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23/09/2009

A fome ressurge na Argentina

El País
Alejandro Rebossio Em Buenos Aires
A presidente Fernández reconhece que 23% da população vivem na pobreza. As autoridades tomam medidas de urgência contra a desnutrição

"Aqui a ajuda nunca chega", resigna-se Juanita, uma mulher magra que sobrevive em uma casa precária de madeira ao lado de uma lagoa coberta de lama e lixo em Villa Itatí, uma espécie de favela no sul da Grande Buenos Aires, com 50 mil habitantes. Sua casa é inundada pelo odor do depósito de lixo onde catadores de papel acumulam o que recolhem, mas quando chove também se enche de água da lagoa. A poucos metros um vizinho cria porcos que se alimentam de restos.

Nas últimas semanas, a fome e a pobreza voltaram ao primeiro plano da agenda na Argentina. Sete anos depois que as imagens de desnutrição na província setentrional de Tucumán percorreram o mundo, em plena crise desse país produtor e exportador de alimentos, a oposição, a Igreja Católica, as organizações sociais, os sindicatos, a mídia e até a aristocracia rural entraram no debate. A presidente Cristina Fernández de Kirchner respondeu com um plano de 272 milhões de euros para criar cooperativas que empreguem 100 mil pessoas.

O prefeito de Buenos Aires, o conservador Mauricio Macri, inaugurou um refúgio para 140 sem-tetos, enquanto enfrenta acusações do Conselho dos Direitos da Criança por gastar pouco em programas para jovens pobres e denúncias do cardeal primaz da Argentina, Jorge Bergoglio, pela exclusão social na capital.

Enquanto isso, em Itatí e outras vilas miseráveis, os moradores garantem que continuam tão pobres como sempre e que nunca se notou uma melhora, apesar do forte crescimento da economia entre 2003 e 2008.

Na crise argentina de 2002, a pobreza chegou a afetar 57% da população. Durante o mandato de Néstor Kirchner (2003-2007), o indicador recuou para 26,9%, mesmo nível de 1998, quando começou aquela crise. Desde 2007, a inflação e a crise internacional romperam a tendência, segundo estatísticas privadas. A Universidade Católica Argentina calcula que até 39% da população vivem na pobreza. Por outro lado, o Instituto Nacional de Estatística informou que o índice de pobreza diminuiu em 2007 e 2008, para 15%. No entanto, Kirchner reconheceu que subiu para 23%.

  • AFP - 10.mai.2002

    2002: duas meninas procuram comida em cesto de lixo no centro financeiro de Buenos Aires



A campanha das legislativas de 28 de junho, nas quais venceu uma oposição fragmentada, não se concentrou na pobreza. Poucos dias depois, um hospital de Salta (noroeste do país) revelou que uma em cada três crianças está desnutrida.

Em meados de agosto a Igreja Católica argentina divulgou uma mensagem do papa Bento 16 que denunciava o "escândalo" da pobreza. Um dia depois, a Central de Trabalhadores Argentinos (CTA) se mobilizou em Buenos Aires e outras cidades diante da crise. "Não bastam discursos, é preciso demonstrar que se pode distribuir a riqueza", afirmou seu secretário-geral, Hugo Yasky. Finalmente, a presidente argentina reforçou o plano de cooperativas, que se soma ao da ajuda alimentar e a um subsídio de até 55 euros mensais para as famílias com seis filhos ou mais. Mas nem a tarefa do Estado, nem a das organizações sociais é suficiente.

"A fome nunca diminuiu nestes anos", queixa-se Fátima Núñez, coordenadora do centro infantil da Fundação Che Pibe, em Villa Fiorito, bairro de barracos em Buenos Aires onde vivia Diego Maradona e onde permanecem 42 mil pessoas.

Nas salas do centro se veem os cartazes da campanha que desde 2004 denuncia que "A fome é um crime". No último fim de semana, a campanha recebeu o apoio de 200 cineastas, artistas plásticos, escritores e esportistas diante das agressões que sofreram seus organizadores. "Há mais necessidades desde o ano passado. Além disso, nestes anos apareceu o 'paco' (pasta base da cocaína)", lamenta Fátima. Em um passeio pela Villa Fiorito, entre casas de madeira, chapa, papelão ou tijolo, algumas com bandeiras do Boca Juniors e entre os braços do Riachuelo, que com sua cor negra de poluição limita o sul de Buenos Aires, Fátima encontra dois jovens pais que perambulam com seus bebês de rosto sujo. "Estão consumidos pelo paco", comenta.

"Há desnutrição", relata Fátima. "Tudo está caro: a carne, o leite, as frutas", enumera, em um país que sofre de estagflação (recessão e inflação), segundo analistas privados. "Por que você não foi à escola?", Fátima grita, entre latidos, cacarejos e música caribenha, para um adolescente que constrói sua casa de tijolos. Tem melhor sorte que seu irmão, que foi morto a tiros por piratas do asfalto.

"Há mais miséria", queixa-se Julia Ferraro, 56 anos, 12 filhos e 15 netos. Até cinco anos atrás, Julia distribuía em seu bairro a comida que era dada pela província de Buenos Aires. "No início dávamos leite, farinha, óleo, macarrão. No final, só leite, e desde o ano passado a província dá cartões com 80 pesos mensais (14,50 euros) para os que têm um filho e de 100 (18,10 euros) para os que têm dois ou mais", explica.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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