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06/09/2009

"Berlusconi aspira ao poder absoluto", diz diretor de jornal italiano

El País
Miguel Mora
Em Roma (Itália)
A Itália vive os dias da lama. O chefe do governo, Silvio Berlusconi, decidiu investir contra os que ainda ousam criticá-lo, e não parece disposto a fazer prisioneiros. A primeira vítima de sua ofensiva de outono, judiciária e midiática, foi Dino Boffo, diretor do jornal dos bispos, "L'Avvenire", que se demitiu na quinta-feira depois do feroz ataque de uma das mídias da família Berlusconi, "Il Giornale", baseado em uma nota anônima que o acusava de homossexualismo.

Ezio Mauro (nascido em Turim em 1948), diretor de "La Repubblica" desde 1996, já sofreu as duas vertentes da ofensiva: Berlusconi denunciou seu jornal pelas dez perguntas que lhe formula desde o mês de maio sobre suas relações com menores e prostitutas, e "Il Giornale" tentou desacreditá-lo pessoalmente, acusando-o de ter sonegado impostos ao comprar sua casa romana. Mauro demonstrou que as imputações são falsas e afirma que Berlusconi empreendeu uma estratégia de "gangsterismo midiático para enviar uma dupla ameaça: à igreja e aos diretores de jornais".

El País: Boffo foi a primeira vítima. O senhor acredita que haverá outras?
Ezio Mauro:
Boffo sofreu um ataque pessoal feroz e violentíssimo por criticar o chefe de governo. Sua dimensão demonstra que a estratégia é eficaz: isolam-se as vítimas, se faz silêncio, ninguém dá o nome do que ordenou o ataque e o medo se expande. Boffo só é culpado de ter respondido às cartas dos padres e das bases católicas que pediam explicações à igreja por sua reação morna ao comportamento de Berlusconi. O fez de forma prudente e discreta. Em troca, "Il Giornale" desenterrou uma história velha, publicada há anos por "Panorama", outra publicação de Berlusconi, para assim enviar duas mensagens: à igreja, convidando-a a não criticá-lo, e aos outros diretores de jornais, dizendo-lhes que caminhem com o olhar baixo e que falem de outra coisa.

El País: Parece uma preocupante caça às bruxas.
Mauro:
É um ato gravíssimo de gangsterismo midiático, baseado em um apócrifo: publicaram um anônimo como se fosse um papel adjunto a atas judiciais para acusar Boffo de homossexualidade. Mas a responsabilidade política é do chefe do governo, envolvido em um novo abuso de poder como político, como pessoa e como proprietário para destruir seus críticos. A história reforça nossa nona pergunta: o chefe de governo usou ou está usando os serviços secretos contra testemunhas, juízes, jornalistas? Os fatos falam por si mesmos.

El País: E o senhor não acredita que o ataque à igreja católica pode se voltar contra ele?
Mauro:
Berlusconi ataca a igreja porque concebe seu poder como um poder absoluto, alheio a todo controle. Essa lógica não aceita se rebaixar a cumprir os pactos com a igreja e pedir desculpas. Prefere demonstrar sua força, expandir o medo e depois eventualmente negociar. A ruptura com a igreja ampliará sem dúvida a brecha de que falei depois das eleições europeias. Suas mentiras sobre suas relações femininas distanciaram Berlusconi do país e da realidade. Veremos aonde chegará essa brecha no futuro. Será difícil para ele voltar a uma relação normal com a igreja, da qual foi aliado privilegiado. A igreja domina a arte da diplomacia, mas também vive dos ritos e dos símbolos e conhece bem a figura do bode-expiatório. Com certeza exigirá uma reparação.

El País: Em forma de leis e de dinheiro?
Mauro:
Naturalmente, Berlusconi colocará sobre a mesa a lei do testamento vital, mais verbas para a escola privada, as restrições à pílula do aborto, o que for preciso. Fará esse intercâmbio por baixo da mesa, de forma secreta, renunciando à laicidade do Estado e exigindo silêncio. Ao mesmo tempo, a ofensiva para calar os dissidentes deixará no caminho uma parte do eleitorado moderado.

El País: Em quê o senhor acredita que consistirá essa ofensiva?
Mauro:
Mario Giordano, ex-diretor de "Il Giornale", o avisou antes de ser demitido: "Saio porque não estou disposto a remexer embaixo dos lençóis dos diretores e editores dos outros jornais". Exatamente o que aconteceu depois da chegada de Vittorio Feltri a "Il Giornale".

El País: Ele diz que se limitou a fazer o que outros fizeram com Berlusconi.
Mauro:
A diferença é que nossa investigação nasce de uma denúncia pública da mulher de Berlusconi, que afirmou que ele frequentava menores e estava doente, e salientou o "lixo político" que representava trocar favores sexuais por candidaturas. Diante disso, os jornais temos o dever de investigar. Berlusconi é o chefe de governo, um homem público, e se nega a responder às perguntas; Boffo é um cidadão que foi massacrado por criticá-lo.

El País: A direita diz que estamos no puro falatório.
Mauro:
É justamente o contrário, uma batalha de liberdade. Existe na Itália uma relação normal entre a imprensa e o poder? Pode-se criticar o primeiro-ministro ou não? Essa é a pergunta que nasce da demissão de Boffo, das dez perguntas e das denúncias contra "La Repubblica", "L'Unità", "El País" e outras mídias estrangeiras.

El País: Muita gente na Europa olha para a Itália, país onde foi inventado o fascismo, com preocupação e medo do contágio. Muitos cidadãos esperam que a UE faça algo a respeito.
Mauro:
Não sei o que poderia fazer, mas sei que a Itália é uma anomalia entre as democracias europeias e ocidentais. Nem mesmo Nixon usou esses métodos contra a imprensa.

El País: O senhor acredita que a imagem do país se enfraqueceu? Poder-se-ia dizer que hoje os únicos aliados de Berlusconi são Putin e Khadaffi?
Mauro:
Essa é a triste realidade. Berlusconi está prejudicando gravissimamente a imagem do país.

El País: Em todo caso, a esquerda italiana não tem grande parte de responsabilidade nesse processo?
Mauro:
A responsabilidade da esquerda italiana é enorme. Sempre subvalorizou a magnitude do fenômeno Berlusconi, nunca a entendeu nem a rejeitou como deveria. No governo, não foram capazes de regular o conflito de interesses. Agora, na oposição, continua subvalorizando-a.

El País: Talvez haja um dado positivo nessa história. Apesar do controle férreo da televisão que Berlusconi exerce, a batalha se trava nos jornais.
Mauro:
A batalha política ainda é coisa dos jornais. O problema é que Berlusconi utiliza os dele para calar a boca de seus inimigos. E isso não acontece em nenhum outro lugar.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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