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05/09/2009

Depois de oito meses de graça, o presidente dos EUA deve traduzir a poesia de seu mandato em prosa

El País
Francisco G. Basterra
Obama teve um agosto ruim e começa o outono em que vai ter de optar, coisa que até agora evitou enquanto cavalgava à vontade uma mídia acrítica e sua magia retórica. Mas já em Washington, depois das férias na exclusiva ilha de Martha's Vineyard, consumido um longo período de graça de mais de oito meses, precisa traduzir a poesia de seu mandato em prosa. E tem de fazê-lo em dois assuntos de vida e morte para sua presidência: a guerra no Afeganistão, que é "sua guerra", e a reforma da saúde, encalhada no Congresso e submetida durante o verão a um duro castigo de desinformação maciça e calúnia, organizado por grupos de extrema-direita, que calou em uma população para a qual, majoritariamente, as palavras "governo" e "público" continuam sendo obscenas.
  • Alex Brandon/AO

Obama irá nesta quarta-feira ao Capitólio para explicar diante das duas câmaras do Congresso por que os EUA precisam reformar em profundidade uma saúde que deixa fora de seu guarda-chuva 46 milhões de americanos e ameaça quebrar as contas públicas. Como é possível que, controlando o Congresso com maiorias absolutas, a principal reforma da presidência Obama esteja ameaçada?

Muitos acreditaram que a chegada de Obama significava que os EUA estavam se europeizando. Um erro. O Congresso de Washington não opera com a disciplina partidária do voto como fazem os Parlamentos europeus: os deputados pensam sobretudo em sua reeleição, e não em salvar sempre seu chefe, mesmo que esteja na Casa Branca. A recessão assustou os americanos, que veem aliviados a recuperação temporária do papel de salva-vidas do Estado, mas empalidecem diante da remota possibilidade de que seu mundo, geneticamente individualista, importe um "socialismo" à europeia.

Obama quis oferecer tudo ao mesmo tempo: aumento da cobertura até quase 100%; redução de custos de saúde; dupla opção, a privada atual e a oferta pública como novidade que atrai os sindicatos e a esquerda democrata. O consenso total é impossível. Obama, em busca de um compromisso que o faria parecer o grande conciliador, poderia suprimir, para salvar a reforma, a opção de um seguro público garantido pelo Estado, em concorrência com os atuais seguros privados.

Jean Edward Smith, autor do livro "F.D.R.", lembra ao presidente em "The New York Times" que governar implica optar, e que não tenha medo de aplicar sua ampla maioria contra a dissensão da minoria. Pede-lhe que faça como Roosevelt no New Deal, quando não pediu permissão aos banqueiros para criar a SEC, a instituição que regula os excessos de Wall Street.

O Afeganistão e a crescente ameaça de fracasso, prevista por "The Economist" - um assunto internacional que também afeta os europeus e a Espanha: temos mobilizados ali 1.200 soldados, de um total de 110 mil soldados ocidentais, que nesta semana entraram em combate -, também obscurece o outono de Obama e poderia se transformar no Vietnã do jovem presidente.

Obama a considera uma guerra "necessária" e portanto justa, diante das guerras "opcionais" escolhidas por motivos políticos, como foi a do Iraque. Em pleno agosto, afirmou diante de um grupo de veteranos que "o Afeganistão não é só uma guerra que vale a pena lutar. É fundamental para a defesa de nossa população".

Obama não havia dado por concluída a guerra ilimitada contra o terrorismo declarada pelos neocons de Bush? Os objetivos da guerra são confusos e não são compreendidos pelas opiniões públicas americana e europeia; os chefes da Al Qaeda estão no Paquistão. As eleições afegãs foram um fracasso; Karzai, rodeado de narcotraficantes e senhores da guerra, carece de legitimidade e preside um governo corrupto; a insurgência taleban é cada vez mais audaciosa e mais preparada; a proteção à população afegã exigiria 500 mil soldados (um para cada 50 habitantes), estimam os militares americanos, já que psicologicamente e em campo os taleban estão ganhando e para eles ganhar é não perder.

O Pentágono está a ponto de pedir a Obama uma escalada bélica. Crescem nos EUA, também entre os democratas, a ideia de que a guerra não pode ser ganha e os pedidos de um calendário de retirada. O colunista conservador George F. Will lembra a Obama as palavras de De Gaulle, que, referindo-se à decisão de Bismarck, que em 1870 deteve as tropas alemãs às portas de Paris, disse que "O gênio às vezes consiste em saber quando parar".

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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