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24/09/2009

O banco do futuro será de urânio

El País
Andrea Rizzi
Ganha força a ideia de criar um armazém da ONU que garanta a todos os países combustível para reatores nucleares. A proposta varreria os argumentos da política nuclear do Irã para não depender de outros

Os subterrâneos da usina nuclear de Natanz, no centro do Irã, cospem urânio enriquecido a um ritmo de cerca de 80 quilos por mês. Na última vez em que os inspetores da ONU visitaram as instalações iranianas, em agosto, encontraram cerca de 4.500 centrífugas ativas nessa inquietante tarefa e calcularam que a república islâmica tem acumulados cerca de 1.500 kg de urânio enriquecido. Cada volta dessas centrífugas tritura um pouco mais os equilíbrios geopolíticos mundiais. Natanz é o epicentro de um dos principais quebra-cabeças que afligem a comunidade internacional no século 21.

O regime dos aiatolás afirma que precisa do programa de enriquecimento de urânio para ser independente do fornecimento para reatores que só um punhado de países ocidentais e a Rússia podem oferecer (e cortar quando quiserem, segundo os iranianos). Essa justificativa deu asas recentemente a uma ideia original: a criação de um banco mundial de urânio enriquecido sob o controle da ONU, que garanta a todos o abastecimento do combustível nuclear para reatores.

A existência desse fundo, afirmam seus promotores, valeria o argumento de que dominar o enriquecimento é a única maneira de não ser dependente das grandes potências nucleares, as únicas que dispõem de empresas com instalações adequadas para abastecer de combustível as centrais nucleares de todo o mundo. Assim, se poderia evitar que outros se lancem em um caminho tão perigosamente ambíguo quanto o iraniano.

Teerã poderia armar uma ogiva atômica em questão de meses. Isso não equivaleria a dispor da bomba: para tanto, deveria além disso desenhar uma ogiva funcional e compatível com meios de transporte - mísseis - eficientes. Relatórios da espionagem americana indicam que a república islâmica ainda não domina essas tecnologias. Mas também não está muito distante.

Ao lado da ameaça iraniana, o empenho de uma dupla muito estranha - que defendeu e criticou a causa do banco mundial de urânio nos últimos anos - permitiu que o projeto ganhasse corpo.

O primeiro protagonista é o prêmio Nobel da Paz e diretor da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), Mohamed El Baradei. "É uma ideia muito ousada, mas nestes tempos as ideias ousadas são mais necessárias que nunca", ele escreveu a respeito, há pouco tempo.

Curiosamente, nessa cruzada o melhor aliado de El Baradei foi o homem mais rico do mundo segundo a revista "Forbes", Warren Buffet. Através da ONG Nuclear Threat Initiative (Iniciativa Ameaça Nuclear), o célebre investidor e filantropo americano promoveu com vigor a causa e ofereceu um fundo de US$ 50 milhões para sua realização, sob a condição de que governos nacionais pusessem outros US$ 100 milhões. O objetivo foi alcançado em março, graças a contribuições dos EUA (50 milhões), da UE (36 milhões), Emirados Árabes e Kuwait (10 milhões cada) e Noruega (5 milhões).

"Esta é uma ideia que vem de longe, mas historicamente não se concretizou porque não havia uma verdadeira necessidade", explica Luis Echávarri, diretor da agência nuclear da OCDE. "As circunstâncias mudaram recentemente, com a iniciativa iraniana e com o renovado interesse por energia nuclear por parte de vários países, e hoje os governos ocidentais estão trabalhando seriamente na ideia, incluindo o governo Obama. Creio que seria bom que esse projeto fosse adiante, mas os obstáculos são tão sérios quanto os esforços para superá-los."

Na mesa há pelo menos uma dúzia de projetos. Os mais realistas se limitam a propor um depósito de uma determinada quantidade de urânio enriquecido administrado pela AIEA e que interviria para garantir o abastecimento a países que sofressem um corte do abastecimento comercial comum por razões políticas.

Os planos mais ambiciosos apontam para colocar o total da produção mundial de urânio enriquecido sob os cuidados da ONU. "O que é preciso é uma disciplina e um governo internacional de todo o processo", opina Kennette Benedict, diretora do "Bullettin of Atomic Scientists", prestigiosa revista do setor. "Simplesmente é preciso assumir que nem sempre o livre mercado é a melhor solução, e certamente não o é quando se trata da mais destrutiva tecnologia que o ser humano já inventou."

"Leve em conta que além de 430 reatores de geração de energia existem no mundo outros 140 experimentais", prossegue Benedict. "Há muito material perigoso circulando, às vezes em países não muito estáveis."
Apesar da variedade de ideias, porém, todos os projetos enfrentam obstáculos muito duros. O primeiro deles é a indústria do setor, que nos processos chaves - a conversão e o enriquecimento de urânio - se configura como uma espécie de oligopólio de um punhado de empresas que são as únicas que têm capacidade de produção comercial.

