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06/09/2009

A crise dos 40 já não é mais crise, é oportunidade

El País
Francesco Manetto
Ele, de 42 anos, um dia se levanta e, depois de tomar uma ducha, fica diante do espelho um pouco mais do que o habitual. Exatamente o tempo para decidir: "Dieta férrea, duas horas de academia todos os dias e quatro sessões de raios UVA por semana". Depois de três meses chega o momento do primeiro balanço: "Perdi 18 quilos e agora pareço doente, com muitos músculos, a cara preta e o corpo branco, que, diga-se de passagem, são duas cores que combinam", conta, sem renunciar ao senso de humor.

Ela tem 41, está casada e acaba de ter o segundo filho. Depois da licença-maternidade, volta para o trabalho de administradora em uma multinacional, mas não está contente. O que antes lhe parecia estimulante agora é motivo de aborrecimento. Começam a aflorar as frustrações e ela também decide: "Tenho de dar uma virada na minha vida". Neste caso, a mudança não tem nada a ver com aspecto físico, senão com a inquietação que, graças a uma situação econômica acomodada, lhe permite pedir uma licença, voltar a estudar e fazer um mestrado em administração de empresas.

As duas histórias, bastante freqüentes, embora com diferentes matizes, segundo psicólogos e especialistas, mostram duas facetas de uma mesma etapa vital: a chegada aos 40. Alguns a definem como crise, outros simplesmente falam de mudanças nas perspectivas para o futuro. Em todo caso, pode-se transformar em uma fronteira importante e determinar os anos vindouros.

Porque cruzando essa fronteira costumam-se tomar algumas decisões capitais em relação à vida pessoal, familiar ou profissional. Às vezes se considera essa etapa inclusive como uma última oportunidade e se age de forma consequente. Muitos especialistas, de todo modo, a indicam como um período crucial e concordam em que mulheres e homens costumam vivê-la de forma diferente.

Tanto nos casos dos que decidem reformular suas vidas como nos que agem de maneira compulsiva e aparentemente irracional para tentar enfrentar a idade, os especialistas com formação médica falam da importância da relação entre idade cronológica e biológica, isto é, a que corresponde ao estado funcional dos órgãos em uma determinada idade.

Fernando Bandrés, especialista em biomedicina e professor da Universidade Complutense de Madri, afirma que o problema é que as duas idades estão defasadas e explica que, do ponto de vista fisiológico, tomar os 40 anos como referência tornou-se antiquado. "Foi mais um conceito dos anos 1960", explica. "Mas hoje, com a mudança da expectativa de vida, creio que se deslocou para mais de 45 anos."

Superada essa idade, por exemplo, podem-se registrar transtornos do metabolismo ou do sono e um aumento do cansaço que desmentem algumas convicções: "Eu acreditava que fosse imortal, mas não é verdade".
Então afloram também a hipertensão ou a diabetes, o que dá margem a toda uma etapa de check-ups e novos tratamentos, como, por exemplo, dar atenção especial à alimentação ou ao exercício físico.

Esse aspecto de caráter mais biológico pode influir em uma dimensão mais psicológica, já que exatamente depois dos 40 também se começa a olhar para trás e a fazer os primeiros balanços, mas também a se reformular as prioridades para o futuro. "As pessoas não vão ao psicólogo pelo que chamamos de crise dos 40, mas pelo mal-estar cotidiano que pode se manifestar de diversas maneiras", explica o psicólogo clínico e terapeuta familiar Pedro Rodríguez. "Por exemplo, agora estamos acabando as férias e haverá pessoas que dirão que isso constitui um problema, embora na realidade só se trate de uma circunstância", esclarece. "Esta etapa pode ser um momento adequado para refletir e tomar decisões importantes. O que convém fazer é parar, refletir, analisar a situação e agir."

Aqui, no entanto, podem começar os verdadeiros problemas. "O que acontece é que enquanto em muitos casos se tomam decisões acertadas também há pessoas que nessa etapa tomam resoluções sem pensar nas consequências, e com isso muitas vezes se transformam em complicações", afirma.

