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23/09/2009

Espanha eclipsa a crise na eleição portuguesa

El País
Francesc Relea Em Lisboa
A presença econômica espanhola e as conexões do trem de alta velocidade dominam a campanha eleitoral. A Extremadura formou uma eurorregião com duas províncias lusas

Por bem ou por mal, a Espanha e o trem de alta velocidade (AVE, ou Alta Velocidade Espanhola) foram os protagonistas da primeira semana da campanha eleitoral portuguesa. Dentro de uma semana, os eleitores irão às urnas. Até agora os candidatos queimaram boa parte de seus cartuchos no que foi o monotema, e quase não falaram de assuntos como as consequências da crise ou o mau funcionamento dos tribunais, apesar de um estudo recente ter revelado que para 82% da população o maior problema da democracia em Portugal é o descrédito da Justiça.

Pelo visto e ouvido, há candidatos que acreditam que recorrer a um tema tão batido quanto os problemas entre vizinhos pode dar votos. Longe das paixões e das motivações eleitoreiras, a realidade em vários âmbitos da sociedade portuguesa e as estatísticas demonstram que as relações hispano-lusitanas gozam de excelente saúde.

"Na política portuguesa, agitar o sentimento antiespanhol não é um valor seguro. Um político que usa o espantalho espanhol corre o risco de ver o tiro sair pela culatra." Gabriel Magalhães, professor da Universidade da Beira Interior e antigo docente da Universidade de Salamanca, usa cautela ao falar da relação entre Portugal e Espanha. Bilíngue e estudioso do tema, Magalhães opina que a convivência é muito fluida, com uma mistura de sentimentos. "Há três ou quatro reações típicas diante da Espanha: os mais humildes creem que no país vizinho se vive melhor e o veem como uma ilusão; alguns ricos ficariam felizes de viver na Espanha com os mesmos privilégios e com mais comodidade; os que recusam a aproximação, não por ser antiespanhóis, mas porque gostam de ser portugueses, e um quarto grupo que não se interessa pela polêmica e tenta desfrutar de tudo o que a Espanha oferece."

Em um mesmo partido político podem-se encontrar essas diferentes sensibilidades, observa o professor português de artes e letras, que se sente "peninsular e, sobretudo, cidadão do mundo". Para Francisco España, conselheiro de educação da embaixada espanhola, não há dúvida de que a fronteira entre os dois países é cada vez mais virtual. "A presença de empresas espanholas, o desejo dos jovens de estudar medicina, principalmente, na Espanha, as bolsas Erasmus (o maior número de estudantes Erasmus em Portugal são espanhóis e a Espanha é o país mais escolhido pelos portugueses), trabalhadores que trocam de residência entre os dois países... tudo isso contribui para uma mudança drástica no imaginário sobre a nação vizinha."

O estudo do espanhol entre os jovens portugueses triplicou nos últimos três anos, alcançando o número de 51 mil alunos do ensino básico e secundário, com 541 professores em 428 escolas. Com esse salto, o espanhol está perto de superar o francês e de se transformar no segundo idioma estrangeiro nas escolas portuguesas. Em contrapartida, mais de 10.000 alunos espanhóis estudam português nas escolas da Extremadura.

A interrelação abrange outros campos. Em Portugal, trabalham 1.937 médicos e enfermeiros espanhóis. As mulheres grávidas da cidade fronteiriça de Elvas vão dar à luz no hospital-maternidade de Badajoz, a 16 km, mais próximo que qualquer centro de saúde português, depois de um acordo assinado pelos dois países. A decisão gerou polêmica na época e não faltaram os que criticaram o fato de as crianças portuguesas nascerem na Espanha. De junho de 2006 até junho de 2008 (não há dados atualizados), nasceram 500 bebês portugueses em Badajoz. A cooperação transfronteiriça teve no último dia 21 uma nova expressão, com a constituição da eurorregião Extremadura-Alentejo-Centro, que permitirá captar fundos comunitários para desenvolvimento regional e infraestrutural. A primeira eurorregião entre os dois países ibéricos é Galícia-Norte de Portugal.

Há uma diferença de ver e pensar sobre a Espanha entre duas gerações. "O antiespanholismo pode render votos no eleitorado mais maduro no interior do país, não nos grandes núcleos urbanos", indica Antonio Víctor, diretor português de uma empresa espanhola, que menciona uma realidade tão imutável quanto determinante: "Portugal não tem fronteira com nenhum outro país, tudo se enfoca na Espanha, os receios, as invejas, o imaginário".

Há dez anos, Antonio José Saraiva, o ex-diretor da "Expresso", semanário de referência, escreveu um artigo polêmico no qual indicava como inevitável o processo de integração peninsular e previa que Portugal acabaria se transformando na sexta região da Espanha, "junto de Castela, Catalunha, País Basco, Galícia e Andaluzia". Gabriel Magalhães lembra que naquela época era professor em Salamanca. "Meus alunos diziam que não tinha nenhum sentido falar em uma união ibérica e acrescentavam que a Espanha seria ingovernável se se integrasse com Portugal."

Os responsáveis da Câmara de Comércio Luso-Espanhola se iluminam quando falam de comércio e investimentos. A Espanha é o principal parceiro comercial e primeiro investidor em Portugal. Recebe 30% do comércio exterior português e as mais de 1.200 empresas espanholas no país vizinho representam 50% de todo o investimento estrangeiro (22 bilhões de euros) e dão emprego a 80 mil famílias portuguesas. No sentido inverso, há na Espanha 400 empresas portuguesas, com investimentos que superam 11 bilhões de euros e dão trabalho a 22 mil famílias espanholas.

"A realidade econômica é uma realidade de integração, não há qualquer problema com as marcas e consumo do que é espanhol", comenta Antonio Víctor. "Começam a se impor costumes espanhóis, almoçamos mais tarde e viajamos mais para a Espanha."

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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