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21/09/2009

Caso Natascha Kampusch: jovem que ficou oito anos presa revela novos detalhes sobre seu sequestrador

El País
Lola Galán
Natascha Kampusch vive reclusa mais uma vez. Com 21 anos completos, a jovem que comoveu o mundo com seu reaparecimento em agosto de 2006, depois de um seqüestro de oito anos, quase não sai na rua.

Sua prisão atual não é um buraco sem luz natural, mas um confortável apartamento no centro de Viena. Entre essas quatro paredes ela vive sozinha, entregue às suas duas novas paixões: os cactus e a fotografia.

A jovem de cabelos ruivos e olhos azuis brilhantes que deslumbrou o público com sua inteligência e a fluidez de seu relato assustador, que chegou a ter um programa próprio na televisão local, que há apenas um ano buscava vias de acesso à família real espanhola para conseguir apoio para uma fundação beneficente, vive num ostracismo voluntário.

Não sai sozinha na rua porque as pessoas a reconhecem e nem sempre têm coisas amáveis a dizer. Muitos a censuram por ter enriquecido com seu drama, que faz tempo deixou de comovê-las. "Vivo como um eremita, tenho ataques de ansiedade", declarou no mês passado ao jornal alemão Süddeutsche Zeitung.

Suas tentativas de virar a página, de levar uma vida mais privada, agora que seu estrelato televisivo ficou para trás, chocam-se de frente contra a realidade: o caso Kampusch, fechado pela polícia em 2007, continua na verdade aberto.

A história de seu sequestro e de sua corajosa fuga, depois de um calvário de oito anos trancada no sótão da casa de Wolfgang Priklopil, um homem de 44 anos que se suicidou ao comprovar que sua vítima havia fugido, volta cruzar seu caminho todos os dias.

Como acontece sempre nos casos que recebem enorme atenção da mídia, a versão oficial dos fatos, que ela mesma ofereceu poucos dias depois de fugir, não convenceu a todos.

Até o relato de sua fuga, sua corrida enlouquecida para a casa de uma vizinha, aproveitando uma distração de Priklopil, foi contestada. Supostas testemunhas contaram que a viram descer de um carro, nos arredores de Viena, antes de se dirigir a uma delegacia.

Os jornalistas se lançaram a uma investigação paralela e encontraram pontas soltas e lapsos surpreendentes no relato de Kampusch sobre sua vida com "o monstro".

A revista alemã Stern averiguou que Natascha e seu sequestrador passaram, inclusive, férias juntos nos Alpes, e uma ex-vizinha da mãe dela, Anneliese Glaser, declarou a um jornal que Brigitta Sirny-Kampusch já conhecia Priklopil antes do seqüestro da garota.

As dúvidas sobre Natascha, o constante escrutínio de seus atos, procediam até agora dos meios de comunicação, sempre famintos por escândalos, mas a situação está mudando.

Quem agora se dispõe a investigar cada detalhe de seu relato é uma equipe do escritório de investigação federal, sob as ordens do fiscal da cidade de Graz, Thomas Muehlbacher, encarregado pelo Ministério do Interior austríaco da tarefa titânica de resolver todas as dúvidas do caso.

"O primeiro que temos que fazer é repassar a fundo as provas acumuladas sobre o caso e, a partir daí, interrogar as pessoas necessárias. Veremos se Kampusch é uma delas", explicou Muehlbacher de forma evasiva numa mensagem de e-mail.

O fiscal está disposto a encaixar todas as peças do quebra-cabeça em que se transformou o caso Kampusch.

O que aconteceu nesses três anos para que a angelical Natascha e sua versão dos fatos tenham caído em contradição? "Natascha Kampusch não contou tudo o que sabe.

E a polícia, talvez porque ela era uma vítima, por temer prejudicar seu estado mental, não a interrogou adequadamente, nem a colocou diante das contradições de seu relato", explicou numa conversa telefônica desde seu escritório, na sede da presidência da República austríaca, Ludwig Adamovich, ex-presidente do tribunal que dirige desde fevereiro do ano passado uma comissão parlamentar que pediu a reabertura do caso.

Adamovich tem uma lista de perguntas sem respostas que deveriam ser apresentadas a Natascha. "O esconderijo onde ela viveu reclusa ainda não estava preparado quando Priklopil a sequestrou.

Não faz sentido que ele tivesse preparado o sequestro meticulosamente, como foi dito, sem que tivesse o esconderijo pronto.

Além disso, a tese de que o homem atuou sozinho é cada vez menos plausível." Para não falar do mistério das relações entre Natascha e seu sequestrador.

Sabe-se que Priklopil comprava livros para ela - Natascha estava por dentro do sucesso da saga de Harry Potter sem sair de seu cativeiro -, e ela tinha acesso aos jornais, ao rádio e à televisão, e os dois até mesmo viajavam juntos.

A própria Natascha, em seu primeiro contato com a imprensa depois de sua fuga, numa carta lida por seu psiquiatra, Max Friedrich, declarava, referindo-se a Priklopil:

"Ele foi parte da minha vida. Por isso, de alguma maneira, sua morte me entristece.

É certo que minha juventude é diferente da dos outros, mas, a princípio, não tenho a sensação de ter perdido nada." E acrescentou: "sua mãe e eu pensamos nele". Nada extraordinário para os psiquiatras, porque Natascha era uma vítima clara da síndrome de Estocolmo.

Afinal de contas, seu sequestrador havia sido durante oito anos cruciais a única figura humana de sua vida. Mas talvez houvesse algo mais. Natascha, que não teve nenhuma pressa em se reunir com seus pais depois de oito anos de cativeiro, chorou amargamente ao saber do final de Priklopil e quis identificar seu cadáver.

