UOL Notícias Internacional
 

16/09/2009

A história de Emilia, uma criança da guerra civil espanhola refugiada na Sibéria

El País
Pilar Bonet
Em Chita, na Sibéria Oriental, a mais de 6 mil quilômetros de Moscou, vive Emilia Falcón. Tem 79 anos e chegou ao que era então a União Soviética em 1937, entre as crianças evacuadas da guerra civil espanhola. Das quase 3 mil "crianças da guerra" refugiadas na URSS, hoje restam na Rússia menos de 170. Delas, Emilia é a que mora mais longe de seu país natal, em uma região que foi destino tradicional de exilados e presos.

Nascida em Gijón (Astúrias, norte da Espanha) em 1930, Emilia chegou a Chita em 2001 vinda do Usbequistão. Esse êxodo - o terceiro - se acumulou ao da guerra civil e ao da Segunda Guerra Mundial, e foi consequência da desintegração da URSS, já que quando esse Estado desapareceu a asturiana vivia em Samarcanda, e essa circunstância a transformou de "cidadã soviética" em "cidadã usbeque". Ao ver reduzidas as perspectivas de futuro para os filhos e netos, a família decidiu se transferir para a Rússia. Leonid, o genro de Emilia, encontrou trabalho em uma gráfica de Chita e para lá foram.

Emilia, sua filha Dolores, seu genro e duas netas, Ana María e Lolita, residem em uma modesta casa. Ignacio e Victor, os outros dois filhos de Emilia, estão em Krasnoyarsk (Sibéria) e Samarcanda, respectivamente, e seus sobrenomes - Telechea Falcón - evidenciam sua origem como descendentes das "crianças da guerra", a asturiana Emilia Falcón Díez e o basco Ignacio Telechea Lama.

Emilia é o centro e em grande medida o sustentáculo material da família em Chita. Como às outras "crianças da guerra", o governo espanhol manda uma pensão, no seu caso cerca de 600 euros mensais. A família luta para sobreviver. Para emigrar do Usbequistão, tiveram de vender por US$ 1.500 um apartamento em Samarcanda, o dinheiro indispensável para se transferir e comprar roupas para o frio siberiano.

A avó Falcón tem olhos vivos e aspecto de criança travessa. "Chegamos de barco a Leningrado em 1937. Fui com minha irmã gêmea, Petronila. Da minha infância em Gijón, lembro do alarme. Quando tocava, nos refugiávamos no porão. Uma vez uma bomba matou uma mulher com uma menina. Ainda posso encontrar esse lugar." Voltou a ver sua mãe em uma viagem à Espanha em 1972. Sua inseparável irmã Petronila voltou a Astúrias depois da morte de Stálin, lá se casou, teve filhos e morreu.

Leningrado é uma imagem viva em sua memória. "Nos levaram ao banho e nos deram cuecas, e nos negamos a vesti-las dizendo que não éramos rapazes, mas meninas. Então nossas educadoras levantaram a saia e nos mostraram que elas também as usavam." A Segunda Guerra Mundial surpreendeu Emilia e Petronila em um orfanato nos arredores de Moscou. Dali foram evacuadas pelo Volga até Stalingrado. Ela lembra disso como uma viagem de quase um mês, em barcos que encalhavam e era preciso rebocá-los. A fome era tal que inclusive tentavam esconder a disenteria que sofriam, por medo de ver reduzida sua ração de comida.

"Em Stalingrado, saíamos para a estepe para caçar roedores e os levávamos para a cantina onde os cozinhavam para nós. Alimentavam-se de trigo, por isso não tinham sabor ruim." De Stalingrado, em 1942, saíram para Birsk, no Bachcorcostão, desta vez amontoados em trens de mercadorias, que eram bombardeados e se demoravam em vias mortas para deixar passar os comboios militares rumo à frente. "Em Birsk não esperavam tantas crianças. Devíamos ser cerca de 500. Muitas morreram de fome e de frio. A tuberculose era uma coisa horrível", afirma. "Petronila e eu tínhamos só um casaco. Ela o vestia para ir à escola de manhã e eu, à tarde. Eu tricotava meias que depois vendia ou trocava por comida."

Em 1944 Emilia voltou à região de Moscou, onde como aprendiz de tecelã ajudou a confeccionar uma "jaqueta branca de seda" para Stálin. Em Moscou conheceu Ignacio Telechea, o filho de um comunista de Bilbao. Apaixonaram-se. Emilia tinha 17 anos quando nasceu seu primeiro filho. Com ele, Ignacio e Emilia foram para Samarcanda, onde Telechea foi engenheiro em uma fábrica.

Um dia em 1962 "Ignacio foi para o trabalho de manhã e não voltou. Nunca mais o vi". Telechea abandonou a família, documentos e emprego por uma mulher que seguiu até Nukus, junto ao mar de Aral. Morreu em 1994. "Foi muito difícil criar três filhos...", explica Emilia.

Em uma grande sacola, Emilia guarda as cartas em papel de seda de sua mãe, o passaporte usbeque que substituiu o soviético e também o passaporte espanhol, que recuperou em 2002. Sua língua natal flui novamente de seus lábios no jantar, ao qual chega atrasada a neta Anita, que estuda chinês na universidade e vem da biblioteca.

Em Chita, a família Falcón sente a crise econômica. Seus concidadãos na Sibéria são os russos que voltaram da Ásia Central, com os quais se reúnem para comer "plov" (prato de arroz) e evocar uma natureza mais benigna. A Espanha está na sacola das recordações, na pensão pontual, nas cédulas para votar que vêm pelo correio e também nas palavras que remetem a uma infância bruscamente interrompida: "chavales", "párvulos", "bomba", "refugio", "calle Padilla, 26, de Gijón".

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    -0,54
    3,265
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h20

    1,36
    64.085,41
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host