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24/09/2009

Solteiros e presos no interior da Espanha

El País
Carmen Morán
Os pequenos municípios espanhóis se masculinizam. As mulheres, com mais estudos, buscam trabalho fora e abandonam o mundo patriarcal que as condenaria a repetir antigos papéis femininos

O despovoamento crescente que sofre a Espanha rural tem um funesto fator qualitativo que a aproxima de tempos piores: são as mulheres, em idade produtiva e de procriação, que estão indo embora. Os homens da mesma idade vão caindo na solteirice e ficam presos no negócio familiar, que em outros tempos facilitava a vida e hoje perdeu muito brilho e rentabilidade. Para cada 80 mulheres há 100 homens nas cidades com menos de 10.000 habitantes, uma porcentagem ainda maior em municípios menores.

A masculinização chega a níveis preocupantes em algumas regiões, onde se dá uma distribuição de sexo semelhante à encontrada em algumas partes do mundo (China, Índia) depois de décadas evitando o nascimento de meninas. A chamada geração sanduíche, ou geração suporte, entre 30 e 49 anos, suporta além disso as consequências de uma população muito envelhecida, que obriga, sobretudo as mulheres, a perpetuar papéis femininos arcaicos.

Esse desequilíbrio demográfico está "ameaçando a sustentabilidade do mundo rural e será causa do desaparecimento de muitas cidades pequenas", se nada o remediar, conclui um estudo da Fundación La Caixa elaborado por diversas universidades e coordenado por Luis Camarero, diretor do departamento de Teoria, Metodologia e Mudança Social da UNED.

Só 38% das pessoas entre 30 e 49 anos do mundo rural vivem no mesmo município em que nasceram, quando em 2001 eram 44,5%. Por trás dessas cifras, o êxodo das mulheres responde em primeiro lugar ao que se chamou de "fuga ilustrada": elas têm mais estudos e aspiram a trabalhos qualificados que os povoados não podem lhes oferecer. Ao mesmo tempo, o campo seguiu antigos modelos hereditários que privilegiam o homem como sucessor dos negócios familiares.

"Eles ficaram como os tristes guardiães do patrimônio familiar, que além disso se desvalorizou diante do modelo de salários urbanos, o que os transformou em maus partidos no mercado matrimonial", explica Camarero. Os homens que vivem sós chegam a 12% e esses "jovens atrasados" que ainda não se emanciparam do lar paterno atingem 30%, o dobro do índice feminino.

Por outro lado, as mulheres não querem repetir esquemas tradicionais e asfixiantes e o meio rural "amplia a desigualdade de gêneros, a subordinação do mundo feminino ao masculino", prossegue Camarero. "Os mercados de trabalho restritivos para a mulher lhes dificulta separar a vida doméstica da produtiva." Assim que as que ficam sabem que podem correr o risco de dedicar sua vida a criar os filhos e aliviar a velhice dos pais. E o fazem, mesmo à custa de seus empregos.

O envelhecimento (18% da população superam os 70 anos) gera altas taxas de dependência, que se mostram em cerca de 750 mil pessoas no mundo rural. Cerca de 10% de homens e mulheres, sós ou casadas, convivem no povoado com uma pessoa dependente, mas são elas que se encarregam de cuidar dos idosos.

A pesquisa da Fundación La Caixa elaborada em 2008 entre 1.800 habitantes deixa claro que quase um terço das mulheres pesquisadas havia cuidado de um idoso dependente na semana anterior, cerca de nove pontos acima dos homens. O coordenador do estudo, Luis Camarero, e uma de suas autoras, a professora de psicologia social da Universidade de Valladolid, Fátima Cruz, insistiram na necessidade de modificar o papel atribuído às mulheres no campo em relação a cuidar de seus idosos. Um em cada dez lares tem um dependente e a metade das pessoas de 30 a 49 anos se encarrega deles em seu próprio domicílio ou em outro da localidade. Mas enquanto para o homem isso não representa nenhum problema no trabalho, as mulheres são levadas ao desemprego ou a ficar em casa sem buscar uma ocupação remunerada.

A população economicamente ativa masculina é de 97,6% cuidando de dependentes e a mesma cifra sem cuidar de dependentes. Enquanto entre as mulheres a taxa de inatividade cresce significativamente quando têm um dependente a seu encargo, perdem quase dez pontos na porcentagem de emprego. Ausência de creches, de transportes públicos, de serviços básicos de saúde e educacionais explicam em parte o êxodo feminino. "Só um quarto dos menores de seis anos vai à creche, e quando elas existem, a rigidez de horários as torna inacessíveis. Em muitas ocasiões se contrata outra pessoa para que se encarregue das crianças", diz Camarero. E Fátima Ruiz se detém no transporte: "Hoje as jovens tiram a carteira de motorista quase no dia em que completam 18 anos, mas as mulheres mais velhas têm uma mobilidade mais reduzida".

