de sobrevivência: um policial de trânsito que ganha US$ 40 e tem três mulheres e 12 filhos deve buscar dinheiro para proteger os seus.

Muitos diplomatas e o próprio governo dos EUA sabem que a única saída para o conflito é o diálogo e a legalização das plantações de papoula. Procuram-se taleban moderados com quem falar, mas não aparecem. As condições que estes impõem para qualquer negociação começam com a exigência da retirada de todas as tropas estrangeiras. Uma boa definição de taleban moderado seria o que se deixa comprar. O problema é que desde que o império britânico utilizou esse eficaz sistema de alianças a inflação disparou.

A política pública, a que se desenvolve com maneiras e valores diante dos cidadãos, às vezes não tem muito a ver com a privada, a que se fabrica entre bastidores. O ex-vice-presidente americano Dick Cheney, um mestre em malabarismos no fio das leis, visitou há anos o Parlamento afegão. Antes de entrar, um de seus assessores lhe explicou que se tratava de um legislativo um pouco especial, cheio de narcotraficantes e senhores da guerra. "Bem, é igual ao nosso", exclamou.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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