Essas são a francesa Areva, as americanas Urenco, USEC e ConverDyn, a russa Atomenergoprom e o consórcio britânico-canadense Cameco. A elas somam-se, mas com uma presença muito marginal, empresas japonesas, chinesas e brasileiras. É tudo.

"Esses planos não são necessários nem bem-vindos", diz Stephen Kidd, diretor de estratégia e pesquisa da Associação Nuclear Mundial, que reúne praticamente a totalidade das empresas do setor. "Há um mercado vivo nesse setor, ninguém ficou sem abastecimento até agora e ninguém deveria se preocupar. Seria uma intrusão desnecessária em um mercado eficiente."

Kidd explica que, segundo as perspectivas atuais, "há no máximo cinco países que entrarão no clube da energia nuclear daqui até 2020, e nenhum deles desperta preocupações". "Não vemos no horizonte riscos especiais de proliferação", prossegue Kidd, "e por outra parte quem quiser seguir esse caminho o fará de toda forma, como a Coreia do Norte, que avisou fazendo explodir uma bomba. Não creio que um banco mundial de urânio a tivesse detido."

A indústria resiste e pede que - caso se concretize algum projeto - toda intervenção seja o mais residual possível, deixando que o mercado funcione livremente.

Mais que a indústria, que poderia ser obrigada pelos governos, porém, o grande obstáculo é a negativa de muitos países emergentes e em desenvolvimento. "Vários Estados não veem com bons olhos essas ideias", comenta Echávarri. "Não querem ficar fora da tecnologia, não querem ser discriminados. O regime internacional reconhece a todos o direito de acesso à tecnologia nuclear, desde que sejam respeitadas as normas do Tratado de Não-Proliferação."

"Um banco mundial de urânio ofereceria garantias de fornecimento mas consolidaria de fato uma situação de exclusão em que uns poucos têm a tecnologia e outros não", observa Benedict, interpretando as reticências de alguns países.

Se em vez de um mero armazenamento se optasse por um projeto mais ambicioso, com usinas de produção sob o controle da AIEA, poderia dar-se um maior acesso aos países emergentes e em desenvolvimento. Mas se as grandes potências aceitassem dar a esses países acesso à gestão das usinas internacionais, dificilmente cederiam o pleno acesso à tecnologia. A isso deve-se acrescentar a vertiginosa dificuldade logística, financeira e política de um projeto de tal envergadura.

Mesmo com essas dificuldades a ideia conta com o grande atrativo político de esclarecer o campo de jogo. Se existisse o banco, um país que embarcasse na aventura do enriquecimento de urânio seria mais facilmente considerado suspeito.

É importante levar em conta, como salienta Echávarri, que um programa de enriquecimento de urânio em nível industrial só tem racionalidade econômica se for dirigido para abastecer um amplo parque de reatores nucleares, pelo menos 20 ou 30. Só oito países têm programas nucleares que se aproximam ou superam esse tamanho, e isso explica por que tão poucos países se lançaram nesse caminho, além de por que a iniciativa do Irã, que centrifuga urânio sem ter sequer um reator ativo, desperta suspeitas especiais. Um reator está sendo concluído no Irã com tecnologia russa e Moscou se comprometeu a abastecê-lo de combustível nuclear.

Para compreender as magnitudes, diante dos 1.500 kg de urânio enriquecido produzidos pelo Irã em quase dois anos, o reator em construção em seu território precisará de 37 mil quilos por ano para funcionar. Em troca, os especialistas indicam que uma massa entre 1 mil e 1.700 kg é suficiente, uma vez reprocessada, para conseguir o urânio altamente enriquecido exigido para fabricar uma ogiva atômica. Basta reconfigurar as centrífugas e deixar que girem um pouco mais para "purificar" ainda mais o urânio.

Na usina de Natanz, esse processo não seria possível sem que a AIEA soubesse rapidamente. Mas o Irã é um país muito grande e a agência só tem o direito de inspecionar as instalações declaradas, observam os céticos.

O número de países com armas nucleares está em lento mas constante crescimento. Atualmente são nove, e juntos acumulam mais de 20 mil ogivas nucleares. Muitos no setor acreditam que a ideia do banco de urânio tem méritos e contribuiria para limitar os riscos de proliferação. Sem dúvida sua eficácia seria enormemente fortalecida se fosse acompanhada de um claro esforço de desarmamento das grandes potências.

O prêmio Nobel e El Baradei sintetizou assim: "Os cinco principais países com armas nucleares não levam a sério sua obrigação, segundo o Tratado de Não-Proliferação, de trabalhar para o desarmamento nuclear. Isto naturalmente os priva de autoridade moral para persuadir a outros de não adquirir armas nucleares, o que continua sendo visto como uma fonte de poder e influência, e uma apólice de seguro contra um ataque".

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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