No entanto, apesar de haver menos carteiras de motorista em mãos femininas, seja em transporte público ou privado, novamente são as mulheres que se deslocam para a cidade para levar ou acompanhar alguém por algum motivo - 35,1% delas fizeram isso. Os homens estão quase na mesma porcentagem, mas não chegam. As compras, as crianças, o médico são funções para as que se deslocam fora e cada vez mais estão a cargo das mulheres.

A falta de serviços básicos mencionada por esse estudo, e que está sendo em parte o motivo do êxodo para as cidades, não passa despercebida a José María Martín Patino, presidente da Fundación Encuentro, onde se elaboram exaustivos relatórios sociais a cada ano. "A discriminação é total no mundo rural. O Estado não levou a sério essa forma de vida e os povoados estão se desossando. Foi arrebatada a autonomia que eles tinham. Passamos de um centralismo para 17 centralismos", lamenta.

O que é necessário para frear essa sangria populacional? "Investimentos e comunicações", responde o prefeito de Cudillero (Astúrias), Francisco González, que preside a Comissão de Desenvolvimento Rural na Federação Espanhola de Municípios e Províncias. "Se o que contamina paga, o que conserva ganha. É muito fácil pedir que esses entornos continuem como sempre, com as campinas, os bosques, as casas, mas tudo isso tem um custo, viver no povoado tem seus custos." González propõe um fundo de sustentabilidade, "porque não é de recibo que se fazem passarelas para que os linces atravessem a estrada e os idosos tenham de dar uma tremenda volta para ir ao médico". Comunicações, diz González.

Mas as estradas, além de frear o êxodo rural, foram a via de escape para a cidade. Para melhorar as comunicações é mais fácil trabalhar no campo e viver na cidade, perto dos serviços que não existem no interior. Por outro lado, de nada servem as estradas "se um doente tem de vir à sede da comarca e esperar até a tarde para voltar é porque não há outros ônibus", explica Martín Patino. Há outras comunicações que hoje talvez pudessem contribuir para a permanência nos povoados: as novas tecnologias. Mas o acesso a elas, em muitos casos édifícil, em algumas regiões inexistente, não está colaborando para isso.

"O ADSL demorou porque não era rentável, mas a carência das novas tecnologias não se mede só pela chegada da banda larga, mas pela péssima estabilidade que tem a conexão nos povoados. Agora parece que algo está mudando, mas há zonas de sombra em povoados que estão a apenas oito quilômetros da cidade", explica Agustín Blanco, diretor-geral da Fundación Encuentro. Essas dificuldades estão freando as possibilidades dos jovens que vivem no interior e obrigando-os a partir. "Ao elaborar nosso estudo para La Caixa, vimos iniciativas muito interessantes, mas torna-se necessário um reposicionamento cultural", afirma Fátima Cruz. Essa professora, que além disso é secretária da cátedra de Estudos de Gênero da Universidade de Valladolid, insistiu nas desigualdades entre homens e mulheres no âmbito rural e na necessidade de reduzir esse extremo.

Tem opinião semelhante Teresa López, presidente da Federação de Mulheres Rurais da União de Pequenos Agricultores. "A sociedade rural ainda é muito patriarcal, não é fácil para as mulheres. Sobre violência de gênero, por exemplo, sabemos que há especificidades, mas ainda não dispomos de dados. É necessário distinguir nas estatísticas por âmbito rural ou urbano. Mas sabemos que é um problema difícil de combater no interior. Na última pesquisa feita sobre violência de gênero na qual se distinguiu por número de habitantes, percebemos que a violência real é a mesma, mas as mulheres do campo a percebem com maior dificuldade. Às vezes não têm consciência da submissão em que vivem, nem seu entorno familiar, onde nem sempre encontram ajuda. É preciso trabalhar em programas de prevenção, não podemos correr o risco de que as conquistas sociais corram em velocidade diferente na cidade e no campo", afirma.

Os autores do estudo de La Caixa quiseram também mostrar a face alegre da moeda no mundo rural. A chegada de pessoas que transferem sua residência da cidade para o campo. Os "neorrurais", novos moradores, representam 17% da população e, embora não possam conter o despovoamento, estão contribuindo para dinamizar a vida nas cidades pequenas. "São gente jovem que traz filhos, que mantém as escolas abertas e anima os moradores locais a continuar vivendo no campo. Mas a mobilidade é chave para tudo isso", explicou Fátima Ruiz - 55% dos homens e 60% das mulheres (em cidades com menos de 100 habitantes) se deslocam do município para trabalhar.

Como o problema nos povoados às vezes não é tanto a falta de serviços, senão como se percebe, "por exemplo, que a assistência às pessoas dependentes não recaia majoritariamente nas mulheres", afirma Cruz. Os povoados têm suas luzes e sombras, suas carências e sua qualidade de vida. São outros modelos de enfrentar a vida, o trabalho, a criação dos filhos. Cruz é otimista. Apesar de temer que muitos povoados pequenos vão desaparecer, acredita que há "uma revalorização do rural". Hoje, talvez mais que nunca, diz ela, nota-se "um maior orgulho" por viver no interior.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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