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23/08/2009

A biblioteca Google, uma utopia que suscita inquietações

El País
Alain Beuve-Méry
Richard Ovenden é diretor das coleções raras da Biblioteca Bodleiana, a mais antiga e mais prestigiosa das 34 bibliotecas incorporadas à Universidade de Oxford. Fundada por Thomas Bodley em 1602, a "Bod", como os estudantes familiarmente a chamam, é a pérola das bibliotecas inglesas. Ela guarda especialmente manuscritos iluministas que remontam ao século 15.

Contra todas as expectativas, Richard Ovendan foi o responsável por uma aposta audaz: ele seguiu todas as etapas do acordo assinado com o motor de busca Google em dezembro de 2004. Graças a essa aliança, foram digitalizadas 400 mil obras (das onze milhões que estão guardadas em Oxford) em um tempo recorde.
  • John MacDougall/AFP

    O Google tem uma carteira digital de dez milhões de obras, das quais a metade está em inglês



Entretanto, está fora de questão que o Google escaneie o acervo mais antigo e frágil da biblioteca. O acordo se refere exclusivamente aos volumes do século 19. Obras de ficção, mas também livros científicos em inglês, francês, latim, etc. Assim, desde abril deste ano, está disponível online a primeira edição de "A Origem das Espécies" de Charles Darwin.

Hoje, o programa de digitalização do acervo da biblioteca já foi concluído. O Google já retirou o equipamento que havia instalado em um dos edifícios da universidade, para instalá-lo novamente em outro lugar e continuar com a realização de seu projeto de biblioteca digital universal.

Para a empresa de Montain View, Califórnia, tudo começou em 2004 com a decisão de digitalizar em seis anos 15 milhões de livros guardados nas grandes bibliotecas dos Estados Unidos e Europa. Menos conhecido que o Google Maps, que oferece consulta gratuita a mapas e fotos da Terra, e que o YouTube (comprado pelo Google em 2006), que difunde vídeos do mundo inteiro pela internet, o objetivo do programa "busca de livros"
é fazer com que o maior número de obras se torne acessível ao maior número de pessoas.

O Google não se dirigiu somente às bibliotecas. Ele também oferece a digitalização gratuita de obras para as editoras que desejam incorporar seus títulos à base de dados, a fim de que sejam consultadas pela internet. Até hoje, 25 mil editoras assinaram acordos, especialmente editoras pequenas e especializadas, pois as grandes editoras preferem se manter à margem disso por enquanto.

"Aceitei porque considerei que nosso catálogo não estava bem representado nas bibliotecas públicas", explica Michel Valensi, fundador das edições de l'Eclat, primeiro editor francês que se aliou ao Google, e que foi seguido depois pelas editoras Vrin, L'Harmattan, Le Petit Futé e Champ Vallon.

Consultar livros do mundo inteiro com apenas um clique é o sonho louco e generoso que propõe o programa concebido pela empresa norte-americana. A imagem mais simples que vem à mente é a de uma enorme reserva para a qual basta escrever um título para consultar.

Entretanto, até agora, esta biblioteca universal parece um cano gotejante. Para mostrar, basta um botão: se buscarmos agora as obras de Victor Hugo encontramos uma versão francesa de "Nossa Senhora de Paris", editada por Charpentier em 1857. Mas se buscarmos "Os Miseráveis", as únicas versões que se encontram estão em inglês.

Além disso, desde que foi lançado em 2004, o programa "busca de livros", que agrupa 29 bibliotecas, sete delas na Europa, também suscitou inúmeras reservas de ambos os lados do Atlântico. De fato, para lançá-lo de forma rápida e eficaz, o Google não vacilou em digitalizar o acervo das bibliotecas norte-americanas sem parar para verificar se os livros estavam isentos de direitos autorais. Por outro lado, os acordos concluídos na Europa se referem apenas a obras que já são de domínio público.

