UOL Notícias Internacional
 

24/08/2009

Contrabando e o tráfico de mulheres florescem na fronteira entre a China e a Coreia do Norte

El País
José Reinoso
Em Dandong (China)
Liang Dong gira o volante, invade a pista contrária e reduz a velocidade enquanto roda sobre o acostamento. "Está vendo essa espécie de toca?", diz ele, enquanto aponta para um pequeno monte de terra com um buraco. "Dentro costuma haver dois soldados. A cada três quilômetros, há uma dessas tocas. Em uma delas, dois homens; na seguinte, duas mulheres. E assim por diante, uma atrás da outra."

Liang para o carro e o silêncio da campina norte-coreana envolve a estrada que margeia o rio Yalu, fronteira natural entre a China e a Coreia do Norte, ao sul da cidade de Dandong, na província de Liaoning. O posto de vigilância norte-coreano fica a alguns metros dali, depois das vigas de concreto com arame farpado que separam os dois países. A paisagem é plana, serena, com uma cor verde intensa. À distância, distinguem-se algumas casas de lavoura e vários camponeses inclinados sobre o terreno. Não há tratores. Apenas algumas vacas.

"Pobres, pobres, muito pobres. Em uma palavra, pobres", diz Liang, enquanto se congratula por sua sorte de ser chinês. "Eles não têm nada. O arroz que plantam só dá folhas, e o milho, só talos. No aniversário de Kim Jong-il (o líder da Coreia do Norte), todas as famílias recebem uma ração de tofu".

Liagn, de 36 anos, motorista que mora próximo a Dandong, é casado com uma mulher nascida na Coreia do Norte, onde ele já esteve várias vezes para visitar a família de sua esposa e parece gostar de percorrer a fronteira. A linha divisória com a China, que se estende ao longo de 1.400 quilômetros, é uma das mais vigiadas do mundo, mas, também, uma das mais permeáveis e capitalistas, apesar dos milhares de soldados estacionados em suas proximidades, devido às tremendas diferenças econômicas entre ambos os lados.

Contrabando de todo tipo de artigos, tráfico de mulheres, venda de parafernália turística do regime de Kim Jong-il, passeios de barco para contemplar desde o rio algumas pinceladas da vida no país mais isolado do mundo e visitas ilegais à Coreia do Norte fazem parte do dia-a-dia da vida na fronteira.

"Tenho vários amigos que têm barcos para fazer negócios com os norte-coreanos. Passam televisores, motos, carne e outros produtos de contrabando. Pagam 200 yuans (cerca de R$ 55) aos soldados. Estes deixam eles se movimentarem livremente em algumas áreas durante três dias", explica Wang Bin, 48, que trabalha com transportes.

A população de Dandong, uma agradável cidade de mais de 800 mil habitantes, transformou a presença próxima da Coreia do Norte numa fonte de renda. Os caçadores dos mais de cinco milhões de turistas que passam por lá a cada ano oferecem a possibilidade de pisar em terra proibida por algumas centenas de yuans. Em alguns casos, subornam os militares norte-coreanos para que façam vista grossa. Em outros, levam os curiosos a alguma das ilhotas que salpicam o rio e os fazem crer que estão ondem na Coreia.

"Quer ir à Coreia do Norte?", pergunta um homem junto à Ponte da Amizade, que une Dandong com o país stalinista.

"Os estrangeiros não podem ir".

"Sim, podem sim."

"E se os guardas norte-coreanos me pegam e não me deixam voltar como aconteceu com as duas jornalistas norte-americanas (libertadas no último dia 4 depois da intervenção de Bill Clinton, apósquase cinco meses de detenção)?

"Elas eram espiãs. Além disso, vamos com soldados que nos protegem."

"Norte-coreanos ou chineses?"

"Chineses."

Depois de rejeitar a proposta, o empregado de um dos barcos que oferecem passeios pelo rio Yalu esclareceu. "É claro que os estrangeiros não podem cruzar para a Coreia do Norte. Esses caras são golpistas", afirma. "Os moradores de Dangong podem pasar o dia em Sinuiju (cidade norte-coreana do outro lado do rio) e voltar à noite.
Mas não há nada ali.", acrescenta Liang.

O barco deixa os molhes e se dirige até o centro do largo rio. A bordo, uma mulher aluga binóculos para observar as enormes diferenças existentes entre ambas as margens. No lado chinês, um bosque de torres de apartamentos reluzentes, tráfego de carros e painéis publicitários. No coreano, uma sucessão de fábricas oxidadas, uma roda-gigante que não gira e vários soldados ociosos sentados na ribeira.

O regime de Pyongyang fez do isolamento a chave de sua sobrevivência. Mas a fome norte-coreana e a vontade de fazer negócios dos chineses abriram buracos na fronteira. Os rios Tumem, no norte, e o Yalu, no sul, são lugares de passagem frequente para os norte-coreanos que fogem da pobreza e da repressão política. A China não os reconhece como refugiados e muitos são devolvidos à Coreia do Norte, onde correm o risco de serem internados em campos de trabalho forçados e até mesmo executados. Agentes do regime passeiam livremente pela China em sua busca.

Entretanto, estima-se que dezenas de milhares vivem ocultos na China, misturados entre os chineses de etnia coreana. A maioria é de mulheres, muitas das quais foram vendidas como esposas, ou acabaram nos bordéis. "Elas podem ser compradas por cinco mil yuans (R$ 1.370) e depois vendidas por dez a quinze mil. Normalmente para camponeses pobres das áreas montanhosas que não podem encontrar uma mulher chinesa", diz Wang. Os vizinhos de Dandong se queixam de que cada vez chegam mais norte-coreanas, o que afeta o emprego porque elas cobram menos que os moradores locais. "Há muitas lavando pratos nos restaurantes. Outras, em casas de massagens. Elas não têm permissão, mas a polícia faz vista grossa. Algumas prostitutas cruzam a fronteira à noite. São mais baratas que as chinesas: 120 yuans em vez de 300", afirma Liang.

Os moradores de Dandong vendem abertamente tabaco norte-coreano de contrabando, cédulas do país isolado e todo tipo de quinquilharias turísticas. Parecem muito mais satisfeitos que os de outras partes da China. Talvez porque basta eles olharem para a outra margem do rio Yalu para lembrar como era seu próprio há não muito tempo. Este é o rio do qual Liang costuma dizer: "Um rio entre dois mundos diferentes; um mundo é o céu, o outro é o inferno".

Tradução: Eloise De Vylder

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    11h30

    0,14
    3,172
    Outras moedas
  • Bovespa

    11h35

    -0,53
    65.319,97
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host