UOL Notícias Internacional
 

20/09/2009

"El País" entrevistou os prisioneiros do regime chavista

El País
Maye Primera
A última vez que Hugo Chávez e Raúl Isaías Baduel se falaram foi em 17 de julho de 2007, dia em que Baduel entregou seu mandato no Ministério da Defesa da Venezuela e, ao mesmo tempo, transformou-se num traidor para o governo. Passado o momento do protocolo, e depois de um discurso de despedida em que o general criticou o capitalismo de Estado e recordou o fracasso do socialismo real, Chávez colocou o braço sobre os ombros de Baduel e, com um meio sorriso, fez uma piada: "Agora que você vai ter bastante tempo, imagino que vai visitar seus latifúndios".

Ele disse "latifúndios", essa invenção burguesa contra a qual sua revolução havia declarado guerra. "Que latifúndios?", perguntou-se Baduel. Duas semanas mais tarde, quando começaram a investigá-lo por suposta posse de terras, apartamentos e carros que nem em mil anos ele poderia ter comprado com seu salário de ministro, o general compreendeu que a frase de Chávez havia sido uma ameaça velada. "Enriquecimento ilícito" é uma das três acusações que a promotoria militar fez contra ele em abril de 2009 e pelas quais ele está preso há cinco meses.

Até aquele 17 de julho de 2007, Chávez chamava Baduel carinhosamente de Papa. Não está claro se era em honra à amizade de mais de vinte anos que os unia, ou por causa dos ares místicos de Baduel, um general que se declara católico com um toque de taoísta, leitor da Cabala e que se despede em suas cartas e discursos sempre com a mesma frase: "Que Javé, Elohim dos Exércitos, Supremo fazedor de todas as coisas, abençoe e guarde para sempre a República Bolivariana da Venezuela". Conhecido por ter sido um dos quatro militares que em 1982 jurou com Chávez "não descansar" até instituir na Venezuela "uma democracia a favor dos mais pobres", e por haver restituído Chávez ao poder em 11 de abril de 2002, quando uma tentativa de golpe pretendeu derrubá-lo. "Fui sequestrado", afirma. "Eu estava no meu carro, com minha mulher, quando fui fechado por vários veículos. Vários homens sem identificação desceram e nos apontaram revólveres engatilhados para a cabeça. Diante do risco, não opus resistência. No dia seguinte fui apresentado ao tribunal que decidiu a minha prisão."

Baduel divide hoje uma cela do Centro Nacional de Processados Militares com outros dois oficiais que também fizeram parte do alto comando militar de Hugo Chávez: o general de divisão Wilfredo Barroso e o almirante Carlos Millán Millán, acusados há um ano por "magnicídio" [assassinato de pessoa muito importante] e depois por "rebelião militar"; eles são os únicos presos por esse delito, embora o governo venezuelano tenha denunciado 28 supostas tentativas de golpe de Estado e magnicídio em dez anos.

A cela que eles compartilham, a primeira à esquerda no terceiro andar do edifício, é chamada de "cela dos generais". Trata-se de um quarto, cozinha e sala de estar de cerca de 50 metros quadrados. Na extrema-direita há um chuveiro, um par de vasos sanitários e duas pias com goteiras, nas quais uma placa se alterna a cada semana: "Quebrado. Não utilizar."

"Eles foram reformando todas as celas, mas deixaram esta para o final" - queixa-se um dos generais.

A cama da esquerda e a biblioteca composta por "The Third Jesus", de Deepak Chopra; a Bíblia, um volume dos ensinamentos de João Paulo 2º e um exemplar de "Os Tolos Morrem Antes", de Mario Puzzo, são de Raúl Isaías Baduel: 55 anos, ministro da Defesa entre 2006 e 2007, o homem que resgatou Hugo Chávez da ilha para onde os golpistas haviam-no levado em 11 de abril de 2002 e o devolveu ao poder 48 horas depois. Também é de Baduel o aparelho de CD, com o qual ele ouve cantos gregorianos.

A cama ao fundo, com três estatuetas da Virgem sobre o pequeno armário e uma imagem de Jesus de Nazaré pendurada na parede são do almirante Carlos Millán Millán: 54 anos e até três anos atrás chefe do Estado Maior Conjunto e segundo em importância no Ministério de Defesa.

"Nós três somos católicos. Durante o dia nos dedicamos à leitura, às práticas religiosas, a comentar a situação interna do país e a fazer exercícios para ficar em forma. Perdi 18 quilos desde que cheguei aqui e estou melhor do que nunca" - disse Carlos Millán Millán, enquanto tocava seu abdômen.

