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08/09/2009

Gangue retratada em documentário é acusada de assassinar o fotógrafo e cineasta Christian Poveda

El País
Gregorio Belinchón Em Madri
Era um homem direito, um fotojornalista à moda antiga. "Creio no compromisso social que envolve meu trabalho", afirmava. O fotógrafo franco-espanhol Christian Poveda foi assassinado em El Salvador com quatro tiros no rosto na última quarta-feira. Provavelmente sua retidão e seu imenso amor pela profissão foram indutores indiretos do crime.
  • AFP

    O fotógrafo e cineasta franco-espanhol Christian Poveda foi assassinado em El Salvador com quatro tiros no rosto na última quarta-feira, 2 de setembro



Porque Poveda havia passado 30 anos em dezenas de conflitos. Filho de exilados espanhóis - que hoje vivem aposentados em Alicante - e nascido em Argel há 54 anos (alto e forte, parecia muito mais jovem), Poveda se criou nos subúrbios das grandes cidades francesas. "Sei do que falo quando ilustro a criminalidade juvenil", lembrava. Como fotógrafo começou no Saara Ocidental no final dos anos 1970 e não parou: Cuba, a primeira Guerra do Golfo, a Guerra Civil de El Salvador (que depois de 13 anos de combates deixou 75 mil mortos), os conflitos do Líbano, Nicarágua, Guatemala...

Onde houvesse uma notícia, lá estava ele. Publicou em veículos impressos de todo o mundo e de passagem realizou uma dezena de documentários para a televisão: sobre a decadência da luta livre na Bulgária, a luta contra a Aids em Paris, a ascensão da extrema-direita na Europa... "Sua paixão era sua profissão", lembra Anabel Mateo, que levou o comunicado, durante o último Festival de San Sebastián, de "La Vida Loca", o documentário de Poveda sobre Ásia Meridional "maras", os bandos violentos de El Salvador. Seu salto para a tela grande, o documentário que acabou com sua vida. "Também gostava de comer bem e de seus amigos. Quando veio a Madri no ano passado, depois de conversar, pedia que lhe deixasse usar a Internet para se comunicar. Para ele, se era seu amigo era para sempre."

Através do Facebook, dezenas de pessoas souberam de seu falecimento. Em Paris, o mexicano Emilio Maillé e a francesa Carole Solive, produtores de "La Vida Loca", receberam juntos a má notícia. "Christian era muito direito. Discutíamos fortemente durante a produção. Fez o filme que tinha em sua cabeça. Nada o desviou de seu caminho e agora não poderá ver sua estréia aqui, em 30 de setembro", diz Maillé. Segundo Solive, "ele mergulhou nessa luta contra a violência que devorava o país e esperava que o filme ajudasse as futuras gerações".

Poveda voltou a El Salvador em 2003 para retratar 130 integrantes da "mara" La 18 - todos presos - por encomenda da revista "Paris Match". Conviveu com eles durante meses, e esse foi o germe de "La Vida Loca". "Durante 16 meses estabeleci um clima de confiança com os chefes da La 18, sabendo que era um projeto de longo prazo", afirmou na Espanha. Dia a dia os acompanhou com a câmera. Alguns morreram, outros acabaram presos. "Nos bandos se entra com 12 anos e aos 18, no máximo, ou se está morto ou na prisão; são 30 mil em um país de 5,5 milhões de habitantes", comentou o fotógrafo.

"Na realidade são outra exportação americana." As "maras" foram criadas nos anos 1980 nos subúrbios de Los Angeles, entre os filhos de imigrantes salvadorenhos que escaparam da guerra. Segundo Poveda, "quando acabou o conflito os EUA empurraram os salvadorenhos para voltar a seu país, incluindo os criminosos que estavam presos".

Poveda ficou preso em El Salvador. Pelos bandos e porque conheceu sua companheira, a arquiteta Patricia Campos. "Está arrasada", afirma Maillé. "Mas ele sempre deixou claro seu compromisso com o trabalho." E esse pudor o levou na quarta-feira a Soyapango, a cerca de 25 quilômetros da capital, San Salvador. "'La Vida Loca' demorou só três dias para chegar aos postos de DVD piratas da rua Arce, em San Salvador, desde sua transmissão pelo Canal+ Espanha", fala Edgar Romero, outro fotojornalista e organizador, junto com Poveda, do Quarto Festival de Fotografia ESFOTO, que deveria ter sido inaugurado anteontem. "Era vendida a US$ 1 a cópia, e o bando La 18 acrescentou um imposto de US$ 3."

Fizeram correr o rumor de que Poveda estava se beneficiando. "Foi para vê-los e negar isso, defender também o dele, porque era muito cuidadoso com os direitos autorais. E pedir que deixassem um fotógrafo francês da 'Elle' retratar neste domingo as garotas do bando."

Seu cadáver apareceu na quarta feira no povoado de El Rosario, perto de Soyapango, junto a sua caminhonete todo-terreno. O chefe da divisão de investigação de homicídios, Marco Tulio Lima, afirma que possuem provas de que chegou ao lugar acompanhado. "Há marcas de um sapato dos que são utilizados pelos bandos. Uma pessoa desceu do banco traseiro pelo lado direito do veículo."

O chefe policial confirmou a detenção por extorsão de El Puma, um dos chefes de La 18, que na manhã de quinta-feira se dedicava a exigir "um aluguel" das pessoas que se aproximavam do lugar onde foi encontrado o cadáver. "Não descartamos que tenha a ver com o assassinato." Também disse que Poveda frequentava a área "em busca de imagens". Mas seus amigos rejeitam essa teoria. Tanto Romero como Maillé comentam: "Ele foi para mediar, esclarecer as coisas". Romero lembra: "Me disse que sabia que a coisa estava quente. Mas antes de tudo estava sua ética e sua tentativa de salvar as futuras gerações de salvadorenhos". "Sabe o que é uma loucura?", comenta Maillé. "Que acabou como mais um personagem de seu documentário."

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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