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07/09/2009

93 milhões de formas de fazer sexo

El País
M. Antonia Sánchez-Vallejo
Teclar a palavra sexo em qualquer mecanismo de busca na internet dá como resultado 93 milhões de páginas. Fazer isso em inglês multiplica o número por quase sete: há 645 milhões de páginas na rede. Mas o sexo, na internet, não precisa ser buscado.

Simplesmente, ele é encontrado: basta abrir a caixa de entrada do correio eletrônico, provavelmente cheia de spams com ofertas de Viagra a granel, contatos com mulheres - a internet continua tendo uma inclinação fundamentalmente heterossexual - ou receitas fraudulentas para aumentar o pênis ou motivar os impotentes.

  • AFP

    "Blue Venus" (1962), trabalho do francês Yves Klein

Sexo é a palavra mais buscada na internet e a rede, assim como em outros muitos aspectos da vida cotidiana, do trabalho ao ócio, está modificando os modos de relação social e pessoal. O denominado sexo virtual, que não está catalogado como conduta patológica em nenhuma classificação internacional (só estão qualificados assim os vícios químicos e a ludopatia), consiste em experimentar a estimulação sexual enquanto se mantém contato online com outra pessoa, ou durante o consumo de material sexual virtual para obter uma estimulação ou excitação.

Da curiosidade às escondidas à satisfação total, às vezes compulsiva, de uma necessidade física, há na rede páginas para todos os gostos e, o que é pior, muitas delas são tão explícitas quanto acessíveis, o que provoca um sério problema quando se trata do acesso de menores. Segundo o relatório Durex de 2003, há cinco anos cerca de 25% dos espanhóis já recorriam à intenet para fins sexuais. Ainda que não haja estatísticas a respeito do assunto - em parte, por se tratar de um fenômeno relativamente recente -, o sexo virtual (facilitado por sua acessibilidade e anonimato) ganha cada vez mais adeptos, se forem consideradas válidas as estatísticas de que só nos EUA mais de 200 novos sites de conteúdo sexual são acrescentados por dia à rede.

A rede oferece, principalmente às pessoas mais tímidas ou com menos habilidades sociais, um espaço dominado pela privacidade, e onde a assepsia se confunde facilmente com a inofensibilidade, o que faz com que muita gente que na vida real não se atreveria a dar um passo a mais - para ser infiel, por exemplo -, estabeleça relações paralelas virtuais que, num meio onde não há culpa nem vergonha - a rede, ao contrário do mundo real, não conhece tabus nem obstáculos -, podem induzir à confusão. Isso é o que dizem todos os especialistas consultados: "Um marido exemplar, absolutamente fiel e que na vida real não se atreveria a enganar nunca sua mulher, pode trair seu compromisso virtualmente através de chats ou de outros contatos online. Ele o faz porque acredita que, como não há contato físico, não há traição."

Motivos para praticar sexo online há aos milhões, concordam os especialistas. "Não existe um perfil de usuário, é algo tão massivo que seria como estabelecer o perfil dos nomes que estão nas páginas amarelas", explica o psicólogo Esteban Cañamares, especialista em sexologia. Tanto homens quanto mulheres recorrem o sexo pela internet, embora haja uma maioria de homens. Recentemente, o responsável por uma página de conteúdo para adultos, ou melhor, uma página pornô, contou-me que 40% das reclamações que recebem vêm de mulheres. Entre os consumidores de sexo virtual estão jovens e adultos, pessoas cultas e sem formação... Este perfil tão amplo se deve à própria infinitude da rede, que é inesgotável."

Longe de demonizar uma prática que aumenta cada dia mais, os especialistas concordam ao apontar as vantagens do sexo virtual. "Detrói tabus e mitos, como o que diz que a masturbação é nociva, e amplia o repertório, ou seja, informa e ensina, por exemplo, novas posturas", assegura Cañamares. Pilar Ortega, do Instituto de Sexologia de Barcelona, acredita que a principal contribuição do sexo virtual é 'fomentar a fantasia e procurar novas formas de lazer, além de funcionar como uma injeção contra a rotina no caso de casais desestimulados."

Para Enirque García Huete, diretor do gabinete Quality Psicólogos, o sexo virtual é também uma via de escape para os mais tímidos e contribui para tornar normais algumas tendências até agora marginalizadas: "Até há pouquíssimo tempo, algumas tendências ou práticas, como os diversos tipos de sadomasoquismo ou a troca de casais, estavam confinadas a cinemas pornô, clubes secretos ou 'peep shows'; agora, tudo o que você pode imaginar está na rede. A internet reúne todas as possibilidades e todas as fantasias, desde os comportamentos mais normais até os desvios."

Sexo "seguro e sem compromisso; anônimo e sem conseqüências (ao contrário do que acontece com freqüência numa traição real, ou num contato físico sem proteção), um mundo cheio de possibilidades sem necessidade de oferecer dados, onde, além do mais, pode-se passar a imagem mais favorável de si mesmo, seja ela real ou não. Essas poderiam ser algumas outras vantagens do sexo virtual, ainda que repousem frequentemente sobre mentiras ou meias verdades que às vezes não são nada além de autoengano.

A lista de inconvenientes do sexo virtual é de modo geral tão grande quanto a das vantagens. "Ele trivializa muito o sexo, pode fazer esquecer que uma relação sexual é uma relação interpessoal. E também cria muitos complexos, por exemplo nos jovens, que se comparam com os atores pornô e o tamanho de seus pênis, ou nas mulheres, que se perguntam por que não alcançam o orgasmo de forma tão rápida e eficaz como as atrizes pornô", conta Esteban Cañamares.

