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23/08/2009

As quatro vidas de Silvia Raquenel

El País
Francesc Relea
Na Cidade do México
Ela foi perseguida até o último canto de um shopping center em Monterrey (nordeste do México). Uma, duas, três rajadas de fuzil automático AR-15 e, para arrematar, o tiro de misericórdia na cabeça. O corpo de Silvia Raquenel Villanueva tinha 18 ferimentos de bala, segundo a autópsia. Os cinco bandidos fugiram tranquilamente em uma camionete que os esperava na rua. Os dois policiais que escoltavam a vítima declararam que nada fizeram porque foram postos sob a mira de armas longas e tiveram de se agachar. A filha da advogada, em estado de choque, não parava de tremer.

Tudo transcorreu muito depressa há duas semanas no centro da capital do estado mexicano de Nuevo León, perto da fronteira com os EUA. O assassinato de Raquenel, assim como na quinta-feira o de Armando Chavarría Barrera, presidente da Assembleia do Estado de Guerrero (sul) e importante dirigente do Partido da Revolução Democrática (PRD), aumentam a escalada da violência e a impunidade no México.

Nascida em Monterrey há 55 anos, Raquenel era muito mais que uma advogada de narcotraficantes, como a descrevia a imprensa mexicana. Ganhou notoriedade por ter defendido criminosos, policiais e funcionários públicos envolvidos no mundo do crime organizado, mas também por ter sofrido quatro atentados. Seu nome apareceu em alguns dos casos judiciais mais polêmicos. Frequentava prisões de alta segurança para visitar seus clientes e teve acesso a informações comprometedoras sobre os diferentes bandos na guerra das drogas. Conhecia muitos dos vínculos entre o crime e o poder. "Por que sei tanto? Sou advogada dos 'narcos', como dizem. Vivo nas penitenciárias e ali se escuta de tudo. Ali se sabe quem vão matar, quem vão mudar de repartição, quem está acertado com este ou aquele. É uma sujeira", disse há alguns anos.

Alguma coisa a advogada temia, porque nos últimos tempos demonstrava pressa para escrever suas memórias, e havia contatado algumas editoras. Por quatro vezes escapou da morte em atentados ordenados por não se sabe quem. "Já levei dez balaços e continuo aqui", comentou um ano atrás. Parecia invulnerável, quase imortal. Como na manhã de 31 de agosto de 2000, quando um bandido invadiu seu escritório e disparou cinco vezes contra o corpo da advogada. E depois veio o tiro de misericórdia. Naquela ocasião o assassino falhou incompreensivelmente e a bala apenas raspou sua cabeça. Três projéteis acertaram seu estômago. O atacante foi identificado como Erick Herrera Bustamante, fugitivo da justiça. Afinal, era irmão do ex-promotor de Tamaulipas José Guadalupe Herrera Bustamante.

Raquenel já tinha recebido um primeiro aviso em maio de 1998, quando uma bomba explodiu na entrada de seu escritório às 5 da manhã. Sua vida mudou radicalmente a partir de 23 de maio de 2000, quando sentiu pela primeira vez o hálito da morte. Naquela manhã, a advogada acompanhava seu cliente Cuauhtémoc Herrera Suástegui, diretor da Polícia Judicial Federal, destacado para o combate à droga e com vínculos suspeitos, que supostamente faria uma declaração bombástica. "Com o que ele ia declarar, cairia toda a promotoria antidrogas." Quando entravam no Hotel Imperial, na Cidade do México, começaram os tiros. Uma bala atravessou um pulmão e outra a cabeça de Raquenel. O chefe policial recebeu dois impactos e seu motorista morreu no tiroteio. Nunca se fez a esperada declaração.

O quarto atentado ocorreu em 13 de novembro de 2001. Os assassinos dispararam várias rajadas quando a advogada saía dos tribunais do distrito de Monterrey. Naquele dia seus guarda-costas a protegeram. Os problemas começaram no final dos anos 1990, depois que Raquenel assumiu o primeiro caso "pesado" do narcotráfico. Conheceu "por acaso" Carlos Reséndez Bertolucci, cérebro financeiro do cartel do Golfo, que era liderado por Juan García Ábrego, o narcotraficante mais poderoso do México naquele tempo. Reséndez deu a pista para a captura do chefe, que em janeiro de 1996 foi extraditado para os EUA. E não só isso. Participou como testemunha chave do julgamento de García Ábrego, que foi condenado a três penas de prisão perpétua em Houston, Texas.

Reséndez Bertolucci precisava de proteção e lá estava Raquenel Villanueva. O antigo cérebro financeiro do cartel do Golfo ganhou US$ 1 milhão de recompensa pela captura de García Ábrego e entrou para o programa de proteção a testemunhas, sob o qual vive oculto nos EUA. Raquenel afirma que não ganhou qualquer recompensa pela captura de García. Mas recebeu US$ 350 mil de honorários pagos por Reséndez.

Defendeu pessoas de todos os cartéis da droga - "não sou exclusiva de ninguém", dizia -, policiais federais, judiciais e municipais e personagens sinistros envolvidos em crimes hediondos. Foi detida em duas ocasiões e três de seus sócios e amigos foram assassinados.

Quando lhe perguntei sobre os responsáveis pelos quatro atentados, respondeu: "Creio que é o governo. Há muitos funcionários corruptos. Desconfio mais das autoridades do que dos criminosos". Os atentados contra a polêmica advogada e as histórias de sua vida se transformaram em "corrido", baladas populares no México. Raquenel comentou a esse respeito: "Diz o refrão que quem tem um 'corrido' ou está morto ou vai ser".
Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves O assassinato da advogada de narcotraficantes mais famosa do México e o de um importante líder político reforçam a sensação de impunidade no país

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