O aparelho de fazer exercícios é do general Wilfredo de Jesús Barroso, deitado na cama da direita, lendo "El Zohar", o livro fundamental da Cabala: até 2004, chefe do Estado Maior da Guarda Nacional, o corpo militar com mais presença no país antes que Chávez ordenasse a criação da milícia bolivariana de reservistas.

"Aqui não temos privilégios nem exigimos privilégios. O tratamento sempre foi respeitoso, exceto pela invasão de 1º de setembro."

Ele se refere ao dia em que o coronel Pablo Rodríguez, diretor de contrainteligência da Direção de Inteligência Militar (DIM), deu a ordem de "pôr abaixo a cela dos generais". Seus oficiais jogaram no chão tudo o que encontraram pelo caminho, confiscaram os armários, as camas. Buscavam um telefone celular. Sobre a estante maior na parede, à vista de todos, há facas de cozinha de todos os fios e tamanhos, aos quais eles não deram a mínima importância. Para a contrainteligência, é mais perigoso que os generais tenham um telefone celular.

Carlos Millán Millán e Wilfredo Barroso se encontravam em situação de retiro, sem comando de tropas, quando viram pela televisão a notícia de que eram coautores de um plano para assassinar Hugo Chávez. Em 10 de setembro de 2008, o programa de opinião "La Hojilla", transmitido pelo canal do Estado, divulgou várias gravações telefônicas nas quais se escuta um suposto grupo de oficiais tramar a estratégia para derrubar o chefe de Estado. Duas dessas vozes, segundo o comentarista, correspondiam a Barroso e Millán. No dia seguinte, ambos se apresentaram à Promotoria Militar para saber quais eram as acusações contra eles.

"Fomos à promotoria acreditando no sistema judicial e também porque quem não deve, não teme" - explicou Carlos Millán. Mas, pelo contrário, no nosso caso violaram todos os procedimentos estabelecidos na Constituição e no Código de Justiça Militar. Acusaram-nos primeiro de magnicídio, e não há nenhum morto. Depois nos acusaram de instigar a rebelião, e não há rebeldes.

Os advogados de Millán e Barroso sustentam que as gravações pelas quais são acusados são uma montagem: fragmentos de conversas telefônicas, toscamente editadas, que transcritas, dizem o seguinte:

Voz atribuída a Wilfredo Barroso: "Aqui o objetivo é um só... vamos tomar o Palácio de Miraflores... vamos tomar as estações de televisão... Ok, o objetivo tem que ser um só... ou seja, todo o esforço onde está o senhor... sim, está em Miraflores, é para lá todo o esforço."

Voz atribuída a Carlos Millán Millán, que responde à pergunta de um interlocutor desconhecido sobre se é possível tomar o Comando Geral da Armada: "Sim, o comandante do quartel... Não, preste atenção, no caso de uma emergência, que você saiba que estão assaltando o comando, tem que esperar que chegue o [batalhão] Bolívar com as unidades para lhe dar apoio e o Bolívar nesse caso está do nosso lado."

Voz de um terceiro conspirador, atribuída ao major Elímenes Labarca, retirado da Aeronáutica desde 1999 e detido no segundo andar da mesma prisão que Barroso e Millán: "Uma das ações que poderiam ser tomadas é roubá-lo [o avião presidencial de Hugo Chávez]... capturá-lo com aviões no ar."

"Quando ordenaram nossa prisão" - argumenta Barroso em sua defesa -, "fazia dois anos que eu não visitava uma instalação militar. A DIM interrogou a todos os comandantes de unidades, tentando buscar uma conexão entre nós e oficiais da ativa, e não encontrou nada. As únicas testemunhas que a promotoria apresentou foram zeladores, vigilantes e idosas."

"Temos um aparato de inteligência e contrainteligência muito eficaz. Sabíamos das denúncias, mas a verdade verdadeira é que só soubemos dos detalhes quando ele [o comentarista da Venezoelana de Televisión] os tornou públicos", foi a única coisa que o general Jesús González González, chefe do Comando Estratégico Operacional e segundo homem mais importante do Ministério da Defesa, disse sobre as gravações. Depois, uma comissão de deputados do Partido Socialista Unido da Venezuela acrescentou ao processo fotografias de avenidas pelas quais Hugo Chávez transitaria, supostamente retiradas de um computador confiscado de Barroso; um vídeo de um F-16 em voo e a imagem de um lança-foguetes AT-4 com o qual o avião presidencial seria derrubado; o mesmo modelo de lança-foguetes confiscados da guerrilha das Forças Revolucionárias da Colômbia (Farc), que pertenciam à Venezuela e que, segundo o presidente Chávez, são sucata militar.

