UOL Notícias Internacional
 

09/09/2009

Os desafios que Obama tem pela frente

El País
Antonio Caño
Em Washington (EUA)
Cair nas pesquisas quando se está de férias deve ser, em certa medida, um estímulo para a vaidade de um político, que pode ver nessa circunstância uma prova de sua influência imprescindível.

Por que precisamos da reforma do sistema de saúde

Alex Brandon/AP
É disso que trata a reforma. Se você não tem plano de saúde, você finalmente terá opções de custo acessível e de qualidade assim que aprovarmos a reforma. Se você tem plano de saúde, nós asseguraremos que nenhuma seguradora ou burocrata do governo fique entre você e o atendimento que você precisa. Se você gosta de seu médico, você poderá consultar seu médico. Se você gosta do seu plano de saúde, você poderá manter seu plano de saúde. Você não terá que esperar em filas. Não se trata de colocar o governo encarregado do seu plano de saúde. Eu não acredito que ninguém deve ficar encarregado de suas decisões de atendimento de saúde exceto você e seu médico -não burocratas do governo, nem seguradoras

Barack Obama, em artigo no NYT
Foi o que aconteceu com Barack Obama, que se reintegrou nesta terça-feira a seu gabinete perigosamente perto dos 50% de aprovação de sua gestão, depois de ter perdido mais de dez pontos ao longo do verão.

Sua ausência foi aproveitada por seus rivais para uma impiedosa campanha na qual ele foi comparado a Hitler, seu programa de governo foi identificado com o Manifesto Comunista e em todo o país foram semeadas enormes dúvidas, não só sobre sua proposta de reforma da saúde, mas também sobre suas condições como comandante-em-chefe e as intenções finais de sua presidência. O famoso colunista Charles Krauthammer escreve a palavra "presidente" entre aspas, e em alguns atos públicos de extrema-direita se falou abertamente em seu assassinato.

Essa campanha, promovida por figuras de uma oposição republicana muito radicalizada e apoiada em uma base social conservadora majoritária nos EUA, não é, entretanto, a única razão do enfraquecimento de Obama. Mais importantes que isso foram seus próprios erros na hora de explicar alguns de seus projetos e ao escolher a tática mais adequada para promovê-los.

O presidente americano aborda o novo período obrigado a fazer algumas correções em sua política, recuperar a iniciativa e restabelecer a comunicação com os cidadãos. Com esse triplo propósito, falará nesta quarta-feira diante de uma sessão conjunta do Congresso, um ato muito raro em um sistema presidencial como o americano.

Depois de sete meses e meio de uma gestão agitada, na qual Obama enfrentou ao mesmo tempo uma crise econômica, a regeneração da política externa e uma ambiciosa agenda de reformas sociais, sua popularidade começa a se ressentir. Isso nada tem de alarmante nem de surpreendente. Para isso existe a popularidade, para gastá-la governando. Supõe-se que o objetivo de um presidente não seja melhorar nas pesquisas, mas o crédito que pode obter com o sucesso de sua política.

Até agora, Obama foi simplesmente popular. Agora precisa começar a conquistar o reconhecimento por sua gestão. Não estamos diante da queda que os agourentos vinham prevendo desde o primeiro dia. A bola não estourou. Ainda não. Estamos diante de uma duríssima batalha que Obama poderá perder.

Essa batalha é travada fundamentalmente em três frentes: reforma da saúde, Afeganistão e segurança nacional (torturas, CIA e todo o debate ao redor). Curiosamente, embora sempre se tenha dito que a sorte de Obama estaria diretamente ligada à evolução da economia, a paulatina recuperação desta não se traduziu em maior apoio ou tranquilidade para o presidente.

A reforma da saúde é o mais imediato e perigoso campo de combate. Até hoje trata-se de uma briga que Obama está perdendo: 56% da população reprovam a forma como a Casa Branca está conduzindo essa iniciativa, e 60% confessam não ter informação suficiente. Em traços gerais, o que os cidadãos entendem sobre essa reforma é que haverá mais intervenção do Estado, menos liberdade de escolha para os pacientes, que tudo custará mais e a medicina perderá qualidade.

Tentando evitar a todo custo os erros cometidos por Bill Clinton, que elaborou uma gigantesca lei de costas para o Congresso, Obama preferiu deixar toda a iniciativa legislativa para as câmaras, o que se traduziu em confusão sobre o verdadeiro projeto da Casa Branca e lutas internas entre os diferentes grupos de poder no Capitólio.

Em consequência, apesar do evidente fracasso do sistema de saúde neste país (47 milhões de pessoas sem seguro, gastando o dobro do orçamento de qualquer país ocidental), muitos americanos não encontram razões suficientes para embarcar no que lhes parece uma aventura arriscada demais.

O segundo erro de Obama em relação à reforma da saúde é o de sua gestão política. Cheio de boas intenções, o presidente prometeu levá-la adiante de forma bipartidária. Mas evidentemente são precisos dois para dançar o tango, e se nenhum presidente democrata, de Truman até Clinton, encontrou apoio republicano para reformar a saúde, tudo parece indicar que Obama não será exceção.

O afã do bipartidarismo obrigou Obama a uma defesa mais vaga e contraditória de sua iniciativa, sem que por isso tenha diminuído a hostilidade dos adversários. O presidente mantém sua intenção de somar pelo menos alguns congressistas republicanos à lei, atendendo à advertência dos centristas de seu partido sobre as consequências de aprovar de forma unipartidária uma reforma do Estado de semelhante magnitude. Mas outros democratas começam a se impacientar e aconselham Obama a cumprir o mandato de governar, à margem do que pense a oposição. Jean Edward Smith, autor do livro "FDR", lembra que Roosevelt levou adiante quase todo o seu programa do New Deal sem o voto dos republicanos.

Obama prometeu um novo estilo de política em Washington, e o drástico viés ideológico não corresponde com esse estilo. Essa promessa também o mantém semiparalisado diante de um dos assuntos mais delicados desta presidência: a investigação dos abusos cometidos durante o governo de George W. Bush. Obama disse que não quer olhar para trás e deixou que o promotor-geral (ministro da Justiça), Eric Holder, dê os primeiros passos. Mas dificilmente poderá evitar se comprometer nesse problema se a investigação provar o envolvimento de altos funcionários nas torturas.

Por enquanto, o silêncio de Obama está sendo utilizado por seus inimigos para denunciar que o país perdeu segurança desde a troca na Casa Branca. Dick Cheney é o principal defensor dessa causa, aparentemente com tanto êxito que um colunista do "Wall Street Journal" o propôs esta semana como candidato republicano para 2012, e não se escutou nenhum riso nas reuniões da direita.

"Se o tema da segurança se transformar na estrela da campanha de 2012, Cheney poderia ser um bom candidato", afirma Alex Castellano, um analista conservador. A segurança e a guerra, porque assim como Bush ligou seu destino à guerra no Iraque, Obama vê seu futuro cada vez mais vinculado à saída do Afeganistão, onde o apoio da opinião pública diminui no mesmo ritmo em que aumenta o desafio dos taleban.

A presidência de Obama é e sempre será presa das expectativas levantadas por sua vitória. O homem que tiraria o país de uma guerra, mas acelera outra. O transformador obrigado a recorrer aos velhos métodos políticos. O ativista paralisado pelo sentido do Estado. Mas ainda é uma presidência em fase de formação. A meta de Obama, o saneamento moral do país e a modernização de suas estruturas, continua sendo admirável. Neste outono se poderá avançar ou retroceder muito nesse caminho.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    0,38
    3,156
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h22

    0,41
    65.277,38
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host