UOL Notícias Internacional
 

04/09/2009

O calvário dos espiões da CIA no governo Obama

El País
Lluís Bassets
Vinte anos não são nada, mas a profissão não levanta a cabeça. Quando caiu o Muro de Berlim também caiu o negócio, e até hoje não conseguiu se recuperar. Basta rever a história da CIA desde que os arquivos da guerra fria passaram do Pentágono para as universidades e, sobretudo, observar o último imbróglio em que se meteu a maior e mais poderosa organização de espionagem do mundo. É evidente que ser espião nos EUA já não é o que foi. Hoje mesmo um promotor especial recebeu instruções para investigar os métodos de interrogatório usados pela CIA sob as ordens de Bush, quando seus agentes foram autorizados a infligir um amplo e repugnante repertório de tormentos aos detidos por terrorismo, para extrair informações.

A questão das torturas está se transformando em um feio jogo em busca de culpados, no qual cada um indica o vizinho para se livrar de problemas. Os agentes da CIA que as cometeram indicam os conselheiros jurídicos de Bush que as autorizaram. O Departamento de Justiça, onde trabalhavam esses juristas, aponta a CIA, porque exagerou no cumprimento das instruções. Os congressistas democratas, que também as aprovaram em uma comissão reservada, indicam Bush. E os colaboradores de Bush indicam uns aos outros, incluindo o próprio ex-presidente, que também se desentende; com exceção de seu vice-presidente, Dick Cheney, que é o único que mantém a valentia, defendendo o indefensável e assumindo todas as responsabilidades.

O carregamento de materiais sobre o qual se construiu a infame história das torturas gozou de muitas colaborações. Intelectuais de renome de todos os países apoiaram seriamente a teoria do mal menor, e polemistas políticos acreditados sustentaram o argumento da bomba-relógio cujo efeito poderia ser evitado se se desse liberdade aos interrogadores para extrair informação dos terroristas. E depois estão os juristas de Bush, os rábulas capazes de legalizar qualquer coisa desde que seja o presidente quem ordene; ou com suficientes dotes circenses para encontrar a sutil e obscena linha vermelha que separa o conceito de tortura do de interrogatório reforçado.

Como se está vendo agora, o trabalho desses juristas, que também proporcionaram argumentos para a guerra preventiva ou para a criação de limbos jurídicos como Guantánamo, não foi em vão. O promotor especial John Durnham, com fama de incorruptível e apartidário, tem instruções precisas para investigar só os interrogatórios nos quais essas linhas vermelhas foram ultrapassadas, o que pode atingir no máximo uma dúzia de agentes. Apesar de Obama ter proibido a tortura 48 horas depois de chegar à Casa Branca, a decisão de seu promotor-geral (ministro da Justiça) de não processar os advogados que pretenderam legalizá-la, mas sim os carcereiros que aplicaram as infames instruções com permissividade e inclusive deleite, significa uma legitimação implícita do debate sobre os limites da tortura. Isto não quer dizer que vá se limitar estritamente à partitura: não é assim que costumam se comportar os promotores especiais.

É muito difícil que o presidente extraia alguma vantagem da investigação do promotor especial e muito fácil, por sua vez, que saia com algum arranhão. Transformar a CIA no palhaço das bofetadas não é exatamente uma causa que entusiasma os americanos. Quanto mais avançar esta investigação, e sobretudo se transbordar e se transformar em uma causa geral contra a política antiterrorista de Bush, mais difícil será que o presidente mantenha solidamente sua posição central e sua capacidade de arrancar acordos transversais com os republicanos.

Ele precisa disso de maneira urgente para a reforma do sistema de saúde, suas novas políticas ambientais e suas reformas educacionais, mas também para encarar a eleição de novembro de 2010, onde pode perder facilmente sua dupla maioria na Câmara e no Senado. Por isso Obama se decidiu por uma política de contenção do ajuste de contas com o passado, soltando lastro quando não tem outro remédio, mas evitando a todo custo parecer um presidente partidarista, obcecado por seu antecessor e disposto a cobrar de maneira vingativa as faturas das infâmias republicanas. Nisso Obama vai contra Obama, o pragmático contra o moralista.

Há um poderoso argumento que pende sobre sua cabeça e que Cheney cuida muito bem de agitar tacitamente com seu meio sorriso maquiavélico: graças àquela política antiterrorista brutal, desde o 11 de Setembro não houve mais atentados; se voltarem as bombas, todos saberão de quem é a culpa, e ninguém desejará continuar remexendo as responsabilidades judiciais e políticas pelas torturas. Por isso o calvário dos espiões vai no caminho de também se transformar em um calvário para o jovem presidente.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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