Hoje em dia, o Google tem uma carteira digital de dez milhões de obras, das quais a metade está em inglês. Desse total, 1,5 milhão de obras pertencem ao domínio público e podem ser consultadas gratuitamente desde que se tenha acesso à internet; 1,8 milhão correspondem aos acordos estabelecidos com os editores. No que se refere aos 6,7 milhões de títulos restantes, estes se encontram em uma área cinzenta. Na maioria dos casos trata-se de obras esgotadas, mas que ainda estão cobertas por direitos autorais, e por isso os internautas só podem ler breves trechos.

"Graças à internet podemos dar uma segunda vida a milhões de obras que, de outro modo, estariam perdidas sem remédio", explica entusiasmado Santiago de La Rosa, responsável pelo programa "busca de livros" para a Europa, África e Oriente Médio.

Pura generosidade? Na realidade não. Para além das nobres intenções mostradas pela empresa norte-americana, vislumbra-se um objetivo comercial cada vez com mais clareza. De biblioteca universal, o projeto desliza para uma livraria. Uma evolução já indicada pelo historiador norte-americano Robert Darnton. "Quando uma empresa como o Google pensa numa biblioteca, não necessariamente vê um templo do saber. Mas pensa sim numa enorme jazida de 'conteúdo' que pode explorar a céu aberto", escreveu em fevereiro o diretor da biblioteca de Harvard no The New York Review of Books.

Nessas condições, é preciso temer o Google? As opiniões estão divididas. Por parte dos responsáveis pelas bibliotecas européias que assinaram acordos que afetam apenas as obras de domínio público, a confiança é admissível. Esse é o caso de Richard Ovenden, assim como de Sylvia Van Peteghen. A bibliotecária da universidade de Gante, Bélgica, explica que ela nunca viu o Google como um "diabo comercial".
Mas, para ela, o motor de busca norte-americano realiza o sonho de seu predecessor Paul Otlet (1868-1944), pai da classificação moderna, que se perguntava "de que serve colecionar livros se ninguém os lê", e que produziu catálogos detalhados para trocar com seus colegas de Londres.
"Ele tinha a intuição da internet, sem ter as ferramentas", resume Sylvia Van Peteghen.

Igualmente, para Patrick Bazin, diretor da biblioteca municipal de Lyon, França, que assinou em julho de 2008 um acordo com o Google para digitalizar suas obras patrimoniais, "esta biblioteca digital já é a maior e a que melhor funciona. Além da quantidade, a força que esta biblioteca está enraizada na enorme diversidade de livros digitalizados e a ausência de hierarquização acadêmica ou cultural".

Em troca, o programa suscita muita hostilidade por parte dos editores e dos autores. Nos Estados Unidos inclusive foram abertos processos legais contra o Google que, para por fim a isso, aceitou em outubro de
2008 criar um registro que permitirá identificar os titulares de direitos e indenizá-los com um pacote global de 125 milhões de dólares. Para entrar em vigor, entretanto, o acordo deverá ser aprovado em 7 de outubro pela Justiça norte-americana.

A inquietação também é forte na Europa. Em 7 de setembro, a Comissão Européia celebrará uma audiência com os responsáveis pelo Google, três dias depois da data fixada pela empresa para que os titulares de direitos decidam se querem participar do programa ou não. Segundo esse acordo, se o titular renunciar a toda demanda judicial contra o Google, recebe 60 dólares por obra digitalizada e dois terços do preço do livro quando este for vendido. Se rejeitar o acordo, não recebe nada, mas conserva o direito de atacar o Google.

O motor de busca norte-americano ficará numa situação quase monopólica, principalmente porque seu único rival sério, a biblioteca digital europeia Europeana, cujo catálogo compreende quatro milhões de documentos, avança muito mais lentamente. O Google, portanto, está em vias de se transformar de uma só vez na biblioteca mais completa e na livraria mais poderosa do mundo.

Tradução: Eloise De Vylder

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