Uma atitude que torna plausível o testemunho de Ernst Holzapfelt, amigo e sócio de Priklopil no ramo de construção, que assegurou à polícia que este foi à sua casa com Natascha um mês antes da fuga da garota.

"Ele a apresentou como uma amiga, embora não tivesse dito seu nome. Ela me cumprimentou com naturalidade, parecia contente".

Será que Wolfgang Priklopil, técnico eletrônico, ex-funcionário da multinacional Siemens, era um desses pervertidos que atua sozinho, ou teria contatos com as redes de pedofilia de Viena, como insinuou o próprio ex-juiz Adamovich?

"Nós não temos certeza, nem conclusões a oferecer, apenas suposições, hipóteses. A única coisa realmente importante para fins judiciais é provar se este homem atuou sozinho ou não", responde Adamovich.

A pergunta que faz o ex-juiz poderia ter sido resolvida em 2 de março de 1998, quando Natascha, que tinha então dez anos, foi sequestrada na rua, perto de sua casa, num subúrbio de Viena.

Uma colega de 12 anos, que caminhava atrás dela e viu o que aconteceu, declarou que dois homens levaram a menina num furgão Mercedes branco. A polícia interrogou os donos de 800 mil veículos desse tipo registrados no país, entre eles Priklopil, mas não se deu ao trabalho de entrar na casa em Strasshof, a cerca de 25 quilômetros ao norte de Viena, onde ele mantinha a menina em cativeiro.

Por fim, quando Natascha conseguiu fugir, e ficou claro que Priklopil era culpado, o ex-responsável da polícia federal (BK), Herwig Haidinger, acusou os políticos de terem pressionado os investigadores para fechar o caso às pressas, às custas de enterrar provas conclusivas contra Priklopil. E talvez, contra seu misterioso cúmplice.

Tanto no momento do sequestro como no do reaparecimento de Natascha, oito anos depois, teve início uma onda de especulações que ligavam o caso a redes de pedofilia em Viena.

Em outubro de 2006, a imprensa falou da suposta existência de vídeos e gravações sadomasoquistas realizadas por Priklopil com a menina como protagonista.

A polícia confiscou vários computadores na casa de Ernst Holzapfelt, o ex-sócio de Priklopil, mas a pista não resultou em nenhuma revelação. Entre outros motivos, porque a questão do sadomasoquismo não foi considerada importante.

Tampouco pareceu relevante averiguar o que Priklopil fez nas últimas horas de sua vida. As oito horas que se passaram entre a fuga de Natascha e o momento em que ele se lançou contra um trem, numa estação de Viena.

Teve tempo de apagar seus arquivos e limpar a casa de provas. Mas, de que provas, exatamente? Não parece possível averiguar, sobretudo porque, com Priklopil morto, só resta o testemunho de uma Natascha que nunca foi explícita nas descrições de sua vida na pequena casa em Strasshof.

O que ela contou mil e uma vezes não deixa de parecer uma reconstrução, um relato pensado para satisfazer as expectativas do público. Natascha negou, de forma conclusiva, que houvesse outra pessoas envolvida com o sequestro, e não esconde seu cansaço com a nova investigação aberta que, segundo a equipe de assessores que a acompanha, "pretende transformar a vítima em suspeita". Cada vez há mais pessoas que, como o juiz Adamovich, acreditam que sua versão da história omite detalhes demais.

Talvez por medo de represálias de terceiros como sustenta Johann Rzeszut, que também integra a comissão presidida por Ludwig Adamovich. Ou pelo simples desejo de manter só para ela os detalhes mais íntimos de seu cativeiro.

Terá sido esta a razão que a levou a bloquear um após o outro os acessos a seu passado? Há alguns meses comprou a pequena casa em Strasshof, onde viveu encerrada oito anos e os vizinhos a viam cuidando do jardim aos finais de semana.

"Faz parte da minha vida", disse sem mais explicações. Também ficou com o carro de Priklopil, de certa forma também parte de sua vida, porque nele viajaram juntos, ainda que não pense em usá-lo. Uma conduta enigmática que se choca com a frieza de Natascha para com sua família.

Seus pais, Ludwig Koch e Brigitta Sirny-Kampusch, separados desde antes do sequestro, de forma pouco amistosa, quase não têm lugar em sua vida. A mãe se viu obrigada a recorrer aos tribunais no ano passado, quando um ex-juiz a acusou de maltratar a filha e inclusive de estar envolvida em seu sequestro.

Brigitta, de 59 anos, só reconhece que as relações com Natascha não eram fáceis, e que no dia do sequestro havia esbofeteado a menina por ela ter respondido mal.

Brigitta escreveu um livro sobre seus anos sem Natascha e participou de um documentário sobre o seqüestro, realizado pela televisão austríaca. Nele, mãe e filha aparecem cozinhando juntas, conversando e fazendo piada, mas não conseguem transmitir a menor veracidade.

De alguma maneira, o caso de Josef Fritzl, descoberto em abril do ano passado, que voltou a sacudir os alicerces da sociedade austríaca, pode ter influenciado a intenção das autoridades do país de conhecer agora toda a verdade sobre Natascha Kampusch.

Se o caso de Fritzl, o monstro de Amstetten, o homem que manteve sua filha em cativeiro durante 24 anos, e teve sete filhos com ela, foi possível, não há aberração humana que não possa viver no subsolo desta sociedade.

"Casos assim acontecem em todo o mundo, não são uma especialidade austríaca", pontua Adamovich. E o fiscal de Graz revela que considerará seu trabalho um sucesso não só se conduzir a novas acusações contra possíveis culpados, mas se derrubar por terra algumas "teorias estranhas".

Tradução: Eloise De Vylder

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