Em todo caso, segundo concordam vários especialistas, diante da crise, quer se manifeste aos 40 ou 50, costumamos assistir aos típicos questionamentos das datas e etapas mais destacadas. Algo parecido ocorre em menor medida com a volta ao colégio. "Há pessoas que adotam metas e há pessoas que percebem que querem fazer coisas ou cumprir desejos que não cumpriram no passado", prossegue Rodríguez, que também recomenda: "O critério de 'nunca é tarde' é bom". Na opinião dele, um excelente exemplo é o das carreiras profissionais. "Com 40 ou 50 anos pode-se voltar a estudar, mas é preciso levar em conta a realidade, porque nessa idade costumamos estar presos a nossa vida profissional e nem sempre é fácil nos desligarmos dela."

Nesse sentido, registram-se algumas diferenças de gênero. É que, enquanto muitos homens têm a sensação de estar acabados, de que a vida está escapando entre suas mãos, para as mulheres (que por outro lado começam a acusar a chamada crise mais tarde, em torno dos 50) as preocupações reais costumam ser outras e correspondem mais à busca da plenitude pessoal, familiar, sexual ou profissional.

Em todo caso, na opinião de María Jesús Álava, psicóloga e autora de "Amar sin sufrir" (Amar sem sofrer), "a mulher de 40 costuma ser uma pessoa segura, mais que um homem da mesma idade". "Eles alcançaram suas principais metas em nível profissional, a relação com a parceira se tornou mais monótona, têm maior poder aquisitivo. No entanto, falta-lhes algo fundamental, sentirem-se mais jovens. É uma época em que muitos casamentos naufragam", lembra.

Geralmente, de todo modo, os homens que buscam uma solução iniciando uma relação com uma parceira muito mais jovem costumam se arrepender depois de algum tempo, afirma. Enquanto isso, as exigências e os desejos das mulheres se realizam por diversos caminhos.

Estamos falando de uma geração que na Espanha foi pela primeira vez maciçamente à universidade, que começou a trabalhar no início dos anos 1990, enquanto em Barcelona estavam se preparando os Jogos Olímpicos de 1992, uma geração mais preparada que as anteriores e acostumada ao conceito de formação permanente. É o caso das alunas do curso de pós-graduação em Liderança Feminina organizado pela Escola Superior de Comércio Internacional de Barcelona e a Universidade Pompeu Fabra. A maioria tem cerca de 40 anos. Mas a diretora do curso, Carme García Ribas, não gosta da palavra "crise". "Não há uma etapa concreta, essa circunstância é constante. Viver quer dizer estar permanentemente em crise. Cada confronto com o entorno é uma crise", opina, antes de acrescentar que "confrontar-se sem estar formado representa viver na marginalidade", embora não seja estritamente econômica.

O conceito de formação é, no entender de García, fundamental para permanecer no carro do progresso e desempenha um papel chave na liderança social. A esse propósito, o conceito de liderança feminina se transformou em uma questão de negócios. "Hoje existe demanda social para esse tipo de liderança", comenta. "As alunas de pós-graduação têm currículo e se formaram de maneira constante em diversos âmbitos. Vão seguindo sua trajetória profissional que não pode parar. Ter filhos é uma desculpa social, embora ter sete não seja, evidentemente", explica García, que é autora de "El síndrome de Maripili: el miedo de las mujeres a no ser queridas" (A síndrome de Maripili: o medo das mulheres de não serem queridas). "Este curso trata exatamente de dar as ferramentas para se autorizar a analisar e administrar estrategicamente as próprias atitudes e aptidões em um projeto pessoal e profissional. O efeito em muitos casos é tremendo, porque literalmente se muda de vida."

