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03/09/2009

Deputado brasileiro é acusado de matar para aumentar a audiência de programa de TV

El País
Juan Jesús Aznárez
O carniceiro das notícias Wallace Souza costumava se colocar perto do lugar onde seriam cometidos os assassinatos para receber a ligação telefônica que confirmaria a execução. Sua equipe de TV sempre chegava ao lugar do crime antes da polícia e da concorrência.
  • Antonio Menezes/A Crítica/AP

    O ex-policial Wallace Souza, deputado em Amazonas, é investigado por mortes que ajudaram a aumentar a audiência de seu programa de TV



O corpo do proxeneta morto em setembro do ano passado ainda queimava em um canto do porto de Manaus quando apareceram os saqueadores do "Canal Livre". "Cheira a churrasco", comentou Souza junto do cadáver fumegante. Microfone na mão, ele tapava o nariz com a ponta da camisa para acentuar a dramaticidade. Aquele churrasco voltou a estourar os índices de audiência de seu programa sensacionalista. "Isto está claro: trata-se de um ajuste de contas", decidiu Souza.

As encenações macabras terminaram quando a polícia suspeitou das antecipações jornalísticas e um ex-militar confessou ter matado por encomenda do popular Wallace Souza, 51 anos, ex-policial e parlamentar do estado do Amazonas, que tem inúmeros capangas. O réu matava para multiplicar os índices de audiência e abrir caminho no mundo do narcotráfico, segundo a polícia. Continua em liberdade, esperando que a Comissão de Ética da Assembléia Legislativa suspenda sua imunidade e a justiça comum possa processá-lo como autor intelectual de pelo menos seis assassinatos.

"O único bandido bom é o bandido morto", proclamava o deputado, que ganhou seu assento em 2006 quase por aclamação. Histrião e gritador de falsete, olhava fixamente para a câmera do "Canal Livre" e, de cenho franzido, invocava os direitos da população, as necessidades do querido e sofrido povo amazônico, que ele solucionaria como jornalista investigativo ou de um assento no Congresso federal e da direção da polícia estadual. "Temos de acabar com o flagelo da criminalidade e com os políticos que não a combatem", dizia.

Como atuaram Souza, seu filho Rafael, de 26 anos, e o sindicato do crime sob as ordens da dupla? Desde a explosão do caso, em 12 de agosto, tudo aponta para cumplicidades policiais na lista de infâmias sob investigação, incluindo narcotráfico, posse de armas e enriquecimento ilícito dos primeiros 15 imputados. Os juízes designados são acompanhados de guarda-costas porque receberam ameaças de morte.

O jovem Rafael, preso, recebia informações sobre remessas de cocaína desembarcadas em Manaus e procedia à seleção dos capangas e ao assassinato do destinatário, de acordo com a acusação. Dois pássaros com um só tiro: ele roubava a droga e seu pai, a audiência. Os lucros eram divididos. A presteza da equipe de televisão era tal que em certa ocasião filmou a agonia de um criminoso ferido a tiros. A vida pela notícia, e ninguém sentia falta das vítimas nem reclamava uma investigação a fundo, porque eram todos criminosos contumazes.

"Souza e seu filho fabricavam crimes para gerar notícias e transmiti-las em seu programa, e de passagem executar rivais no narcotráfico", segundo Thomas Augusto Vasconcelos, chefe da unidade de investigação da polícia do Amazonas, um estado assolado pelo abismo entre ricos e pobres e a criminalidade crescente.

Abduzidos pela carnificina ao vivo, mais de um milhão de seus habitantes sintonizavam o programa para escutar as arengas do cruzado contra o crime e as pregações do deputado mais votado da região, duas vezes reeleito desde 1998. Todos idolatravam o homem que, certamente, seria capaz de purgar e dirigir os corpos de segurança do estado e que, além disso, emprestava o ombro nas batidas da lei contra a bandidagem.

Se os políticos e juízes eram incompetentes e as autoridades não cumpriam seu dever diante da comunidade, ele sim, o faria. Pistola na mão, protegidos com coletes antibalas, pai e filho participaram da demolição de casas, lançamento de bombas de fumaça e maus-tratos aos detidos. Uma advogada que preferiu não se identificar por medo do deputado o acusou de ter humilhado um de seus clientes. "Invadiu sua casa e o tirou a golpes, bofetadas e gritos, puxando-o pelo cabelo e chamando-o de corno. Muitas pessoas viram isso." O episódio foi oportunamente gravado e transmitido no programa das emoções, para regozijo de um populacho inclinado ao linchamento.

Souza e seu filho executaram atos de vandalismo, quebraram vidros de edifícios públicos e filmaram os destroços para argumentar contra a intolerável violência de Manaus, segundo Chico Batata, jornalista do "Diário do Amazonas": "Acreditavam que o pânico das pessoas facilitaria sua ascensão a secretário de Segurança do Amazonas".

O objetivo não teria sido impossível, pois desde sua expulsão do corpo de polícia, por roubo de gasolina e fraude, há duas décadas, a popularidade do comunicador subiu em disparada entre os defensores do estripamento sumário dos criminosos. Obcecado pelo cargo de chefe de polícia, transmutado em salvador dos pobres, encomendava assassinatos para enervar a cidade quando a via tranquila, segundo Divanilson Cavalcanti, encarregado da investigação.

O deputado atribui sua queda em desgraça à trama urdida por seus inimigos políticos e os cartéis mencionados em seu programa. "Fui dos poucos que apresentou iniciativas legislativas contra o crime organizado, o sistema penal, a corrupção policial ou a pederastia. Não há nenhuma prova material contra mim", declarou em entrevista coletiva. Os inspetores encontraram em sua residência cartuchos retirados do local dos assassinatos, junto com R$ 250 mil e US$ 15 mil, cuja procedência ele não pôde justificar.

O arsenal de provas que a polícia afirma ter parece tão certo quanto os assassinatos-notícias de Wallace Souza, também envolvido no homicídio frustrado de uma juíza que pisava em seus calos e na violação de uma adolescente de 15 anos. "A riqueza de provas contra ele é imensa", salientou o promotor Fábio Monteiro.

Pendentes da resolução da Assembléia Legislativa sobre sua imunidade, várias ligações telefônicas gravadas por ordem judicial provariam as conexões entre o bando de capangas e o parlamentar pistoleiro, cujo programa não só adentrava pelos aspectos mais sórdidos dos crimes como os resolvia a sua maneira.

Apesar de tudo, o perfil de Souza no site da Assembléia Legislativa do Amazonas, redigido pelo deputado e seus amanuense, e ainda disponível, salienta o compromisso familiar com a justiça social. "Os Irmãos Coragem, como são chamados, trazem esperança para as pessoas menos favorecidas", escrevem, "mostrando uma realidade nua e crua a fim de chamar a atenção dos órgãos competentes para que solucionem os problemas."

Narcotraficantes, proxenetas, policiais e políticos eram condenados sem piedade pelo apresentador, acompanhado por dois irmãos, vereadores de Manaus e discípulos avantajados do primogênito na arengação política e no engano. Mas Souza não mentia quando denunciava o assédio sexual de meninas, o estupro, o narcotráfico e a corrupção imperantes no Amazonas. Só se omitia ao se excluir de um mundo que abraçou como juiz e parte, definitivamente como padrinho.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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