UOL Notícias Internacional
 

11/09/2009

Obama e o peso da palavra

El País
Lluís Bassets
Diante da dificuldade, a palavra, a arma política por excelência da democracia. A palavra pode servir para mascarar, entreter ou mentir. Sobretudo quando surge verticalmente de uma voz única que não admite resposta. Mas também pode servir para outras tarefas, como explicar, argumentar e convencer, que só ocorrem quando se encontram submetidas ao livre escrutínio e controle dos cidadãos em uma democracia parlamentar ou, como se quer agora, deliberativa. É a palavra como diálogo e conversa democrática, complemento do voto, na qual os dirigentes têm uma responsabilidade especial, proporcional ao alcance e à potência de sua voz.
  • Doug Mills/The New York Times

    Concretizar a reforma do sistema de saúde dos EUA constituirá a prova definitiva dos efeitos dos discursos feitos pelo presidente Barack Obama



Cada vez que Barack Obama se encontrou em uma circunstância comprometida recorreu à palavra. Já ocorreu durante sua campanha eleitoral e foi isso que fez ontem com seu discurso dedicado à reforma do sistema de saúde, para o qual escolheu a fórmula solene e singular de dirigir-se às duas câmaras, Congresso e Senado, em sessão especial, como só se faz obrigatoriamente uma vez por ano, para o discurso do Estado da União.

A ocasião merece: a aposta é provavelmente a de maior peso específico de seu programa eleitoral, pelo menos em política interna, e a que deixará maior marca em sua presidência. Os cem dias de graça já vão longe, as pesquisas registram uma queda de popularidade em velocidade vertiginosa e, para completar, seu projeto de reforma se transformou em arma de recrutamento da oposição republicana, angustiada e desorientada desde sua derrota nas urnas. A reforma enerva os reflexos mais conservadores e individualistas dos americanos de todo costado, que desconfiam por princípio da intervenção do governo e preferem em princípio resolver individualmente seus assuntos de saúde e dinheiro.

Obama não quer somente conseguir a contorção improvável de construir um sistema de saúde que não deixe quase 50 milhões de cidadãos sem cobertura, mas quer fazê-lo reduzindo em longo prazo seu alto custo. Essa dificuldade, em vez de atrair apoios, contribui para a desconfiança, assim como a complexidade das fórmulas contribui para a incompreensão. Os instintos libertários tão arraigados levam a uma conclusão apática: é melhor ficar como estamos.

Obama cometeu falhas evidentes na apresentação de sua reforma. Deixou margem demais para o Congresso e quis que fosse por consenso bipartidário. Sua falta de decisão e de definição foi aproveitada pela extrema-direita, que encontrou o campo aberto para relançar seus agitadores à mobilização, recorrendo à falsificação e à mentira com incrível soltura. A mídia, sobretudo a ultraconservadora, se encheu de engodos como o de que a reforma promove o aborto, a eutanásia e painéis da morte onde se decidirá se anciãos e incapacitados têm direito a continuar vivendo. O aperitivo para o discurso de ontem foi a campanha na qual os conservadores discutiram o direito do presidente americano de se dirigir aos estudantes de seu país para os estimular na aplicação e no estudo.

A chegada de Obama à Casa Branca significa um momento excepcional na recente história dos EUA. Também o foi sua posse na presidência e seus primeiros meses até chegar à atual encruzilhada. Mas não bastam uma campanha eleitoral e um presidente excepcionais para fazer uma presidência excepcional, que também exige resultados excepcionais. Em muitos casos, o único que se pode conseguir é uma mera gestão razoável dos problemas, mais que sua resolução milagrosa. Os problemas não desaparecem, mas se transformam, e o que deve fazer um governante é mantê-los sob controle e implementar estratégias para sua solução. Parte dessas estratégias tem a ver com sua capacidade de persuasão e inclusive encantamento para manter viva a atenção dos cidadãos e sua adesão ao esforço de mudança. Mas há outra, sem dúvida, que exige resultados tangíveis, mesmo que sejam moderados.

"Meu problema", disse Obama a Ted Kennedy antes de entrar na campanha, "é a falta de 'gravitas'." "Gravitas" é uma virtude latina que tem a ver com o sentido do dever e da dignidade, e que é aparentada à credibilidade. As palavras de quem goza dessa virtude têm peso, comprometem, produzem resultados. Obama já os obteve em abundância, começando pela modelagem da opinião pública na campanha e terminando por suas incursões em política internacional ou em direitos humanos. Mas agora deve concretizar muito mais com a reforma do sistema de saúde, que constituirá a prova definitiva dos efeitos de seus discursos, isto é, do peso de sua palavra.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    -0,31
    3,266
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h20

    1,60
    62.662,48
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host