Considerar normal o que se vê nas páginas da internet - "Uma teatralização do sexo", segundo este especialista - pode ser o primeiro passo em direção à frustração ou ao complexo. Para a sexóloga Pilar Ortega, o sexo virtual pode fazer com que, "além de abusar da internet, a pessoa não busque outras alternativas e até mesmo substitua o contato real pelo virtual", ainda que ela lembre que "por falta de tempo ou por comodidade, dá menos trabalho se conectar à internet do que sair por aí telefonando, a maior parte das vezes com resultado incerto". O psicólogo clínico Enrique García Huete assegura que o sexo virtual, ainda que não fomente o voyeurismo, é claramente explícito: "há milhares de páginas explícitas de sexo vulgar, hardcore, ao alcance de qualquer um."

Mas na internet, assim como na vida real, nem tudo é branco e preto. Se por um lado o sexo virtual homologou comportamentos antes vergonhosos, uma de suas principais características, o anonimato, pode se transformar numa desculpa para enganar os outros. Por exemplo, "nos chats por escrito, muitos homens se fazem passar por mulheres para entrar em conversas de lésbicas, porque isso os excita". A identidade falsa adquire categoria de delito quando aquele que se faz passar por quem não é - normalmente, um adulto por adolescente, um homem por uma garota - se introduz em conversas com menores. Esta é uma terra de ninguém, uma área pantanosa que marca a diferença entre o entretenimento e o delito.

Nesse universo de relações tão possíveis quanto fictícias - desde que não se chegue ao encontro físico -, a webcam se configura como o espelho que muitas pessoas, alguns adolescentes inclusive, não hesitam em atravessar. "No ciberespaço, é preciso distinguir entre comportamento passivo, das pessoas que observam páginas ou vídeos pornôs, ou o ativo, daquelas que intervêm e trocam. É o sexo interativo. É o caso dos chats em qualquer de suas modalidades [por escrito ou com imagens em tempo real]", lembra García Huete.

O presidente da associação de defesa de menores Protégeles, Guillermo Cánovas, ressalta o potencial perigoso das webcams. "É incrível o que as pessoas chegam a fazer diante de uma webcam, incluindo os mais jovens. Há menores que veem a webcam com confiança, com segurança, mas é fácil enganar, porque há inúmeros programas que permitem captar imagens e editá-las posteriormente, assim que é fácil fazer montagens em que o produto é uma imagem que não corresponde à realidade."

Mas não é preciso disseminar o pânico. Os comportamentos sexuais desviados ou as patologias relativas ao sexo representam apenas uma porcentagem ínfima dos casos. O resto é normal. Num estudo que é considerado referência sobre o assunto, "Cybersex: The Dark Side of The Force" (Sexo Virtual: O Lado Escuro da Força), o pesquisador norte-americano Al Cooper e seus colaboradores estabeleceram em 2000 as distintas variações do uso da internet com fins sexuais e o grau de dependência segundo a dedicação do usuário. Dentre uma amostra que abarcava 9 mil indivíduos, 46,6% dedicava menos de uma hora por semana a atividades sexuais online, os denominados "usuários recreativos". Cerca de 8,3% eram "usuários de risco": dedicavam 11 horas ou mais por semana a essas atividades. E apenas 1% vivia seu passatempo, ou melhor, seu vício, como uma "interferência grave".

O psiquiatra José María Vázquez-Roel, fundador e diretor da clínica Capistrano de Palma de Mallorca, pioneira no tratamento de vícios, sabe muito sobre o assunto. "Já existem muitos casos de viciados em sexo virtual, ainda que existam também muitos casos ocultos. Muitas vezes estão associados a outras dependências químicas, como a cocaína". Mas, do que estamos falando quando nos referimos a um viciado em sexo virtual? De dependência de internet ou de sexo? "O vício fundamental é o sexo. Como no caso do álcool, onde os homens bebem nos bares e as mulheres em casa, o importante não é o lugar, mas a finalidade, a meta, e nesse caso a meta é o sexo."

O perfil do viciado em sexo virtual não distingue idades, mas "há mais homens, com uma progressão recente de mulheres". O desenvolvimento da dependência segue passos similares ao de outros vícios. "Como no caso do álcool, há uma linha invisível que o sujeito não se dá conta de ter atravessado. O sexo virtual vai preenchendo cada vez mais a vida do indivíduo, que gasta um tempo enorme e interrompe progressivamente suas tarefas até ao ponto de levar uma vida dupla, também com sua família", explica Vázquez-Roel. O vício se diagnostica sempre a posteriori, uma vez ultrapassada esta linha invisível. "Há muitos casos de viciados entre os usuários de páginas de encontros 'hardcore' para contatos sexuais ocasionais", lembra José María Vázquez-Roel.

"O sexo que não tem conotações afetivas, que não implica uma relação pessoal, tem um potencial muito maior de se transformar em vício. E o sexo pela internet é mais perigoso porque não há limites. Quanto mais acessível é uma coisa, mais gente participará", sentencia o diretor da clínica Capistrano. Mas não é preciso se alarmar: entre satisfazer uma fantasia recorrente - "Quem não sonhou alguma vez com a vizinha do 5º andar? Pois na internet há muitas", brinca García Huete - e o vício, que requer tratamento, há um grande espaço de possibilidades, de fantasias. Ou talvez aí esteja a maior fantasia de todas, a rede vista como o espelho do conto de Alice: a atração insondável do outro lado do espelho.

Tradução: Eloise De Vylder

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