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29/08/2009

Conflitos de fronteira ameaçam provocar outro cisma na América do Sul

El País
Soledad Gallego-Díaz Em Bariloche (Argentina)
A proposta inicial do presidente peruano, Alan García, de levar à cúpula extraordinária de Bariloche o conflito tripartite entre Peru, Chile e Bolívia a propósito da saída para o mar deste último país, afinal, não passou de ameaça. Não havia tempo nem vontade para que os presidentes dos 12 países que integram a Unasul tratassem do que constitui provavelmente o conflito mais longo e mais complexo da América do Sul. Por enquanto, a discussão ficará fora da Unasul, e o Chile e a Bolívia continuarão com seus contatos bilaterais, sob o olhar preocupado do Peru.

A questão candente e importante do uso de bases militares colombianas por parte dos EUA impediu que a agenda da cúpula se abrisse realmente para os outros problemas pendentes, desde o rearmamento de vários países sul-americanos até os diferentes conflitos bilaterais existentes na região, fundamentalmente por questões fronteiriças. A reunião tinha um objetivo claro e tudo o mais foi adiado.

O conflito entre Chile, Peru e Bolívia é, no entanto, um problema real, potencialmente grave. Peru e Bolívia combateram contra o Chile na chamada Guerra do Pacífico em 1879, que terminou com a vitória de Santiago, que anexou territórios dos dois países. O prejuízo foi especialmente grave para a Bolívia, que perdeu seu único acesso ao oceano. Desde então, La Paz tenta negociar um acordo com o Chile que lhe permita usar pelo menos um "corredor" para o mar.

O tema afeta o sentimento nacionalista dos dois países, e por isso as conversações são sempre consideradas "material altamente inflamável". Talvez por isso, Chile e Bolívia mantém um canal de comunicação importante, mas de perfil midiático muito baixo. A presidente Bachelet e o presidente Morales se comprometeram a retirar o tema dos foros públicos e é notável a discrição com que ambos se comportam.

Teoricamente, os dois países concordaram em identificar um "temário de 13 pontos" sobre o qual não há informação, porém, de que já exista acordo. O governo peruano afirma, apesar de tudo, que os dois países negociaram sem levar em conta seus interesses e exige maior transparência e participação.

É verdade que em 150 anos de conflito não foi possível implementar um diálogo de três lados entre Santiago, Lima e La Paz. Quando funciona melhor o eixo Santiago-Lima, La Paz fica de fora e vice-versa. Nesse caso, os contatos entre Bachelet e Morales, embora não tenham dado fruto até agora, provocam furor no Peru. Talvez porque a crescente modernização das forças armadas chilenas tenha posto o Peru em clara desvantagem e também porque as diferenças ideológicas entre Lima e La Paz são notórias.

O presidente peruano, Alan García, acusou recentemente seus colegas boliviano, Evo Morales, e venezuelano, Hugo Chávez, de promover revoltas indígenas na Amazônia peruana e de apoiar os grupos políticos indigenistas e o possível candidato presidencial Ollanta. No conflito sobre a saída para o mar da Bolívia, a maior concessão deveria ficar por conta do Chile, mas qualquer solução também afetaria os interesses do Peru, que exige ser consultado e não esconde sua inquietação, embora realmente também não precise por enquanto convocar a atenção da Unasul, por mais que o presidente equatoriano, Rafael Correa, tenha se oferecido para convocar uma reunião extraordinária, se assim for solicitado. Sobretudo porque Lima já optou por recorrer a outro organismo internacional, o Tribunal Internacional de Haia, para defender um novo traçado da linha marítima peruana, tema que também é altamente conflituoso na área.

A Unasul deveria ser certamente o melhor foro para discutir outro conflito, menor, mas incômodo, entre Paraguai e Bolívia. O presidente paraguaio, Fernando Lugo, pediu repetidamente a La Paz que lhe informe sobre o alcance e o sentido das novas aquisições bolivianas de armamento russo. Na teoria, os dois países dispõem de um mecanismo para incrementar as medidas de confiança em termos de segurança e defesa, mas na prática essa via parece ineficaz.

Paraguai e Bolívia são outros dois países sul-americanos com conflitos históricos: ambos protagonizaram em 1932 uma das piores guerras do continente, a cruel Guerra do Chaco, uma zona fronteiriça fonte de permanentes hostilidades - na qual hoje o mais importante seria realmente compartilhar e coordenar a luta contra a dengue, doença que arrasa a população -, mas que continua presente no imaginário de suas forças armadas e de seus políticos.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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