Por exemplo, Eva Fernández, 41 anos e um filho, responsável pela Endesa Educa, divisão educativa da companhia. "A experiência muda suas perspectivas, a maneira de enfocar as coisas", afirma. Licenciada em biologia, trabalhou uma década como bióloga, realizou vários cursos e antes de fazer pós-graduação tinha uma formação muito acima da média, mas não buscava um salário maior e sim um reconhecimento diferente no lugar de trabalho, e agora está muito satisfeita com sua decisão. "Sinceramente, troquei o chip", resume.

Vista de outra maneira, para ela e suas companheiras, esta etapa transformou-se em uma ocasião para crescimento. É que também no mundo empresarial há quem creia que as crises registradas durante esses anos podem se transformar em oportunidades singulares.

Essa é a especialidade de Manuel Pavón, sócio de Garrigues e responsável pelo departamento de consultoria de empresa familiar do escritório. Pavón dá um exemplo concreto: "Não sei o que acontece, mas perdi a ilusão e a vontade de trabalhar. É como se tudo pelo que lutei nos últimos 15 anos tivesse perdido o sentido. Sinto-me decepcionado.
Apesar de todos os meus esforços, me parece que nunca chega o momento em que eu possa demonstrar que sou um bom diretor".

Estamos falando de um homem de quase 40 anos, filho do responsável por uma empresa familiar. Enquanto isso, o pai, de 67 anos, não entende essa mudança de perspectivas do filho. O que pode acontecer? Pavón conheceu casos de pessoas, sobretudo de homens entre 38 e 45 anos, que correm o risco de transformar uma pequena crise em um problema maior.
"Seus sintomas são a ansiedade, a insatisfação ou a busca de emoções intensas, por exemplo, através de um carro novo." Nesses momentos somos, de alguma maneira, uma espécie vulcão que, por sua vez, pode se transformar em energia positiva ou explodir.

Na opinião de Pavón, essas situações de conflito no seio de uma família ou de uma empresa familiar podem ser superadas aceitando-se, em primeiro lugar, "que estamos em uma situação de desconformidade". "Depois, avançando por partes e tendo um objetivo realista. A mudança que vivemos na evolução progressiva do joystick ao iPhone foi um benefício para os usuários." E, na opinião dele, poderia ser um exemplo muito concreto de como a crise também pode levar à evolução.

Exatamente essa evolução estratégica no âmbito profissional, a existência de algumas ou várias pautas na resolução dos conflitos gerados pela crise e a aparente futilidade de alguns sintomas podem levar a pensar que se trata do enésimo complexo da sociedade ocidental, do mundo opulento e, dentro de nossa sociedade, principalmente das classes médias e altas. De fato, existem estudos, como lembra Pavón, que confirmam em parte essas crenças e apontam que a crise dos 40 não existe em países como o Japão.

No entanto, uma pesquisa realizada por uma equipe de economistas da Universidade de Warwick, no Reino Unido, é do Dartmouth College, nos EUA, afirma exatamente o contrário. O estudo analisou os hábitos de mais de 2 milhões de pessoas de cerca de 44 anos em cerca de 80 países. Os responsáveis pelo projeto, Andrew Oswald e David Blanchflower, apontam que a chamada crise da meia-idade ("midlife crisis") atinge todo o mundo. Na opinião de Oswald, "algumas pessoas sofrem mais que outras, mas em nossos dados a média é ampla... acontece com o homem e com a mulher, com solteiros e casados, ricos e pobres, os que têm filhos e os que não têm".

Além disso, esses pesquisadores definem graficamente essa crise como uma curva em forma de U, já que afirmam que a felicidade é coisa do princípio e do final da vida. No meio, indicam, fica a intranquilidade. No meio há milhares de pessoas que devido a essa espécie de angústia ou inquietação decidem mudar de vida, muitas vezes para melhor, outras, e sem intenção, para pior. O que quer dizer mudar de casa, de cidade, de trabalho ou de parceiro. Medem-se consigo mesmas e com seu futuro. Nas palavras de todos, continuam crescendo.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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