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25/09/2009

Honduras se aproxima do abismo enquanto Micheletti e Zelaya mantêm a disputa

El País
Pablo Ordaz Enviado especial a Tegucigalpa
Roberto Micheletti falou em diálogo, mas na mesma hora um policial disparou um fuzil e matou Francisco Alvarado, um pedreiro de 65 anos que tinha saído de sua casa na colônia Flor del Campo, no sul de Tegucigalpa, para tentar comprar comida na esquina. Manuel Zelaya recebeu algumas caixas de alimentos em seu refúgio na embaixada do Brasil, mas na mesma hora os hondurenhos, aos quais a crise surpreendeu com a despensa vazia - as despensas quase nunca estão cheias neste país -, bebiam o último gole de água potável, comiam a última porção de arroz. Continuaram passando as horas, enquanto os dois presidentes - o golpista e o deposto - continuavam discutindo sem ouvir o caos que se desencadeou em Honduras.

As pessoas saíram às ruas com o desespero causado pelo estômago vazio. A caminho das mercearias e dos supermercados fechados por causa de um toque de recolher que já passava de um dia e meio, os moradores dos bairros mais castigados enfrentaram a polícia e o Exército. Houve golpes, o lançamento de granadas lacrimogêneas, tiros.

Na mesma hora em que Hugo Chávez pronunciava sua arenga do dia e Lula da Silva pedia um pouco de moderação, María Alvarado chegava ao necrotério de Tegucigalpa e se sentava para esperar que lhe entregassem o cadáver de seu irmão. "Mataram-no na porta de minha casa", contou ela a este jornal.

Francisco Alvarado saiu de sua casa na colônia Flor del Campo para tentar comprar refrescos e alimentos na mercearia da esquina, que apesar do toque de recolher mantinha a porta entreaberta. "Encontrou uma manifestação de resistentes", conta sua irmã quando as lágrimas permitem, "e então chegou a polícia. O mataram. Os policiais dispararam e o mataram. Quando o trouxeram para o hospital já estava morto. O povo está sendo morto, senhor. Os políticos aparecem contentes na televisão, mas estão matando o povo."

O necrotério de Tegucigalpa fica atrás do Hospital Escola. Assim que se entra, percebe-se que Micheletti e Zelaya continuam sustentando um diálogo de surdos sobre o abismo que é Honduras. Há três meses, quando Micheletti chegou ao poder graças aos militares que sequestraram e expulsaram Zelaya, Honduras já vivia uma situação desesperada, mas os últimos 88 dias deixaram o país à beira do colapso.

Do ponto de vista econômico, há dois dados principais: a comunidade internacional suspendeu a ajudas e o navio que vinha da Venezuela com o petróleo que não só serviria para abastecer os carros, mas para financiar o funcionamento do país, deixou de chegar. Segundo dados do governo, cada dia de toque de recolher gera prejuízos de 400 milhões de lempiras (cerca de R$ 54 milhões).

Do ponto de vista social, outros dois dados: a tensão alcança níveis preocupantes entre uma cidadania de natureza pacífica, e as crianças não vão à escola desde dois dias depois do golpe. Faz, portanto, três meses que as crianças vivem entre a televisão e as ruas, que são das mais perigosas da América Latina. Se há uma imagem que sintetiza com amargura tudo o que foi dito acima, é um passeio em busca de feridos pelo Hospital Escola de Tegucigalpa.

O dr. Díaz está esgotado. "Olhe", levanta uma cortina, "este rapaz levou esta manhã um tiro no abdômen. Teremos de operá-lo. Creio que se salvará. Acabam de trazê-lo, mas se quiser pode tentar falar com ele." O rapaz, chamado Josias Sánchez, 24 anos, é mais uma vítima dos disparos da polícia. O senhor que está ao lado dele é seu pai e também está ferido. "Estávamos em uma manifestação pacífica. Chegou a polícia e começou a disparar. Chame o mundo, por favor, diga que nos ajude, que isto é um desastre."

A pregação do homem é cortada por uma enfermeira que pergunta: "É preciso fazer radiografias. O senhor pode ir andando? Não há mais macas". Nem macas nem gaze nem, ao que parece, detergente para limpar o chão. A conversa é interrompida por gotas frias e sujas - supõe-se que do ar-condicionado - que caem do teto sobre os feridos e o repórter e pelos gritos de dor de Jairo, um sindicalista que levou um tiro no rosto.

Ao sair na rua, o rádio do táxi repete as palavras de Micheletti. Diz que está disposto a dialogar com Zelaya se este reconhecer o resultado das eleições. Também há palavras do presidente deposto, da Embaixada do Brasil. Continuam discutindo sobre o abismo de Honduras. Nenhum fala da fome da população, dos feridos atirados nos corredores do Hospital Escola.

O ministro das Relações Exteriores espanhol, Miguel Ángel Moratinos, anunciou que os embaixadores europeus e norte-americano voltarão a Tegucigalpa a pedido de Zelaya, informa Miguel González de Nova York. A decisão é resultado de uma reunião que ocorreu na missão da Espanha na ONU (Organização das Nações Unidas).

"Já parece Cuba"

10h30 da manhã de quarta-feira. A rádio e a televisão passam toda a manhã recolhendo depoimentos de hondurenhos que dizem que acabou a água tratada, o feijão e o arroz, o leite para as crianças... também não há café. Não passam caminhões pela fronteira. Os supermercados que não foram saqueados continuam fechados. E no do complexo comercial Metro Centro, uma zona rica de Tegucigalpa, a fila já alcança 200 metros. Os moradores querem aproveitar que Micheletti suspendeu o toque de recolher das 10 da manhã às 4 da tarde. Não se sabe por quê, mas o supermercado não abre totalmente as portas. E começa o nervosismo. Ouve-se um grito: "Que pena de Honduras, já parece Cuba!"

Este jornal assiste ao diálogo, cada vez mais tenso, entre duas mulheres na fila. De um lado Nubia Flores, advogada, classe acomodada, partidária de Micheletti. De outro, Nuria Maldonado, dona-de-casa, classe trabalhadora, partidária de Zelaya. "Os pobres estão se deixando manipular por Zelaya", disse uma. "Claro, como os pobres são idiotas!", responde a outra. "Eu não disse idiotas, mas é verdade que há muitos que preferem ganhar sem trabalhar. Há gente muito preguiçosa que diz que é pobre para não trabalhar, para nem sequer se lavar", retruca a primeira. "Escute, senhora, eu sou pobre mas trabalho e me lavo", fala a segunda. "Não estou falando da senhora. Mas quem se mete em tudo? Chávez, esse é o demônio", afirma a advogada. "Não serão os demônios os empresários, quatro famílias que têm todo o dinheiro e não querem dar para os outros nem as migalhas?", questiona a dona de casa.

A discussão continua. Não se olham, mas se lançam cargas de profundidade. Sem violência, nem mesmo agressividade. Nubia Flores na frente, Nuria Maldonado atrás. Civilizadamente. Sem merecer, nem uma nem outra, os governantes que a sorte lhes deu.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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