Em um ano, Barroso e Millán não foram levados a julgamento. As audiências em tribunal foram suspensas por três vezes, com três desculpas diferentes: porque o defensor público de um dos acusados havia renunciado; porque o julgamento havia sido convocado por engano para um feriado, e porque não há julgamentos durante as férias judiciais. Se ainda não foram condenados, quando é que sairão? Barroso responde: "Os presos políticos têm data de entrada na prisão, mas não têm data de saída."

O prédio, construído em cima de uma colina repleta de eucaliptos, a 30 quilômetros de Caracas, foi preparado em 1992 como prisão militar para recolher o tenente-coronel Hugo Chávez Frias e os oficiais que o acompanharam no falido golpe de 2 de fevereiro daquele ano contra o governo de Carlos Andrés Pérez (por fim, Chávez ficou detido numa cela para presos comuns). Desde que ocupa a presidência da República, Chávez utiliza essa prisão para encarcerar inimigos políticos e antigos companheiros de armas que enfrentaram seu governo.

E já passaram pelas mesmas celas o general Francisco Usón, ex-ministro de Finanças do governo de Chávez, condenado em 2004 a cinco anos e meio de prisão pelo delito de "ultraje às Forças Armadas", em liberdade condicioinal desde 2007; o ex-presidente da Confederação de Trabalhadores da Venezuela, Carlos Ortega, condenado em 2005 a 15 anos de prisão por promover a greve petroleira de dezembro de 2002 contra o governo, e agora foragido; o capitão Otto Gebauer, condenado em 2007 a 12 anos, seis meses e 12 horas de prisão por "insubordinação militar" e "privação ilegítima da liberdade do presidente Hugo Chávez" em grau de cumplicidade (cometidos em 11 de abril de 2002). E o autor material e intelectual do delito que é imputado a Gebauer, o coronel Luis Beltrán Vahamonde Rojas, condenado a três anos e dois meses de prisão, e colocado em liberdade ao cumprir um terço da pena.

O capitão Gebauer é o único militar que continua atrás das grades pelo golpe de Estado de 11 de abril de 2002. Ocupa uma das celas situadas em frente à dos generais. Ele se dá bem com Barroso e com Millán. Mas não fala com Baduel. Gebauer foi o oficial que assumiu a custódia de Hugo Chávez, como presidente deposto, desde a madrugada de 11 de abril de 2002 até a noite de 13 de abril, quando Chávez foi restituído à presidência com a ajuda de Baduel. Gebauer é conhecido por ser o homem que viu Hugo Chávez chorar.

"Minha missão era evitar que o pessoal subalterno observasse Chávez nas condições deploráveis nas quais estava: debilitado, inchado de tanto chorar, um presidente deposto indo embora da Venezuela para Cuba. Tratou-se de criar uma imagem irreal da atuação de Chávez em 11 de abril. Mas que não venham dizer para mim, que o vi, que Chávez estava disposto a se sacrificar pelo povo da Venezuela."

Já que compartilham a mesma cela, não sentiu curiosidade de conversar com o general Baduel sobre as versões que têm do 11 de abril? "A verdade é que não. Não tenho tido tempo para isso."

Gebauer não confia em Baduel. Assim como boa parte da oposição política venezuelana, que sustenta que todo o processo contra ele e os generais Barroso e Millán serviu para distrair a atenção antes do referendo constitucional de dezembro de 2007, no qual se votou a possibilidade de reeleição indefinida de Chávez.

"Foi dito que nosso caso foi uma montagem. Que éramos chavistas, quando nunca o fomos, quando ascendemos a generais por méritos e tempo de serviço. Por isso ninguém fala de nós" - queixa-se Barroso.

Os nomes de Baduel, Barroso e Millán raramente são incluídos na lista de presos políticos venezuelanos. Seus antigos companheiros de armas mandam dizer através de suas mulheres que se lembram deles, mas tampouco vão visitá-los por medo de represálias. Esta é a sequela do sistema de delações que, segundo os generais, Chávez semeou na Força Armada Nacional. A lei de "todos contra todos", que funciona dentro e fora dos quartéis da Venezuela.

Tradução: Eloise De Vylder

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h58

    -0,27
    3,252
    Outras moedas
  • Bovespa

    18h23

    1,58
    74.594,62
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host