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15/09/2009

Alemanha enfrenta a decadência dos grandes partidos

El País
Juan Gómez Em Berlim
No final de agosto, quando a campanha eleitoral alemã ainda estava espreguiçando, saltou a notícia de que a chanceler Angela Merkel tinha dado, na própria Chancelaria, uma recepção de aniversário para o banqueiro Josef Ackermann. Exatamente o multimilionário suíço e presidente do maior banco da Alemanha, o Deutsche Bank, um dos executivos mais impopulares do país, comemorou no ano da crise seus 60 anos rodeado pela elite política e empresarial do país, na Chancelaria. O Schnitzel e os aspargos foram pagos pelo contribuinte, a fatura política da notícia correu por conta de Merkel.
  • Michael Dalder/Reuters

    O impulso eleitoral de Merkel se mantém, mas seu partido sofreu graves reveses em Sarre e Turíngia



No entanto, apesar da crise e dos temores econômicos dos cidadãos, o caso deu apenas para alguns artigos de opinião na imprensa alemã. O pretenso escândalo não ocorreu e os social-democratas do candidato Frank-Walter Steinmeier (SPD) não insistiram. A crise e os temores econômicos da população não estão desempenhando um papel chave na campanha para as eleições de 27 de setembro.

A União Democrata Cristã (CDU), favorita nas pesquisas, enfrenta o mesmo problema que seu rival e parceiro de grande coalizão, o Partido Social-Democrata (SPD). A ascensão dos pequenos partidos, a Esquerda, os Verdes e os liberais do FDP, parece incontável e apenas exige proezas como a que protagonizou Barack Obama nas presidenciais dos EUA.

Até os anos 1980, os dois grandes partidos recebiam juntos mais de 80% dos votos, e entre eles estava só o FDP. Este ano, CDU e SPD poderiam não alcançar 60%, segundo indicam as pesquisas.

O impulso eleitoral de Merkel se mantém, mas seu partido sofreu dramáticos reveses nos recentes pleitos no Sarre e na Turíngia. Os democratas-cristãos perderam duas maiorias absolutas, respectivamente 13 e 12 pontos.

O SPD, por sua vez, comemora como uma vitória ter contido seu desmoronamento eleitoral nos dois estados federados, onde agora se esforça para formar uniões tripartites com os Verdes e a Esquerda. Esses resultados indicam que a preponderância dos dois grandes "partidos populares", SPD e CDU, está entoando seu canto de cisne.

Os graves problemas econômicos da Alemanha não se cristalizaram por enquanto em demissões maciças. A contenção governamental e a união demonstrada por CDU e SPD quando o sistema financeiro mundial parecia explodir ficaram como mérito de Merkel.

A "limitação" de que o semanário "Der Spiegel" acusou a chanceler em novembro, ou a "passividade diante da crise" que percebiam alguns meios econômicos, tornaram-se elogios a sua prudência. A surpresa econômica do verão foram os dados do segundo semestre de 2009. O PIB alemão registrou um crescimento de 0,3%.

Depois de ter vencido o SPD por apenas um ponto nas eleições gerais de 2005, Angela Merkel não conseguiu esconder seu espanto diante de milhões de telespectadores. Esperava um resultado muito melhor. Nesses quatro anos como chanceler, Merkel conseguiu que sua limitada agilidade midiática fosse vista como imperturbabilidade e coerência. A retomada econômica, depois das críticas de 2008, contribui para essa imagem e a popularidade da chanceler.

No entanto, com a crise aparentemente domesticada e à espera de seu previsível impacto no mercado de trabalho, os eleitores parecem ter mudado de preocupações. Se a recessão financeira pôde ser contida, agora fica o medo de muitos de perder o trabalho e de que continuem os cortes sociais, em consequência do enorme gasto público em programas de reativação econômica e financeira.

Aqui pontua a Esquerda, que, além disso, conta com apoios tradicionalmente altos nos cinco estados federados que foram a antiga Alemanha Oriental (República Democrática). A Esquerda nasceu em 2007 da fusão dos ex-comunistas do leste com os dissidentes social-democratas do entorno de Oskar Lafontaine no oeste.

Antes da irrupção da Esquerda, que entrou no Parlamento de Hesse em 2008, houve a ascensão política dos Verdes, que exatamente em Hesse colocaram Joschka Fischer no Ministério do Meio Ambiente em 1985. Nos anos 90, os Verdes pareciam prestes a acabar com os liberais. Dizia-se que não havia espaço político para um quarto partido.

Os Verdes foram há anos um partido contestador e ecopacifista. Hoje contam com o apoio dos mais jovens e de eleitores de classe média universitária. Sete anos de governo com o chanceler Gerhard Schröder (1998- 2005), com várias intervenções militares e bombardeios, privaram o partido de qualquer aura rebelde ou pacifista. Também removeram a desconfiança dos acomodados. O grosso da clientela política dos liberais tem um nível educacional semelhante, mas menos preocupações ambientais. Segundo os analistas, o problema de ambos é que estes são eleitores voláteis e exigentes, mais dispostos a mudar seu voto que os demais.

Gregor Gysi, tribuno da Esquerda, indicou no último plenário da legislatura qual é o problema de CDU e SPD diante da população: "Neste Bundestag [câmara baixa do Parlamento] há na realidade um purê de consenso". A convivência nos Conselhos de Ministros e a união dos dois grandes partidos diante da crise, somadas à lógica fraqueza de uma oposição formada só por partidos pequenos, tornou inconsistentes os perfis políticos de CDU e SPD.

Os grandes partidos discordam em dois pontos fundamentais. Um é o fechamento das centrais nucleares, pactuado por Verdes e social-democratas em 2002 e que Merkel quer adiar. Outro, a adoção de um salário mínimo defendida pelo SPD.

Merkel se aferrou a sua partitura de sucesso durante a campanha. Deixa que seus barões arremetam contra os social-democratas e sacudam a oposição e se reserva as notas amáveis do pentagrama. Para o Bundestag, as pesquisas continuam dando maioria à dupla CDU-FDP, embora justa. Caso não a alcance, é provável uma segunda parte da grande coalizão. Os três partidos pequenos voltariam a ficar sem participar do governo, mas continuariam ganhando apoios durante mais quatro anos.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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